Sobre Charlie Hebdo e arte contemporânea

A ARTE DE DIZER NÃO A BARBARIDADES

Estou, começo a me dar conta, com um grande livro em mãos: a coletânea de ensaios do filósofo Arthur C. Danto, intitulada O descredenciamento filosófico da arte. Acabo de terminar apenas o terceiro – de um total de nove – e já explode em mim uma urgência de trazer para este espaço a relação entre a novidade que esse autor opera no universo estrito (sic) da filosofia da arte (é esse o seu “negócio”) e uma discussão com a qual todos nos deparamos a partir do atentado ocorrido na sede do Charlie Hebdo, quando foram mortos os cabeças desse jornal satírico francês (bem como alguns outros seres encontrados no caminho). Adianto a discussão, que está nos jornais e nas redes sociais: se não haveria, por trás desse horrendo massacre, uma razão a justifica-lo: o Ocidente e seu etnocentrismo, concretizado na forma de preconceito, islamofobia, colonialismo, etc., etc.. Muitos – de renomados articulistas a amigos próximos – têm embarcado nessa leitura, questionando o anúncio, por parte de uma maioria, da adesão “automática” e “acrítica” ao “Je suis Charlie”; e, de modo mais particular, um amigo que conhece a minha trajetória intelectual, me indagou sobre qual seria a postura de Foucault diante desse fato (já que, como é por quase todos sabido, ele apoiou, em 1978, a Revolução Iraniana).

Ainda chego, mais abaixo, na resposta que dei a esse prezado amigo, historiador de formação e profissão. Antes disso, no entanto, permitam-me que volte a Danto e à sua filosofia da arte. No segundo e terceiro ensaios da referida coletânea, ele aborda a questão da interpretação, combatendo aqueles que, como é o caso de Susan Sontag, a abominam alegando que é necessário “deixar a obra falar”. A sua postura diante dessa questão é a de que é a interpretação aquilo que identificará um objeto qualquer enquanto obra de arte: “a interpretação, no sentido que eu uso, é transfigurativa. Ela transforma objetos em obras de arte e depende do ‘é’ da identificação artística.”(p. 79).

No fundo – uso essa expressão não para interpretar, mas para procurar resumir o que já está no texto –, Danto, um pensador contemporâneo, responsável pela aceitação e consagração de um Andy Warhol, ao escrever isso, estava tentando explicar o que é que, a partir do mictório de Marcel Duchamp, exposto em 1917 com o título de Fonte, faz com que arte também possa consistir na escolha, pelo artista, de objetos, digamos, aleatórios (péssima palavra para descrever o que é encontrado no cotidiano). A questão passa por uma quebra em relação a um milenar entendimento da arte como mero meio, transparente, “diáfano”, de representar “a” realidade. Assim, ele afirma que:

“é possível compreender a história recente da arte como um esforço filosófico de reafirmar sua própria identidade, de infundir em si o espaço que a teoria havia lhe exigido vagar, de preencher aquele vazio e desdenhar a magra recompensa da mediunidade ao chamar a atenção para si, algumas vezes audaciosamente; de se tornar ‘uma realidade’, como os artistas gostam de dizer. E um estratagema para alcançar isso tem sido mais ou menos virar a mesa no tocante à realidade ao forçar objetos inegavelmente reais a servir como media, possuindo-os como fantasmas, de modo a que as obras desse mestres da mágica artística reversa, como Marcel Duchamp, se apresentam no corpo de objetos dos quais não teríamos nenhum conhecimento se não fossem pás de neves (sic) ou porta-garrafas, rodas de bicicletas ou pentes de cabelo.” (p. 61)

Mas essa defesa da interpretação está longe de ser irrestrita, já que existe todo um aparato, quase um vício, gerador de interpretações que surgem num segundo momento, quando um objeto já se transfigurou em obra de arte, já adquiriu uma identificação artística. A essas interpretações Danto vai dar o adjetivo de “profundas”; e esse aparato, ou vício, ele vai identificá-lo às ciências humanas, na qual não faltam exemplos de que o significado dos fatos não se encontra nunca na sua superfície (ele dá como exemplos, dentre outros, o marxismo, a psicanálise e a filosofia da história hegeliana). Tudo o que é reproduzido a partir desse aparato e desse vício no campo da crítica artística é por ele visto como perda de tempo (e eis por onde ele acaba por, parcialmente, dar razão a Sontag) e, mais ainda, um dano, posto que, por aí, se infiltra um perigoso relativismo.

A obra de arte, para Danto, é dotada de uma constância; e a determinação sua enquanto tal passa por uma autoridade, que é a do seu criador. Uma intepretação útil (no sentido de alavanca acima exposto, quando a obra ainda não está identificada enquanto arte) não tem como fugir a essa “superficialidade”. São nesse sentido as suas palavras quando pondera que “não podemos estar profundamente enganados se supusermos que a interpretação correta do objeto-como-obra-de-arte é aquela que coincide mais proximamente com a interpretação do próprio artista.”(p. 79)

E eis onde, finalmente, chego às repercussões do atentado contra o Charlie Hebdo. Essa barbaridade não é, nunca foi, e nunca será uma obra de arte, muito pelo contrário (ponho ênfase aqui: não se trata de nada disso). Contudo, percebe-se como há toda uma máquina de interpretação profunda – semelhante àquela que existe no campo específico da arte – que, logo, logo, entra em funcionamento e impede que se veja o óbvio: que os autores desse atentado (bem como do que o acompanhou, no mercado judeu) são trogloditas, que obedecem a outros energúmenos autoritários que, por sua vez, deturpam tradições que, se formos ver, também estão na base daquilo que se considera como Ocidente (a cultura persa, por exemplo, com toda a importância que tem no que tange à ciência da administração). Que não há bem algum a advir, em lugar algum, seja das suas convicções, seja dos seus métodos!

E, bom, quanto a Foucault, o que respondi ao meu amigo é que tenho certeza de que a esta altura, trinta e seis anos decorridos desde a revolução que ele fez questão de ir testemunhar e sobre a qual escreveu – e que influenciou seu pensamento indelevelmente -, ele já teria, caso vivo estivesse, há muito, voltado atrás no apoio dado. O mundo hoje é muito diferente daquele em que Foucault exerceu seu trabalho. Hoje, ficamos sabendo das coisas em qualquer lugar antes mesmo de que elas aconteçam (vide a morte de Niemeyer). Somos partícipes, em grande escala, de tudo. E vice-versa: o mundo não permite mais que nos escondamos na ignorância ou no medo. Não podemos mais nos dar o luxo de silenciar diante de atrocidades, de dar descontos relativizantes em nome de uma tolerância, no fundo, covarde – em suma, de não agir, preferindo o confortável “gozo do pensamento” (será que isso, será que aquilo, e se isso fosse aquilo e assim por diante). Essa atividade, de se importar com o mundo enquanto solo comum sobre a qual pisamos – e de tomar uma atitude a respeito –, é uma na qual Foucault, no Ocidente, certamente, foi pioneiro.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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