A política pode mudar o mundo?

REFLEXÃO PARA UM TEMPO BICUDO

Um leitor meu, dentre os poucos com quem tenho a oportunidade de conversar a respeito do que aqui escrevo – trata-se de meu pai – não conseguiu digerir afirmação minha, do penúltimo post, relativa à política ser, junto com a arte – e na exclusão da ciência – a única atividade que eu vislumbro ter alguma eficácia quando se tem o propósito – talvez juvenil – de mudar o mundo. Como assim, diz ele: e todo este imbróglio em que nos encontramos, esta crise política e moral que se estende à economia, com consequências sociais iminentes? Não decorre justamente da política? Do grau de corrupção que nela está claro existir, independente de quem esteja no poder? Tudo não conduz a que, ao invés de mudar o mundo, pra melhor, a política não faça outra coisa senão torná-lo cada vez pior?

São questões legítimas, às quais tenho deixado que deem volta aqui dentro desta cachola. Um bom conselho daqueles que entendem sobre a alma humana (a tal psique) é o que diz: não se explique. Cabe pra quase tudo na vida, como forma de honrar, perante o mundo e perante nós mesmos, a nossa natureza desejante. Contudo, um espaço de opinião, tal como é este blog, se é que possui algum “ativo” (ou seja, algo que lhe dê valor), esse passa mais pela tentativa de fazer uso da razão do que propriamente de ser um instrumento de afirmação pessoal.

Dito isso (e não obstante não deixar de haver alguma controvérsia aí, pois as palavras podem ser tanto forma de expressão de um logos quanto forma de exercício de uma poiesis), tento, a seguir, dar alguma consequência à minha afirmação em prol da política. Para tal, parto da entrevista dada ao programa Roda-Viva, nesta última segunda-feira, pelo consagrado jurista Hélio Bicudo e pela advogada e professora de direito Janaína Paschoal, ambos os quais são os autores de um pedido de abertura, junto ao Congresso Nacional, de processo de impeachment da Presidente da República.

Bicudo tem no seu currículo de promotor de justiça no estado de São Paulo o combate, na década de 1970, ao Esquadrão da Morte, entidade secreta de extermínio que tinha forte vínculo com o aparato repressivo estatal que então atuava em âmbito nacional. Igualmente, já como figura pública, fez parte dos primórdios do Partido dos Trabalhadores, tendo assumido diversos postos dentro e a partir dessa sua militância. Rompeu com o PT em 2005, quando veio à tona o Mensalão. Já Paschoal, bem mais jovem que Bicudo (que está com 93 anos de idade) é alguém que se apresenta como principal porta-voz do pedido, desfiando com mais facilidade do que ele, os pormenores que o fundamentam.

Enquanto espectador da entrevista, tendo a avaliar que tanto um quanto o outro não convencem. Bicudo, porque está já numa idade que não favorece a que esteja em tal linha de frente: por vezes não ouve direito o que lhe é perguntado, por vezes o raciocínio e as palavras lhe escapam. Paschoal, por seu turno, é alguém que não consegue disfarçar sentimentos que não são, na minha visão, os mais propícios a quem se apresenta como portadora de uma saída: irrita-se depressa demais, às vezes diante da mera menção ao PT. Ainda que os argumentos por ambos apresentados sejam bastante contundentes, não conseguiram me convencer, no todo, sobre a premência do remédio que propõem.

Contudo, não há como não reconhecer-lhes a coragem e, acima de tudo, a consciência de estarem agindo conforme a um direito que ambos possuem. Bicudo é quem chama a atenção para tal: nós, cidadãos, podemos muito mais do que nos é dado notícia. E Paschoal, já pro final da entrevista, dá nome aos bois, põe o dedo naquele ponto nevrálgico, que é a falta de consideração, por parte do governo Dilma, ao – para não fugir ao juridiquês – exercício do contraditório: seja na própria arrogância de quem se vê como dono da verdade, seja no apoio a outros regimes que calam e prendem aqueles que ousam questionar a verdade oficial.

Em particular, quanto a esse último ponto, achei sintomático ao extremo o momento em que, no seu discurso de recém-eleita – pela estreita margem que todos sabemos –, a presidente anunciou que iria abrir um diálogo com quem? Com a oposição, como era de se esperar? Não: com os “movimentos sociais”; como se não tivessem sido justamente esses, grosso modo, os que tinham acabado de lhe dar a vitória – e como se a oposição também não fosse, grosso modo, um “movimento social”.

Pois bem, faço este excurso para chegar ao seguinte ponto: um governante pode governar dando ouvidos ao conjunto das forças – quer sejam políticas, econômicas ou intelectuais ou todas juntas – que compõem uma sociedade ou ele pode governar conforme as verdades que povoam a sua convicção pessoal, ou a convicção do (normalmente) pequeno grupo de “çábios” à sua volta. E, a partir disso, volto à questão inicial que diz respeito ao imbróglio em que nos encontramos: não estaríamos onde estamos justamente por uma falta de aptidão para dar ouvidos à sociedade? E não seria a essa aptidão aquilo que poderíamos dar, parcialmente talvez, o nome de política?

Foucault foi um pensador que se dedicou a mostrar como a busca da verdade está entrelaçada umbilicalmente a uma busca de poder. Um sentimento, inconfesso, de dominação, está por trás da ciência, do saber. E eu, na minha experiência de vida, dou-me conta que, além desse sentimento, existe um outro: o medo, a agir como uma espécie de catalizador de verdades; que faz com que construamos trincheiras em torno desses patrimônios, as nossas convicções. Cabe a alguém, de vez em quando, ter a coragem de sair da sua respectiva trincheira, atravessar o campo de batalha e bater na porta inimiga pra ver se não há algo errado nisso de estar-se matando uns aos outros. Seria esse personagem o político (no seu sentido mais nobre)?

Mas eu disse, acima, que talvez essa seria uma definição parcial. Sim, porque o outro aspecto daquilo a que poderíamos chamar de política talvez diga respeito à inquietude, tal como é essa que, claramente, move essa improvável dupla que se submeteu, segunda-feira passada, à banca de entrevistadores do Roda-Viva. Certamente, eles não estão querendo conciliar pontos de vista. Estão, na verdade, dando um passo além daquele que o próprio sistema político – por conta do próprio rabo preso – até agora se atreveu a dar. E eu me pergunto: pode ser que não dê em nada, pode ser até que seja bom que não dê em nada, mas até que ponto não terá sido o ingrediente que faltava para que a nossa çábia governante tenha finalmente se dado conta que o seu papel não é o de uma professora, de uma gênia ou de uma redentora Madre Teresa, mas sim o de uma líder política?

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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One Response to A política pode mudar o mundo?

  1. Cléa maranhão Gomes de Sá disse:

    Muito bom, Andrés.

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