Cinco anos de balbúrdia

PUGILEMOS EM FRENTE

Em breve, fará cinco anos desde que comecei este blog. De lá pra cá, foram 93 posts, uma média de uns 18 a 19 por ano. Penso que cabe uma avaliação.

Julgo que a primeira coisa a dizer passa pela proximidade que ele adquiriu com o cinema. Não foi algo intencional, eu juro. O primeiro post tendo sido sobre Avatar, lembro-me de ter recebido um toque da amiga Yumi Suzuki de que, apesar de interessante, estava muito longo. Ninguém está disposto, neste ambiente que é a internet, a se deter em longas elucubrações; a não ser que já exista, de antemão, um propósito resoluto de embarcar numa leitura específica qualquer – e esse definitivamente não é o caso daquilo que posto aqui e faço chegar aos meus virtuais leitores por duas formas básicas de divulgação (email e facebook).

O cinema, sim, é manancial de inúmeras coisas para mim (como para milhões de pessoas no mundo todo): reflexões, sensações, emoções, epifanias. Talvez, fosse o caso de, dada essa enorme quantidade de input, eu me limitar ao papel de crítico de cinema. Há hoje, certamente, bons críticos em atividade e o escopo de meios onde atuam é vasto. Gosto, por exemplo, do Inácio Araújo e da sua capacidade de, às vezes num diminuto bloco quatro ou cinco linhas de jornal, nos auxiliar quanto a um filme que se avizinha na TV ou nas lojas, resumindo-o magistralmente e apontando um motivo ao menos para vê-lo ou não. Tenho, quando escrevo sobre filmes, essa preocupação: que ao menos sirva para uma decisão (de ir ver o filme). Afinal, o que mais importa é a arte; a crítica, sem ela, não existe; e, por fim, se haverá de se formar ou não um consenso quanto ao que é dito sobre uma determinada obra, isso também não é crucial.

E gosto, também, quando alguém mete na cabeça entender o que um determinado cineasta quis dizer ao longo de sua obra ou em um filme em específico. Esse é um mergulho deveras saboroso, para o qual não faltam piscinas acadêmicas – ou estaleiros da “verdade”. Talvez faltem revistas ou outros meios para veicular os ensaios que daí resultam. Mas, os centros culturais que vejo proliferar suprem parte dessa carência, aceitando, de curadores altamente capazes, propostas de mostras e festivais. Beneficio-me de algo do gênero, como dão prova o post sobre a mostra de Tsai Ming Liang e a cobertura que tenho realizado do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Contudo, acredito que o ingrediente principal daquilo que aqui escrevo seja outro que não o cinema. Diversas vezes me vi tentado a escrever sobre outras modalidades artísticas, como a música, literatura ou as artes plásticas e performáticas. O máximo a que cheguei, nesse sentido, foram os poucos posts sobre fotografia (alheia, já que a minha aparece enquanto obra e não enquanto crítica), teatro ou performance. Acontece que cinema é daquilo que mais entendo nesse grupo, é onde tenho maior familiaridade, mas não obrigatoriamente aquilo que mais me encanta. Não sei dizer, nesse universo, o que é que mais me encanta; mas, voltando à constatação do início deste parágrafo, tendo a crer que o ingrediente chave deste blog é o entusiasmo que aquilo que vejo provoca em mim. Busco, aqui, uma certa fidelidade a esse entusiasmo.

A etimologia dessa palavra, como já mostrou o mestre Jorge Forbes, revela a presença da raiz grega pela qual se dá nome aos deuses: théos. A partir disso elaboro: uma obra de arte – e exatamente o tipo da obra de arte que me interessa – carrega consigo a capacidade de nos alçar à condição de formulador de mundos, ela nos oferece virtualidades a partir da qual novas realidades podem se tornar viáveis ou, ao menos, dignas de consideração.

Mas há um segundo encanto nisso de manter um blog. É o encanto – a febre, talvez – que reside na escrita em si e que pressupõe, conforme me dou conta, uma fé: a fé nas palavras. Elas dão conta de alcançar os mais insuspeitos lugares, estados, formas e condições, bastando que acreditemos nelas. Elas surgem, chegam das mais diversas direções a nos franquear o caminho até onde achamos, vagamente (de início), que dá pra chegar. Cortázar, salvo engano, falava da escrita como uma sorte de pugilato (com as palavras) e a minha curta experiência aqui no balbúrdia tende a confirmar esse retrato; mas eu talvez acrescentaria que se trata de um generoso pugilato, em que não ocorre que percamos nunca – a não ser quando resolvemos, por medo, vergonha ou sabe lá o quê, não encarar o desafio.

Um dos escritores de que mais gosto é Salman Rushdie, alguém que, em função daquilo que escreveu, viveu na pele as consequências máximas que podem advir da estupidez humana. Foi sentenciado à morte por um fajuto líder religioso, cujo nome nem vale a pena resgatar. Num de seus livros posteriores a essa condenação, quando já se levantava – depois de anos – essa absurda fatwa, ele pôs na boca de um dos seus personagens a falta de limite para essa mesma estupidez. Mas é digno de se notar que nem mesmo esse paroxismo por ele (Rushdie) vivido foi capaz de impedi-lo de continuar a escrever. Digo isso porque percebo que a escrita, a atividade literária, carrega consigo uma força tamanha que talvez seja a única capaz de se contrapor a essa outra força humana incomensurável que é a “bendita” estupidez. Como se, quanto mais estupidez houver no mundo, mais motivos haverá para que sujeitos tão incautos (alô, Mateus!) como eu se animem a invocar o poder (regenerador?) que as palavras têm.

Aprofundo e penso que talvez somente as palavras é que fazem jus a essa outra capacidade humana que é o pensamento. O ano que ora se encerra foi repleto de acontecimentos que demandaram, de todos nós, posicionamentos, supostamente precedidos pelo pensamento. A vida em si é assim, mas eis que ela nos reservou um ano particularmente revolto em termos de sins e nãos (torcer, não torcer; “esquerda” ou “direita”). E o que posso dizer a esse respeito é que dei graças a deus, ao longo dele, por ter, há cinco anos atrás, inventado este blog. Foi o que me salvou: ter tido o espaço para proclamar, mais que tudo, dúvidas e angústias, ao invés de aderir a certezas prêt(es)-à-porter.

Termino agradecendo a vocês, leitores, a honra da visitação. Com tanto cronista bom por aí, tanta gente tão hábil no manuseio de substantivos, adjetivos, verbos, pronomes e advérbios (para não falar em ênclises e mesóclises), a captura de vossa atenção, quando não a manifestação de um apreço, é um feito e tanto!

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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