Uma catarse

A SOCIOLOGIA: UM ERRO?

Há trinta anos atrás, mais ou menos, deparei-me com essa que viria a ser a minha profissão: a sociologia. Eu tinha interesse, na época, no curso de Comunicação Social, onde se formam, dentre outros, os jornalistas. Mas, minha nota de vestibular não era suficiente para tal. Ela dava somente para a minha segunda opção, que era por essa “ciência da sociedade”. Consertar o mundo era o que eu queria, lembro-me bem, com 17 anos – talvez acreditasse, intuitivamente, que a comunicação pudesse ser um caminho para tal – e, por isso, essa opção, apesar de ser segunda, ainda era satisfatória.

Com o tempo, cursando as matérias do jornalismo – com a esperança de, no vestibular seguinte, emplacar essa opção – fui me dando conta de que quase tudo nesse curso recebia uma atenção, por demais, digamos, apressada. E, por outro lado, as matérias do curso de Sociologia, que também, por obrigação, cursava, passaram a me cativar. Nem percebi quando deixei de lado a ideia de novo vestibular e passei a me inscrever não mais obrigatoriamente – mas com verdadeiro interesse – nas disciplinas que me apontavam para algo que, descobri, gostava de fazer: pensar.

Sim, há muitas formas de pensar. Todo mundo pensa. A rigor, quem entra pra uma universidade é pra exercer essa faculdade, ou dom, que nos foi dado. Quando uso esse verbo no tocante à sociologia, contudo – e era essa, ao menos, a minha sensação à época –, eis que parece aí surgir uma certa condição de pureza; pois, afinal, um sociólogo – penso eu, agora –, ao contrário do restante das profissões, convive com nada além de ideias – um arquiteto depara-se, necessariamente com uma prancheta, um historiador, com arquivos, um jornalista, com uma máquina de escrever, um microfone, uma máquina fotográfica, até mesmo um antropólogo tem que ter ao menos um caderno de anotações e uma forma de se apresentar que gere confiança, um psicanalista precisa de um divã (e ambos esses últimos, de um “outro”), um economista, de números, e assim por diante.

Ideias, todo mundo diz, são luminosas, esclarecem. Sendo assim, o sociólogo – na verdade um sucedâneo dos filósofos – poderia ser visto como alguém que transita num ambiente que se parece com o ar, a sociologia sendo, portanto, meio etérea. Mas, na verdade, acredito que, no tocante ao exercício dessa profissão, a analogia ambiental que mais caiba seja com a de um buraco, parecido com o que os mineiros estão habituados a permanecer e no qual eles, às vezes, ficam presos – a caverna de Platão também servindo a contento.

A despeito, contudo, de todo esse glamour (ou falta dele), desencantei-me dessa ciência. Um impacto forte foi a constatação, ainda ao recém sair do mestrado, de que o “príncipe dos sociólogos”, que então ascendia à Presidência da República, não correspondia ao que vivia na minha expectativa. Eram, obviamente, meus anos ainda ingênuos, de madurez política quase nenhuma. Por outro lado, de tudo o que tinha visto (e, principalmente, lido) ao longo da minha formação, somente a obra do Foucault se mantinha incólume. E, lá pelas tantas, no seu ímpeto genealógico, ele declarava que a sociologia tinha nascido, a bem da verdade, nas prisões… (como instrumento de controle).

Passados os anos – dentre os quais deram-se uma convivência cotidiana num parlamento e um doutorado em Filosofia que não redundou, como era de se esperar, no magistério dessa “disciplina” – meu interesse crescente é com a arte, como bem pode reparar qualquer um que frequente este blog. E eis que me ocorre de ler o livro, recém-lançado aqui no Brasil, de Gilles Lipovestsky e Jean Serroy, A estetização do mundo – viver na era do capitalismo artista. Lipovetsky é filósofo e Serroy um pensador da estética – e o livro traz uma hipótese deveras intrigante, que logo mais explicito – mas, para mim ao menos, o que ambos fizeram foi uma análise tipicamente sociológica.

