Juventude, de Paolo Sorrentino

ENLEVANTE PERVERSÃO

O novo filme de Paolo Sorrentino, Juventude, ainda em cartaz, fez com que relesse minha crítica de A grande beleza, o seu (agora) penúltimo. Tinha para mim que era uma boa crítica, talvez enlevado que estava pela impressionante beleza do próprio filme. Mas, logo após também rever esse filme, dei-me conta de que o que fiz, na verdade, foi fugir dele, trazendo à baila Fellini e seu 8 e meio. Os filmes de Sorrentino – e isso não é de agora, haja vista o também genial  Aqui é o meu lugar – têm propriedades renovadoras que extrapolam o próprio cinema e a própria Itália/Europa, coisa que, com todo respeito, não sei se Fellini conseguiu.

Já aconteceu com você de sair de um filme em estado de Graça? Pois bem, é o que aconteceu comigo ao ver esse filme: meu estado de espírito se alterou, houve algum alinhamento, sei lá se de planetas ou só de sabores ou aromas, que me brindou felicidade. Algo parecido aconteceu, à época, com A grande beleza, mas, na crítica, eu deixei a expressão disso para um casal que estava sentado próximo, registrando a exclamação da moça: que filme! Que filmes!

Os três últimos filmes de Sorrentino, já citados acima, têm elementos formais em comum. No que tange ao roteiro, veja-se que tanto o roqueiro aposentado vivido por Sean Penn (Aqui…), quanto o escritor idem vivido por Toni Servillo (A grande…) são artistas consagrados – o segundo é, quem sabe mais que isso, é o próprio “rei” de uma Roma atual e absolutamente frívola, mas ainda assim, rei, um título que depende de amplo reconhecimento social por parte de seus “súditos”. No caso deste, temos a um maestro, também aposentado, mas que, não obstante, é cortejado por ninguém menos que a rainha da Inglaterra para que reja uma de suas peças musicais para um seleto grupo de convidados.

Vivido por Michael Caine, esse maestro passa uma temporada num spa na Suiça, mais precisamente em Davos, onde costumam acontecer as reuniões de cúpula da economia mundial. Lá, ele goza da companhia de um velho amigo, também artista e consagrado: um cineasta que, igualmente com idade um tanto avançada, elabora, com a sua equipe, o roteiro de um filme-testamento. Ambos têm em comum, para além da amizade, o fato de serem, um, o sogro do(a) filho(a) do outro.

Um outro elemento bastante claro nessa filmografia (ao menos a mais recente) diz respeito ao cenário: a Roma majestosa é uma presença escandalosa no filme anterior, uma presença percorrida tanto pelo protagonista quanto pela câmera, que flutua por entre pilastras, degraus e varandas em mármore. Da mesma forma, as montanhas de Davos, os campos onde pastam musicais vacas ou mesmo as piscinas onde descansa a nata dos poderosos mundiais (há inclusive um Maradona impagável, portador de uma grande tatuagem do rosto de Marx nas costas) fornecem um ambiente propício para o que é essencial nos filmes desse italiano: a devida suspensão temporal, geradora de constatações.

Sim, porque é disso que esses filmes são feitos. Não se trata de ação. Não se trata de trama. Se trata de constatações que acontecem não só por parte desses protagonistas, mas na pele dos inúmeros personagens que entram e saem de cena. Os filmes de Sorrentino são como esses amplos palácios com salas que possuem múltiplas portas; e essa profusão de personagens é o que talvez seja propriamente felliniano nesse diretor.

Mas que tipo de constatações? Acaso existenciais (como, quem sabe, as de uma nouvelle vague), acaso políticas, religiosas, sexuais? Sim, um pouco de tudo isso, mas, como não poderia deixar de ser, em se tratando de artistas, considerações estéticas – as mais interessantes, diga-se de passagem.

Os dois filmes anteriores a Juventude são arrebatadoramente belos e Sorrentino, me parece, estava muito consciente disso ao conceber esse último. Digo isso porque creio que ele aqui joga elementos que nos ajudam a compreender a sua mágica. São diálogos, é claro; aquilo que há de mais forte em seus filmes – dentre vários outros elementos também embasbacantes, como a apropriação da música, como a montagem e a mise-en-scène. Pinço dois deles, ambos tendo em comum a presença de um personagem encantador: um jovem ator, também hóspede, que trabalha na composição de um papel que lhe caberá desempenhar num próximo filme.

No primeiro desses diálogos, depois de observar que o maestro rejeita, “por razões pessoais” o convite do emissário da rainha (da qual ele é súdito, inclusive), inicia com esse uma conversa em que lhe chama a atenção para um traço em comum entre ambos. A peça que a rainha fazia questão que ele (maestro) regesse é uma que goza de uma popularidade um tanto irritante já que não faz jus ao restante de sua obra, bem mais complexa (intitula-se, inclusive, “Canção simples”). O mesmo aconteceria com ele, também amplamente conhecido por ter desempenhado, certa vez, o personagem, quase pueril, de um robô. Na visão desse ator, ambos pagariam para sempre por terem cedido, ao longo da vida, uma única vez, à leveza. O maestro aquiesce retrucando que “a leveza é uma forma de perversão”.

O segundo desses diálogos ocorre entre esse ator e uma jovem hospede do spa, uma menina. Ambos estão numa espécie de loja de souvenir desse luxuoso hotel e ela se aproxima para lhe dizer que é sua fã. Ele já vai logo supondo que seja por causa do tal do robô, mas ela lhe diz que não, que é por conta do papel que ele certa vez fez de um pai que teria rejeitado a um filho. Quando esse filho, no filme, o procura, conta a menina, há uma cena em que ele, pai, lhe explica o por quê da sua atitude: não se sentir à altura do desafio. A menina então lhe diz que ao ver essa cena ela pensou: mas nenhum pai se nunca se sente à altura desse desafio! Isso teria mudado a sua vida.

Bom, trago esses dois diálogos à baila porque me parece que eles, como já disse, nos ajudam a entender essa magia sorrentiniana. Há uma enorme leveza nesses filmes, ainda que eles tratem de “temas” tão espinhentos como a arte, o envelhecimento, as relações, a amizade. A sua estrutura, essa que faz com que se assemelhem a grandes palácios em que a cada momento entramos em ambientes inteiramente diferentes, não permite que caiamos nos abismos de cada um desses temas. As constatações são breves, a picada resultante de cada (estaria aí a perversão?), muito sutil, mas certeira. E o conjunto, as imagens, a música, o ritmo (talvez esse, acima de tudo), vai fazendo com que comecemos, de forma progressiva e quase imperceptível, a, quase, levitar por sobre esses pavorosos abismos (não à toa sempre há um elemento teológico presente, como a “santa” que só come raízes e que diz saber o nome de batismo de cada um dos incríveis flamingos que descansam na varanda do protagonista de A grande beleza, para, logo em seguida, fazê-los, com um breve sopro, partir em voo). É uma sucessão de cenas que podem, tal como ocorreu com essa menina, cada qual e de forma absolutamente particular, mudar algo dentro de nós.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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