Força Maior, de Ruben Östlund

DE SÚBITO, UMA PEDRA DE TOQUE

Um amigo seriamente atento ao presente, cinéfilo e entusiasta das coisas que escrevo fez chegar à minha mão a cópia de um filme que ainda vai estrear, o sueco Força maior, com direção de Ruben Östlund. Quando, ainda antes de assistir ao filme, lhe perguntei sobre o que tratava, deu-me um resumo inescapável: gira em torno do reverberar, no bojo de um núcleo familiar (pai, mãe e duas crianças), da reação inesperada – de fuga auto-preservativa – tida pelo pai quando da iminência de uma avalanche a atingi-los no deck da estação de esqui em que estavam hospedados durante as férias– e que não teve (a avalanche) maiores consequências. Hum (como costuma exclamar um outro amigo)!, foi a minha reação. Eis aí um ótimo ponto de partida pra um filme, ou mesmo pra uma história narrada por outro meio, que não o cinematográfico.

O desconforto gerado pela reação daquele que, em tese, deveria ter agido no sentido diametralmente oposto, em termos de estrutura narrativa – na forma de uma gota que cai sem perdão sobre uma poça de água parada e passa a disseminar sucessivas ondas –, que me lembre, encontra equivalente único no enredo de O beijo no asfalto, peça de Nelson Rodrigues, levada ao cinema por Bruno Barreto em 1981: como, por que? eis a pergunta que se instala, em ritmo de avalanche, na cabeça de todos os personagens, tanto de um quanto de outro filme. A suspeita de homossexualidade é o que eclode no caso da trama no subúrbio carioca, a partir do beijo na boca dado pelo impoluto Arandir ao moribundo que jaz no asfalto logo depois de ter sido atropelado por um ônibus. É claro que, nesse caso, interesses muito imediatos, partindo do jornalista inescrupuloso (vivido magistralmente por Daniel Filho) que testemunhou a cena, passam a se locupletar com o ocorrido, na toada eterna e tão familiar do “levar vantagem”.

Mas e nesse Força maior, em que não há nada por perto que remeta à maledicência tropical em toda a sua exuberância – muito pelo contrário, a moderna estação de esqui onde tudo ocorre (nos Alpes franceses) é retratada com lentes, eu diria, minimalistas –, em quê direção passa a correr a “devida” explicação para o ocorrido? Acho que não é o caso, aqui, de relatar a lenta digestão familiar que se sucede; é mais interessante, creio, chamar a atenção a como, da mesma forma que ocorre no filme rodrigueano, nós, espectadores, passamos quase a nos incorporar ao elenco de personagens, atrás de um entendimento, de um encaixe para o evento inesperado.

Sim, porque o pai, a princípio, parece ser um bom marido. Tem, digamos, um crédito na praça – ao qual recorre, inclusive literalmente (na forma de um cartão, que oferece à esposa para que efetue, a certa altura, um determinado gasto), quando esse encaixe esperado começa a demorar em acontecer. Mas, se no caso de Arandir, começamos a perceber que a suspeita é infundada e que o beijo não teve motivação alguma além do mero susto, no caso do pai sueco há mesmo algo com o que nos preocupar – não, é claro, que um beijo ou relação homossexual o seja –, pois acontece, por parte dele, inicialmente, uma negativa do ocorrido. Ele saca, como resposta à demanda por resposta por parte da esposa, uma esfarrapada teoria das “versões”, em que cada um tem o direito à sua… e tudo bem, sigamos em frente, que há mais com o que nos preocupar. Mas, essa logo se vê derrubada pela filmagem que ele mesmo realizou – e que a esposa lhe pede para resgatar –, com o seu celular, da sua vergonhosa fuga.

Um buraco existencial começa, então, a crescer, com a interrogação que segue sem resposta, tanto do lado de lá quanto do de cá da tela. E é nesse jogo que reside, na minha opinião, a força principal de Força maior, pois termina por tocar num ponto crucial no que diz respeito ao existir nos dias atuais: qual é o sentido de alguém estar numa relação de amor, qualquer que ela seja, se não for ela uma pela qual valha a pena, se for o caso, sacrificar a própria vida? Não vivemos mais, no Ocidente ao menos, há muito tempo, na obrigação de manter matrimônios às custas de nossa felicidade. Ao mesmo tempo, na senda do que coloca o filósofo Luc Ferry, os motivos clássicos pelos quais alguém podia “dar a sua vida” – como Deus, a pátria ou a revolução – deixa(ra)m progressivamente de fazer sentido. Então, se é mesmo para compartilhar a vida com alguém, a pergunta a se fazer na hora de saber se essa é a pessoa certa é: caso fosse preciso, morreríamos por ela?

Dar-nos conta de que não temos esse valor perante a pessoa amada, eis algo, hoje, deveras dramático, como talvez não tenha sido há algumas gerações atrás. A felicidade – e principalmente aquela que encontramos no amor – passou a ser um valor que paira acima de outros, a vida deixando de ter sentido sem que cheguemos, ao menos, sequer perto dela, sem que arrisquemos alcança-la. Não necessariamente isso implica no fim de um (e do) matrimônio, mas sim, numa permanente e radical revisão dos termos em que ele deverá ocorrer. Isso poderia soar como um devaneio (a mais, dentre tantos que costumo aqui postar) de minha parte, a nos distanciar do filme em si, não fosse um diálogo que ocorre lá por volta do meio desse filme, entre a esposa ainda em choque e uma outra hóspede sueca da estação de esqui, um pouco mais velha, que deixou o marido em casa e, de comum acordo e sem remorso algum, se diverte com a diversidade masculina com que o acaso a brinda.

Por outro lado, agora já falando mais genericamente da felicidade – deixando, por conseguinte, os limites estreitos (sic) do amor – também o uso dessa pergunta possui uma crucial serventia. Vivemos a nos enganar, ao que tudo indica, projetando na nossa tela de volúpias desejos que, uma vez atingidos, vemos que não era bem aquilo que, de fato, buscávamos. Muito nos ajudaria se, em algum momento, nos déssemos a chance, num divã como os que a psicanálise disponibiliza, de irmos ao encontro daquilo sem o qual a vida (a de cada um) deixa de ter sentido.

 

 

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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