A constatação que ambos fazem diz respeito ao grau em que o mundo atual, com sua profusão de mercadorias e seu ímpeto consumista, na contramão do que se poderia esperar, não se tornou mais feio; pelo contrário, teria incorporado – e continuaria a fazê-lo, cada vez mais – nesse seu voraz sistema, tudo o que a arte tinha a oferecer. O nosso mundo se torna cada vez mais estetizado – “artelizado”, na terminologia por eles usada – sendo que isso não implica que se tenha tornado melhor, ou mais belo, sequer – já que guerras continuam a matar e desigualdades custam a regredir. É quase um tapa na cara da arte, a lhe dizer algo como “você é absolutamente inútil”.

Pois bem. Sem nem sequer ter me dado, ainda, ao trabalho de terminar esse livro, acho que duas observações merecem lhe ser feitas. Essas dizem respeito ao que vinha dizendo acima, sobre a sociologia; aplicam-se, por tabela, a essa. A primeira é uma observação de que, nesse belo modelo (basicamente marxista) em que as forças produtivas, por um lado, e o ímpeto criativo, por outro, contracenam, espaço algum parece existir para uma liberdade, ou, sequer, para essa atividade que com ela se confunde: a política.

A segunda observação tem bastante a ver com essa primeira: diz respeito às análises que são feitas sempre a partir de um todo, maior, que serve como gabarito para o entendimento do particular. Lipovetsky é especialista nisso, criando termos como hipermodernidade, as tais “eras” disso ou daquilo. Em geral, o tempo e o espaço servem para a formação de tais gabaritos de inteligibilidade (termo que roubo de Foucault, que o usa num outro contexto); e é daí que surgem os historiadores (mestres do tempo) e… os sociólogos (mestres do espaço, junto, talvez, com os geógrafos – já que sociedades precisam de espaço para existir). Tudo, em suma, tem o seu encaixe: não é possível que não o tenha! Não é à toa que Foucault diz que a ciência, tal qual a praticamos hodiernamente, está mais próxima da perspectiva cristã, com o seu Deus supremo, do que da grega, em que o universo possui plasticidade.

Sim, é verdade muito do que esses dois autores apontam quanto à escala adquirida pelo fenômeno artístico no mundo atual. Cifras astronômicas lhe dão sustentação, ao mesmo passo em que estilo e identidade se tornam gêmeos siameses, impulsionando, por sua vez, o design a insumo básico de qualquer produto a ser colocado no mercado. Mas, essa forma de apreensão desse fenômeno passa ao largo, parece-me, de sua verdadeira razão de ser.

Qual seria essa? Bem, que tal se fôssemos atrás daquilo que Lorenzo Mammì nos aponta em relação a (o crítico de arte brasileiro) Mário Pedrosa, e seu quase lampejo (já que não teria levado isso adiante) ao propor a arte como “exercício experimental da liberdade”? Mammì é bastante elucidativo em relação a essa intuição, surgida no pensamento de Pedrosa em 1967 – justamente quando passava a ter que dedicar o grosso dos seus esforços ao combate político da ditadura então em vigor –:

“O centro do argumento de Pedrosa (…) está no caráter único da obra de arte. Por nascer de um impulso individual livre, essa unicidade não é redutível às equivalências de um sistema de trocas capitalista, ou à função meramente ilustrativa da arte soviética de propaganda. Num sistema de comunicação completamente mercantilizado (ou ideologizado, no caso soviético), a obra de arte resiste não enquanto produção distinta das imagens comerciais, mas enquanto experiência existencial de trabalho livre.” (Prefácio a Arte – Ensaios, de Mário Pedrosa, pp. 17-18)

Exercício experimental da liberdade… isso me soa – será por que? – tão próximo desse outro ponto cego desse livro obtuso – e da sociologia, afinal de contas –: a política.

Ainda acredito, vejam só – a esta altura da vida! –, que é possível mudar o mundo ou, ao menos, partes dele. E descobri, ao longo desse percurso, que há duas formas de fazer isso (três, se considerarmos a psicanálise lacaniana), nenhuma das quais tem a ver com a ciência. São a arte e a política. Exercícios experimentais da liberdade.

(E quanto à filosofia? Restaria-lhe algo de bom? Sim, talvez, desde que não abdique jamais de ter a liberdade – e não a verdade – como eixo. As verdades são como os veios de solo a nos cercarem neste buraco com muito pouca luz em que nos encontramos. Qual delas nos interessa mais em termos de saída?)

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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