Garota Exemplar, de David Fincher – ou O segundo turno a partir do cinema II

ASSOMBROSA SINCRONIA

Garota exemplar, o mais recente filme de David Fincher, atualmente em cartaz, cai como uma luva para o tempo presente, em que nós, brasileiros, estamos diante de uma escolha difícil entre candidatos que têm, por trás de si, fortes aparatos de marketing. Sim, talvez o enunciado acima devesse ser reformulado para as eleições de 2014 como um todo e, quem sabe, ainda, para qualquer eleição no mundo de hoje, onde quer que seja. Contudo, o escrutínio que se avizinha tem nos absorvido a todos de tal forma que não passa pela cabeça de ninguém, hoje, pensar num contexto eleitoral que não seja o que elegerá, domingo, o próximo presidente do Brasil (e alguns governadores que ainda restam).

Fincher desta vez partiu do romance da escritora Gillian Flynn, que também assina o roteiro. Não conheço nada dessa romancista, mas há de se lhe reconhecer, inicialmente, uma maestria na criação e manutenção do suspense: a garota exemplar do título em português inicia o filme sumida – dando mais razão de ser ao título original, em inglês (Gone Girl) – e abrindo uma incógnita quase do tamanho daquela que só será resolvida no próximo dia 26/10. Terá sido morta – e por quem? – ou terá desaparecido de caso pensado? Evidente que a solução aparece, mas só depois de termos sido levados a crer em uma e outra hipótese. E, ainda com o intuito de não estragar a surpresa de quem ainda não foi ver esse incômodo filme, só posso dizer que, tal qual numa eleição, a revelação do acontecido (o “veredito”, digamos) é nada mais do que o início de um segundo tempo (muito bem marcado no filme por um breve lapso em que a tela fica sem imagem alguma) prenhe (seguramente) de fortes emoções.

Conclua-se que Garota exemplar é, do ponto de vista formal, perfeito – como não poderia deixar de ser, sendo Fincher um notório perfeccionista. As atuações, também, são precisas, em especial da “maluca” Amy, vivida pela quase desconhecida Rosamund Pike. Mas e quanto ao resto? Há algo que o afaste de um bem realizado thriller? Quero sustentar aqui que sim. Que Fincher, um diretor a respeito do qual já escrevi dois posts (correspondentes aos seus A rede social e Os homens que não amavam as mulheres), se mantém, para mim, como um cineasta capaz de nos conduzir a questões importantes relativas ao nosso presente. No caso desse Garota exemplar, aonde reside essa capacidade?

Uma aposta para tal pergunta passa pelo fato de que esse filme aborda o casamento. Não li o livro que lhe deu origem, mas algo me diz que a sensação que talvez tenha causado enquanto tal advenha da sua trama, que aborda as dificuldades mais atuais dessa modalidade de relacionamento. A solteirice como opção socialmente válida no mundo contemporâneo certamente ajuda a que se formule a pergunta: qual a vantagem de nos submetermos a um “contrato” em que abrimos mão do controle que podemos efetivamente ter sobre nossas vidas? O casal do filme, como todo casal, vive seu momento de esplendor inicial, o qual, cedo ou tarde, se vê colonizado pela rotina ou outra fonte qualquer para a insatisfação/decepção. Vá-se a qualquer cerimônia de casamento e ouça-se o que o padre terá a dizer a esse respeito: a impressão que se tem é a de que somente loucos estarão dispostos a tal entrega.

O “problema” se torna maior – e não estou, com isso, antecipando qualquer desenlace da história do casal do filme – quando, do balanço de perdas e danos que eventualmente tenha redundado em separação, uma das duas partes se sinta injustiçada. Eis que daí se abre toda uma avenida para o trafego dos mais pesados carregamentos de ódio e outros sentimentos até então meramente abordados, na vida de cada um, pela ficção. Com Ben Affleck, que vive o protagonista no filme, vamos vivendo algo do gênero: um admirável mundo novo.

Mas, apesar dessa possível leitura relativa ao universo matrimonial, creio que o forte deste último Fincher está mesmo na tematização desse elemento tão à flor da pele hoje no Brasil: a opinião pública e a sua manipulação. Garota exemplar nos traz, novamente, com essa Amy (e, por que não, com o seu desafortunado marido), um personagem que joga. Digo “novamente”, porque o grande barato, como já comentei aqui, de Os homens que não amavam as mulheres, foi a sua protagonista que, dada uma situação desfavorável, consegue uma incrível reversão. Perceber, com precisão, de quê exatamente é composto o mundo que nos cerca, eis o primeiro passo para qualquer ação minimamente efetiva, consequente, em seu bojo. Esse é o grande tema de Fincher, me parece.

Teremos, algum dia, numa eleição e tal qual um casal que se reconcilia, condição de distinguir, em meio a tamanha massa propagandística (de lado a lado), um grão sequer de verdade?

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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