O Abutre, de Dan Gilroy

UM FILME QUE VALE POR UMA TESE (OU CORRE QUE O PEBA TE PEGA!)

“Abutre” certamente é uma tradução infeliz para Nightcrawler, título do imperdível filme de estreia do cineasta norte-americano Dan Gilroy, atualmente em cartaz. O abutre é um pássaro, de todos muito conhecido, que aparece sempre que há morte, para se alimentar da carniça. O personagem principal de O abutre, Lou Bloom – vivido magistralmente por Jake Gyllenhaal –, é também alguém que descobre que a vida pode ser “ganha” a partir da morte (ou, ao menos, do sangue vertido) dos outros; só que a forma como faz a abordagem é bem diferente daquela desse indesejado pássaro: em primeiro lugar, não vem do céu, mas sim pelo asfalto, quilômetro a quilômetro, palmo a palmo, num poderoso Camaro vermelho, fruto das primeiras economias no novo ramo; em segundo, sua ação é basicamente noturna, período do dia em que as pessoas tendem a se achar mais “a salvo” e, consequentemente, cometem mais besteiras, do tipo que as conduzem para as páginas dos jornais ou, como é o caso nesse filme, para as telas de TV e seus noticiários diários, onde, depois de terem sido filmadas por um cinegrafista free-lancer como Bloom, são (as besteiras cometidas) reportadas. Um tipo específico de tatu, o tatu-peba, que também se alimenta de restos mortais, talvez seria o bicho que melhor corresponderia a esse personagem do título; contudo, quem sabe pela sua aproximação a um outro tipo de tatu, o jeca, ele tenha acabado, na corrida tradutória, por perder facilmente para o abutre.

Lou Bloom não tem absolutamente nada de jeca, ainda que comece o filme como um semi-mendigo na Los Angeles atual, alguém seguramente deslocado à procura de um emprego que não aparece por conta de uma evidente incompatibilidade sua com o meio (quem é que quer um delinquente no seu rol de empregados?). A bem da verdade, muito ao contrário, ele é o mensageiro, o condensador, de uma disciplina cuja cátedra se encontra inteiramente na internet: sabe tudo de gerencialismo; aplica-o, como o mais rigoroso dos discípulos, a cada situação cotidiana. E o que é mais assustador: não tem o menor constrangimento em verbalizar, em alto e bom som e para quem quiser ouvir, as regras que pautam o seu proceder (como quando diz ao personagem de Rene Russo, num primeiro encontro de caráter privado/amoroso, que havia feito, na rede, um levantamento completo da sua vida).

É um personagem e tanto. Sempre alguns lances à frente dos seus interlocutores, enxerga uma oportunidade na cinegrafia voltada para o jornalismo sensacionalista (uma espécie de paparazzo das desgraças alheias) e passa a se apresentar, quase de imediato (depois de ter adquirido uma câmera que nem sequer era profissional), como empresário do ramo. Tem toda a lábia necessária para tal, todos os princípios do gerencialismo, aprendido on-line, na ponta da língua. É, a partir de certo momento, de fato, um empresário, tanto quanto tantos outros empresários famosos com que o cinema norte-americano já nos brindou (sempre com atores excepcionais a interpretá-los): Scarface, os Corleones da saga d’O poderoso chefão, o Jordan Belfort de O lobo de Wall Street. A uni-los, o fato de serem, também, bandidos, infratores da lei, necessariamente, como que a comprovar que não haveria capitalismo se não tivesse havido, na sua origem e exercício diário, ilegalismos de toda sorte. Eis um filão cinematográfico de extrema riqueza; e uma das novidades corre por conta de tudo acontecer não muito distante de onde esse filme provavelmente foi concebido e acabou sendo filmado: Los Angeles, vulgo Hollywood, como que a registrar que o cerco se fechou, que a realidade já bate à porta da ficção portando as credenciais necessárias para se deixar entrar (ou que a ficção não precisa ir muito longe para encontrar algo da ordem do extraordinário).

