Adaptação, de Cia. Teatro de Açucar e A Pele de Vênus, de Roman Polanski

SOB O SIGNO DO INESPERADO

Vou novamente ser um tanto cruel – só que, agora, às avessas[*] – e comentar um espetáculo que passou como um relâmpago pela cidade (somente duas apresentações): a peça Adaptação, um monólogo concebido, dirigido e estrelado pelo ator/diretor/dramaturgo brasiliense Gabriel F.. E pra não fugir do que fiz nessa outra ocasião, vou relacionar esse espetáculo a um outro: o filme A pele de Vênus, do diretor franco-polonês Roman Polanski, ainda em cartaz.

Membro da brasiliense Cia. Teatro de Açucar, Gabriel mora parte do tempo na Espanha parte aqui e já tinha se apresentado este ano, com essa peça, no festival Cena Contemporânea. Trata-se de um ator muito jovem – a confiar na correspondência entre o personagem que ele vive e ele mesmo, um dos elementos que são baralhados na peça, ele teria 29 anos. Mas o que ele consegue realizar, cenicamente, na hora e tanto em que fica à nossa frente – em meio a um cenário tão mínimo quanto a temporada – é coisa pra ator veterano.

Adaptação “ocorre” no palco de um teatro (assim como poderia “ocorrer” na sala de estar de uma casa, no terraço de um castelo ou numa caverna nas montanhas), onde um microfone, um case de instrumento, um teclado eletrônico quase de brinquedo, com seu respectivo banco e uma mesinha onde uma miniatura de dinossauro encosta a sua boca numa vasilha com água, triangulam e recebem a atriz de uma peça que, vamos descobrindo, não existe. O diretor dessa peça, na vanguarda do teatro europeu, pede à protagonista – conforme ela nos narra – que, simplesmente, vá lá e improvise, diga o que lhe der na telha. Essa é a cena que nós, espectadores, assistimos, como se fôssemos os figurantes da peça que estamos vendo: sensação pra lá de estranha. Quase tão estranha quanto a da própria personagem, que se vê obrigada, conforme confessa, a algo totalmente alheio às suas expectativas profissionais – enquanto o diretor, segundo nos revela, picou a mula, deixando-a sozinha aos leões (nós).

Aos poucos, vamos “ajudando-a” a sair do embaraço. Emprestamos-lhe nossos ouvidos para que ela fale de si, conte como foi que chegou lá, quais foram os sonhos que a conduziram a tal. Lá pelas tantas, a vemos cantar, dançar, ficar mais à vontade a ponto de falar da sua vida amorosa. Começar a falar, porque um corte abrupto da sua narrativa súbito nos faz entender que se tratava, o tempo todo, de um transgênero. Todos (assim creio) sabíamos, desde o começo, que a atriz que víamos no palco era, na verdade, um ator, Gabriel F., mas a revelação de que o personagem não era (não havia nascido) uma mulher, caiu – dada a perfeição com que esse ator conseguiu, até aquele ponto, tecer sua atriz –, naquele instante, como uma bomba.

Não vou dizer mais sobre Adaptação, sobre seu final, que é belo (e de onde sai o título da peça). Quem sabe, quem não viu ainda tenha oportunidade de vê-la. O que fica, contudo, é a requintada maestria da cena, tanto no aspecto (já mencionado) da impecável interpretação, quanto do próprio texto, ambos sendo de extrema eficácia em nos iludir. E nessa ilusão, nos levar a um território em que não se carece, em absoluto, de recursos habitualmente vistos no teatro: uma voz impostada, movimentos grandiloquentes; muito pelo contrário: a voz não deixa nunca de ser “feminina”, os gestos, também: somos paulatinamente conduzidos a uma intimidade calma, absolutamente verdadeira. Gabriel F. nos mantem o tempo todo entre o riso (que impede o enfado, não esqueçamos que se trata de um monólogo) e o mais pungente drama, tal como é a própria vida.

