Uma imagem inusitada

UMA PRESIDENTE BINACIONAL?

Em Brasília, em função do seu design, se você não tem carro, não é ninguém. Eu tenho um que já está meio velho (vai pra 180 mil km) e, portanto, tem dado alguma oficina. Quando isso acontece, levo na mesma oficina mecânica onde meu pai leva os seus desde que eu me entendo por gente. Hoje, quem administra o estabelecimento são os filhos do dono que, assim como o meu pai, já se aposentou. Temos, eu e eles, um relacionamento raro em se tratando desta dinâmica cidade: de segunda geração, que replica a amizade dos velhos. Pois bem, há já um bom tempo que eles oferecem o serviço que, nas concessionárias, recebe o nome de transporte de clientes: te deixam, uma vez tendo dado entrada no conserto, aonde você pedir. Para tal, tem até um carro dedicado e um motorista (que também se encarrega, ao longo do dia, de fazer a compra das peças na medida em que a necessidade surge).

Esse rapaz, um jovem de, digamos, uns 18 a 20 anos me trouxe o outro dia até em casa. Um trajeto de cerca de 20 minutos. Viemos falando sobre assuntos diversos até que topamos, já na segunda metade da viagem, no assunto (governo) Dilma; e eis que ele me surpreendeu com uma dúvida pessoal, dessas que a gente carrega internamente e só revela a estranhos, em situações tão esporádicas como essa. Fiquei tão surpreso com ela, que somente alguns minutos depois de revelada foi que chequei, desta feita na minha cachola, se não se trataria de alguma piada sofisticada ou tirada irônica – chegando a conclusão de que não, de que era fruto da mais pura inocência. A dúvida, para mim inteiramente inusitada, era se a presidente não seria, concomitantemente, presidente de algum outro país além do Brasil! Tipo: um executivo que administra mais de uma empresa ao mesmo tempo. Ele já tinha ouvido falar algo assim.

Investi-me imediatamente de toda a minha (adormecida) professoralidade e lhe expliquei que isso não existe! Imagina, por exemplo, se você, sendo cidadão brasileiro, aceitaria que um belga (pra pegar uma nacionalidade ao máximo livre de conotações) sentasse na cadeira principal do Palácio do Planalto? E prossegui com o meu próprio caso, em que, a despeito de ser cidadão brasileiro, jamais poderei, mesmo que queira, presidir o país (ou a Câmara ou Senado federais e alguns outros postos, a critério da legislação), pelo fato de não ser “nato”.

Em meio a isso, passou-me pela cabeça, adicionalmente, a origem possível dessa disparatada dúvida. Concluí que poderia ter algo a ver com o financiamento concedido pelo governo (via BNDES) à construção do porto de Mariel, em Cuba. Como quem serve um coquetel ao mesmo tempo em que oferece um Engov auxiliar, revelei isso ao meu interlocutor detalhando que o empréstimo havia sido feito a empresas brasileiras (ou uma em particular) e que iria gerar empregos aqui no Brasil e não em Cuba. Mas, de imediato, pareceu-me estranho, conforme também lhe confessei, que esse esforço todo vá resultar num porto no estrangeiro quando, conforme ouço muito dizer, há no Brasil atual uma grave crise (além de outras) de infraestrutura.

Tudo isso é, na verdade, um preâmbulo para a reflexão que, em mim, se seguiu a essa breve conversa. Fosse eu um Garcia Marquez, um Veríssimo ou até mesmo um Macaco Simão, estou certo de que tiraria um ótimo proveito dessa “deixa”: uma mesma “presidenta”, ao mesmo tempo, para dois países diferentes. Contudo, minha condição taciturna só me permite indagações de ordem mais político-filosófica (não perco nunca a petulância, como podem ver): e se fôssemos levar a sério essa improvável imagem, será que só extrairíamos dela o absurdo? Será que a grande lição a tirar desse episódio diz respeito unicamente à solene ignorância de um jovem, oferecendo um indicativo da qualidade da educação ora vigente no país? Será que a sua cruel suspeita não tem um lastro, mínimo sequer, na realidade? Será que não há algum proveito especulativo a ser alcançado a partir desse delírio? A presidente Dilma como presidente de dois países ao mesmo tempo: isso tem alguma lógica?