Porém, muito mais do que isso, eu creio que o grande mérito de O abutre corre por conta do corajoso retrato que ele promove da esquizofrenia gerencialista. Não conheço nenhum outro filme que tenha feito isso. Antes de entrar nisso, contudo, gostaria de chamar a atenção para um momento no filme que me parece funcionar um pouco como uma forma de espelho, a unir o filme em si e a atividade do repórter de rua, nele retratada. Por que é que os telejornais dão tanto espaço a esse tipo de matéria, de caráter sensacionalista? Lou Bloom responde à própria pergunta: as pessoas buscam informações sobre o que está lá fora, à solta, e que pode, eventualmente, lhes aparecer à sua frente, ameaçando-as. Tem a ver com um certo instinto de proteção.

Pois bem, e o gerencialismo, como entra nisso? E por que há de portar consigo uma esquizofrenia? Deixo a gente mais competente do que eu, que estuda o assunto em profundidade (como o meu amigo Mário Salimon), a sua descrição pormenorizada. Só o que me é dado recomendar, nessa seara, é o livro do brilhante sociólogo norte-americano Richard Sennett A corrosão do caráter – as consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Já nos idos de 1998, com esse livro, Sennett apresentava a suspeita de que a palavra chave “flexibilidade” no ambiente de trabalho – a se opor a tudo o que fosse “a longo prazo” – estaria na origem de uma desconexão de nós mesmos, trabalhadores do mundo atual, com aquilo que conforma a palavra “caráter”. O que é o caráter? Sennett vai até a Grécia Antiga atrás de uma definição:

“Horácio escreve que o caráter de um homem depende das suas conexões com o mundo. Nesse sentido, ‘caráter’ é um termo mais abrangente do que o seu mais moderno sucedâneo ‘personalidade’, que diz respeito a desejos e sentimentos que podem desabrochar no interior de cada um, sem que ninguém os testemunhe. (…) Caráter tem a ver particularmente com o aspecto de longo-prazo da nossa experiência emocional. É expresso pela lealdade e compromisso mútuo, ou pela busca de metas de longo prazo ou pela prática de uma gratificação tardia em nome de um objetivo futuro. De dentro da mistura de sentimentos em que todos estamos imersos num momento qualquer, procuramos salvar e manter alguns; tais sentimentos perenes servirão ao nosso caráter. Caráter diz respeito a traços pessoais que valorizamos em nós mesmos e pelos quais procuramos ser valorizados pelos outros.”

E logo em seguida, segue:

“Como decidir o que possui valor perene numa sociedade que é impaciente, que se concentra no momento imediato? Como é que metas de longo prazo podem ser perseguidas numa economia devotada ao curto prazo? Como é que lealdades e compromissos mútuos podem ser sustentados em instituições que estão permanentemente se dividindo ou continuamente sendo redesenhadas? Essas são questões sobre caráter colocadas pelo novo e flexível capitalismo.”

Há uma impossibilidade aí. O caráter vai, como se costuma dizer, pras cucuias; e, voltando ao filme, por mais que simpatizemos com Lou Bloom enquanto sagaz reencarnação de outros “heróis” cinematográficos, não podemos deixar de ver nele seja uma perfeita ilustração daquilo que Sennett capturou no seu livro acima citado, seja um símile de indivíduos em carne e osso com os quais nos deparamos diariamente, cada vez com mais frequência, com suas propostas de governanças e gestões as mais diversas, em nossos ambientes de trabalho (seja na iniciativa privada, seja na administração pública – como é o meu caso – ou no terceiro setor, investigado por Mário). A minha experiência pessoal com alguns desses já me levou ao mesmo ponto da policial que investiga e interroga, no filme, o engenhoso e arriscado pulo-do-gato final de Bloom: de ter que lhe dizer que apesar de sua história ser muito bonita e bem amarrada, é mentirosa e que o que ele de fato cometeu (ou tentou, no caso dos meus “chegados”) foi um crime. Na verdade, mais de um, como Gilroy nos dá a oportunidade de comprovar.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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2 Responses to O Abutre, de Dan Gilroy

  1. marcelo disse:

    Boa sacada, Andres, essa do Sennet, cujo livro citado só conheço de resenhas. Mas gosto muito do “Declínio do homem público: as tiranias da intimidade”. Abraço do Marcelo

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