Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância), de Alejandro G. Iñárritu

NOVAS BOSSAS E ALGO MAIS

Ao comentar Biutiful, o filme anterior a esse Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância) ora em cartaz, chamei a atenção para o apego do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu à temática da globalização. No caso desse filme de 2010, o que denunciaria esse apego estava na escolha da cidade de Barcelona como locação da tocante história de um pai, nos dias atuais, que se vê forçado a “jogar nas onze”. Encruzilhada, no passado, de civilizações, essa cidade catalã continua a ser o palco de importantes deslocamentos (de gente, de dados, de tendências) – talvez a principal matéria prima da globalização.

Pois bem, eis que nesta nova – e brilhante, em todos os sentidos – epopeia, igualmente paterna, cabe novamente a uma cidade – desta feita à gongórica e não menos global Nova York dos dias atuais – um importante papel. O grosso da ação se dá no interior de um teatro da Broadway, onde o protagonista – um ator hollywoodiano cujo estrelato se atrela ao popular super-herói que dá título ao filme – procura dar uma guinada profissional e existencial, encenando (leia-se adaptando, dirigindo, produzindo e atuando em) uma peça de teatro mainstream. Com a estreia próxima, todo o aparato crítico nova-iorquino se encontra mobilizado. Ao mesmo tempo, os atores, quando buscam espairecer do intenso trabalho em que estão evolvidos, se lançam – em busca de um gole de gyn (ou simplesmente contemplam da sacada do teatro) – às reativas ruas da cidade, sempre prontas a um estranhamento (a exemplo do motorista de taxi que sai, teatro adentro, atrás do passageiro que não pagou, ou a vizinha de cobertura que indaga, do outro lado da rua, se é um filme que está a acontecer lá onde o protagonista performa algo como uma viagem astral).

Nova York é apresentada como uma casca dura de ser penetrada por aquele que vem de fora. Não basta ter dinheiro e renome: aquele que quer se estabelecer por lá terá que lidar com profissionais – tal como o talentoso ator que contracena com o protagonista, vivido com brio por Edward Norton – com facas bem pontudas e nervosas embainhadas. Ainda assim, é tentadora. E o motivo para tal pode ser que esteja justamente no fato de que ainda proporcione algum refúgio a toda a fugacidade e rapidez do mundo globalizado.

Birdman, o personagem, é alguém muito parecido com o protagonista de um outro filme que tive a oportunidade de ver na mesma semana em que vi o de Iñárritu: All that Jazz, de Bob Fosse. De 1979, esse filme antológico traz um Roy Scheider como diretor teatral/coreógrafo da Broadway também às voltas com a montagem e viabilização de um espetáculo. Ele também tem uma ex-mulher, uma filha adolescente e uma vida confusa, cercada de mulheres e muito, muito trabalho. Uma entrega que o leva a conversas constantes com uma certa dama, que também (como não poderia deixar de ser) dá as caras em Birdman : a morte.

Eu sempre quis entender o porquê do título desse filme, já que não me lembrava que ele tivesse uma ligação direta com esse gênero musical, o jazz (a não ser no início – e olhe lá –, quando vemos o grupo de candidatos a dançarino se mover ao som de George Benson tocando a clássica On Broadway). Consegui descobrir: o termo aparece, já quase no final, na fala burlesca de um mestre de cerimônias televisivo que faz uma espécie de necrológio e se refere ao envolvimento do protagonista com o seu trabalho e todo o atribulado mundo que o cerca (all that jazz, ou, “toda aquela bossa”, talvez melhor traduzindo). Pois bem, eis que Riggan Thomsom (Birdman, vivido por Michael Keaton) é alguém que, além de “toda aquela bossa”, tem que lidar com a (nova) bossa adicional – e que bossa – das redes sociais da internet e a obsessão com a visibilidade que elas carregam consigo. Ou melhor: não lidar com elas, correndo o risco de “não ser ninguém” – coisa que, a certa altura, numa das melhores cenas (dentre tantas), lhe é cobrado pela filha.

Contudo, acreditar que Birdman seja uma mera atualização de All that Jazz – e a trilha sonora genial, com uma bateria jazzística (que aparece fugazmente, a certa altura, num dos inúmeros cômodos do gigantesco prédio) a marcar, constantemente, o ritmo das cenas, contribui metonimicamente para tal – seria uma redonda injustiça, posto que, para além de tudo o dito acima, Iñárritu, neste seu novo filme, meio que aprimora sua “competência essencial” de início, que consiste em fazer filmes com tramas confluentes, onde o protagonismo se dilui. Sim, Riggan Thomson é, como o personagem de Javier Bardem em Biutiful, um elemento central, mas eu diria que diversos outros, passando pelo brilhante colega ator, as demais atrizes da peça, a filha e a ex-mulher, se ficam atrás, é por mera questão de milímetros: cada um possui seu próprio universo dramático independente, seus próprios enredos ou circuitos – para fazer, novamente, uma remissão a Shortcuts – cenas da vida, de Robert Altman, que me parece ser um precursor desse traço de Iñárritu. E, por último, desta vez esse mexicano consegue a proeza – técnica, mas também linguística – de fazer tudo parecer como se tivesse sido filmado num único plano sequência! É um filme sem – ou que, ao menos, dá a impressão de não ter – cortes!

Birdman é um filme, como se vê, muito complexo, de riqueza extrema. Fica até difícil escrever a seu respeito, tentar capturar e transmitir o ponto exato que ele atinge como obra de arte que certamente é. Tem a ver, creio eu, com a proximidade que alcança em relação a cada um de nós, espectadores. Somos todos um pouco birdmen nisso de portarmos idealizações que não nos tornam felizes. E de vivermos num mundo que obra, ao que tudo indica, para que sigamos nesse plano gerador de infelicidade, somente pulando de uma episteme comunicativa a outra (para fazer uma analogia com o que Foucault demonstrou na sua arqueologia do saber). Precisamos todos, quem sabe, de um pouco dessa santa ignorância – aquela que encontramos no amor, entre pais e filhos, entre amantes – a que o subtítulo do filme alude.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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