Penso que a imagem de duas nações com um mesmo presidente é algo comum ao sonho de toda a tradição política que se concebe como revolucionária, como é o caso daquela da presidente e do partido ao qual ela é filiada, onde ainda queima, apesar de tudo, a chama socialista: há o país atual e o país ao qual se quer chegar (maior distribuição de renda e justiça social). Um país e outro, ocorre de terem o mesmo nome, mas são, essencialmente, diferentes. Por isso, não é catastrófico que, eventualmente, um deles se acabe: sempre haverá o outro como resultado. De fato, na cabeça de um governante oriundo dessa tradição, o trabalho diário a ser realizado consiste em que um desses, o real, vá se destilando lentamente no outro, o sonhado. Faz parte do processo a destruição.

Retorno, neste ponto, à modalidade com a qual iniciei este post, a narrativa pessoal, para constatar e fazer constar que, ao longo de toda a minha vida, foi essa a tradição que me conduziu. São diversos os condicionantes disso: desde o fato de que o país onde nasci (e de onde meus pais saíram a certa altura de suas vidas) é um país onde se tentou algo nessa linha (de transformação das relações sociais), sendo logo abortado por um golpe militar (e uma ditadura decorrente) que fez extremo uso da violência (como, de resto, também ocorrera e ocorria no Brasil, por ocasião da nossa chegada), até a minha escolha das ciências sociais como profissão. Sempre, na minha formação, o pressuposto foi o de que a realidade está aí pra ser mudada. Isso ainda vigora, constato adicionalmente, mas sob uma luz diversa, que responde pelo nome genérico de “arte”.

Mas, voltando ao político-filosófico, foi lá pelas tantas, na minha vida, que me deparei – apaixonando-me – com o pensamento de Maquiavel, alguém que também se encontra misturado a (na verdade, no centro de) uma tradição política, só que com um valor exatamente inverso a lhe definir: a conservação (do poder, no caso). Se para um revolucionário se trata sempre de uma divisão (dialética), para esse pensador florentino do século 15, parece que o esforço a ser empreendido sempre foi o de evitar a desintegração de algo profundamente amado: a cidade-Estado na qual nasceu, Florença. Quem tiver a oportunidade de ler seus escritos e algumas das biografias escritas a seu respeito (em especial a de Maurizio Viroli, O sorriso de Nicolau), verá o esforço de uma vida inteira em prol de uma república (um conceito que ora engatinhava) sob constante ameaça, seja de Roma, seja da Espanha, seja da França, seja de seus próprios soberanos titubeantes ou eternos candidatos ao trono.

A obra de Maquiavel sobreviveu ao seu tempo – e sobrevive ainda hoje – por que motivo? Num contexto, moderno, no qual tudo conduz à permanente mudança – e num contexto pessoal como o que acabo de descrever logo acima – como ocorre de alguém vir a dar ouvidos a esse ser preocupado com a conservação? Ora, creio que a resposta reside em que nós, humanos, somos BASTANTE – em função, talvez, de nosso narcisismo – dados à desintegração (do outro, no caso). O poder, em outras palavras, é algo que nos move, como uma condenação; e, então, é preciso que saibamos lidar com ele, render-lhe a devida atenção, caso queiramos que todos aqueles que – também por uma outra “condenação” nossa – amamos desde o mais distante, primeiro, momento, tenham a oportunidade de seguirem ao nosso lado (e nós ao seu).

A obra de Maquiavel, como bem apontou Maurice Merleau-Ponty, nunca foi uma que chamou à destruição do que quer que seja, incluindo valores. Se, dentro do que receitou, consta o uso da violência, é sempre enquanto recurso último num contexto de construção permanente de algo sempre melhor do ponto de vista coletivo. O príncipe deverá ter como eixo de sua ação a conservação do poder não em função de si, mas em função do todo que, débil, sem o seu poder (do príncipe), sucumbe ante o poder alheio, que sempre estará à espreita. Simples como isso. (Essa também era uma questão que preocupava a Platão, tal como se pode depreender do seu Alcibíades)

Bom, e o que tudo isso tem a ver com a presidente Dilma e a sua história à frente do Planalto? Ora, tem a ver, creio eu, com o fato de que a sua visão bifocal e dialética da realidade se coaduna tranquilamente com a morte que ora assistimos de símbolos que levaram gerações na sua construção. A Petrobrás é, talvez, tão somente o mais visível desses.

OBS: somente agora, relendo o texto, é que entendo a necessidade de ele ter começado do jeito que começou.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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2 Responses to Uma imagem inusitada

  1. Cléa maranhão Gomes de Sá disse:

    Andrés, você escreve bonito e diz coisas importantes que nos levam à reflexão. Esse de hoje está ótimo e me deixou a mesma dúvida do rapaz, seu amigo. Será?
    Um abraço
    Cléa

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