E o filme de Polanski? Qual seu ponto de contato com essa peça? O quê, além do fato de tê-lo assistido no mesmo final de semana, justifica a sua exegese aqui neste texto?

Bom, trata-se de um filme que também “ocorre”, de cabo a rabo (à exceção da abertura quando a câmera, em travelling, percorre uma alameda supostamente parisiense, para logo fazer uma curva), no interior de um teatro. Um diretor/adaptador (o brilhante Mathieu Amalric) está dando por encerrada uma jornada, frustrada, de audição para a escolha da protagonista da peça que pretende encenar, homônima ao filme e “um clássico da literatura mundial”, de autoria do austríaco Sacher-Masoch. E eis que aparece uma atriz, de nome Vanda (o mesmo nome da personagem da peça), atrasada e cujo nome não consta da lista de candidatas. É o personagem vivido, também magistralmente, por Emanuelle Seigner, esposa de Polanski na vida real.

Aparentemente totalmente inapropriada para o papel (de uma sofisticada libertina do século XIX), aos poucos ela vai se revelando não só a intérprete perfeita, mas também uma espécie de cúmplice do apaixonado (pela peça) diretor. Estabelece-se uma doppelgängerice – aquele recurso narrativo em que o que se vive no real espelha o que está na obra sobre a qual se trabalha – mas só por um breve instante, pois, na verdade, trata-se de um mergulho em profundidade nas nuances todas da peça. Sob a batuta de quem? Justamente de Vanda (e não de Thomaz, o diretor).

Tal como se fosse uma defesa de tese, Vanda, em meio à leitura que ambos realizam do texto, inesperadamente introduz todo tipo de questão, de cunho psicológico mesmo: sobre o por que dessa peça, sobre o tipo de relação entre homem e mulher que nela se dá – e sobre que implicações isso tem na vida pessoal de Thomaz –, sobre tons, olhares, alternativas. A tal ponto que, a certa altura, Thomaz assume o papel de Vanda, o personagem, pra, logo em seguida voltar a ser, numa condição mais degradada e despida, o personagem masculino. A tal ponto, que manda às favas todo envolvimento externo seu (a noiva vive a lhe ligar, pra saber a que horas se encontrarão). Não é sedução. É, talvez, iluminação.

E eis que surge, a certa altura – na cabeça de Thomaz, não na nossa que já está completamente rendida no turbilhão ilusório montado por Vanda/Polanski[†] –, a pergunta: quem (ou o que) é, afinal, essa mulher? Como é que ela sabe tanto? O que pretende? Como é que sempre consegue o que quer? Como me deixou neste estado? E a resposta cabe – óbvio – a Vanda/Polanski: trata-se de uma deusa. Uma deusa grega; ou uma força da natureza: é isso o que adentra o teatro na cena inaugural do filme (fazendo a curva e abrindo a porta do prédio defronte a alameda). A epígrafe da peça de Sacher-Masoch fala de um “todo-poderoso” que teria “ferido” um suposto herói para, em seguida, deixá-lo (como se já não bastasse) “aos cuidados de uma mulher”; bem, essa epígrafe é o que lemos, também, ao final do filme – e que nos dá a dimensão do sofrível estado em que Thomaz ficou, findo o seu aprendizado.

Tenho a impressão que Gabriel F. é alguém que já bateu de frente com alguém do porte de uma Vanda. (E viveu pra contar).

[*] A outra vez foi ao comentar um filme do Festival de Brasília, que deve demorar um tanto a ser exibido no circuito comercial. Especialmente porque o coloquei em paralelo à exposição de uma artista plástica brasiliense, Raquel Nava, que ficou curiosa de vê-lo, mas sujeita à sua estreia nesse circuito.

[†] Aliás, recomendo que não se assista a esse filme, como eu fiz numa primeira ocasião, num momento do dia em que a capacidade de acompanhar a rapidez dialógica esteja comprometida por um cansaço: o filme exige de nós muita atenção, não deixando brecha alguma pro necessário respiro, tal como Vanda faz com Thomaz ao longo da audição.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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