Respiro, de Diego Bressani

O CORPO, DESTA VEZ INESCAPÁVEL

A arte do retrato em fotografia é uma que eu – fotógrafo que sou – definitivamente não domino. Não que não tenha, ao longo dos anos, tirado um ou outro retrato digno, mas reconheço que esses são pontos bem distantes da minha “curva” nesse campo da expressão.

Primeiro, que um retratista, normalmente, tem que levar consigo toda uma tralha de flashes e/ou refletores que vão lhe permitir “desenhar” a figura a ser retratada. Tem que manjar muito de luz e ter a disposição de montar, seja onde for, um estúdio, com tripés e backdrops. Mas isso é só o beabá da coisa: o essencial está no tempo e na atenção que se requer que seja dada ao sujeito que está diante de você.

Certa vez, fiz um curso de retrato com uma das maiores retratistas que o Brasil já conheceu: Ana Ottoni. Durante anos, ela alimentou a coluna social do caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo, com retratos de personalidades que estavam no centro da notícia. Seu trabalho não consistia, como sói acontecer nessas colunas, em frequentar as festas da “sociedade” para noticiar quem lá esteve, mas sim em trazer para o jornal a “cara” daqueles que estão nas demais colunas de que um jornal é feito, diariamente. Um exemplo: vai ter a corrida de São Silvestre: precisamos da foto do(a) favorito(a), precisamos mostrar quem é essa pessoa. As suas fotos quase que equivaliam a uma entrevista. (Não sei por onde ela anda agora, por isso utilizo o pretérito imperfeito).

Qual era o seu segredo? Bem, a convivência. Ela aproveitava aqueles instantes em que montava a sua parafernália de equipamentos, em que ajustava todos aqueles flashes que era necessário que pipocassem em sincronia com o seu click, para conversar com a pessoa a ser retratada. Era nessa conversa, geralmente muito breve, que surgiam as ideias dos adereços ou posições que poderiam acabar fazendo parte da foto, sustentando a revelação da singularidade que todo ser possui. (Um outro retratista brasileiro magnífico, Márcio Scavone, escreve num livro seu sobre uma luz invisível – que inclusive dá título a esse livro – e que é a que emana, não das lâmpadas e dos dispositivos eletrônicos do fotógrafo, mas da alma do retratado no instante do click. Uma luz tão forte, diz ele, que dá a sensação de que, nesse brevíssimo instante, a sombra do fotógrafo se estampa na parede logo atrás dele.)

Acho que é sabendo disso que se deve ir ver a exposição do fotógrafo brasiliense Diego Bressani, intitulada Respiro – retratos I, atualmente acontecendo na Galeria Athos Bulcão da Secretaria de Cultura do GDF.

Bressani é um jovem fotógrafo que adentrou esse complexo ramo da fotografia há já alguns anos, egresso do universo das artes cênicas. Não sei bem quantos anos, mas sei que foi tempo suficiente para a impressão de uma marca, tal como a que acompanha esses dois outros nomes já citados. Quem for ver a sua exposição pode ter a certeza de que encontrará retratos primorosos, onde esses requisitos tão pouco usuais envolvidos no desvelar de singularidades – esse respirar em conjunto com o “objeto” –, sem dúvida, estão presentes.

Mas Bressani se propõe ir além, pelo que percebo. Primeiro, pelo próprio volume de fotografias de que é feita essa exposição. São mais de 150, 200 talvez, sendo que a numeração que consta no subtítulo da exposição indica que há mais por vir. Nos moldes de um retratismo clássico, esse tamanho seria fruto, quem sabe, de quase a metade de uma vida (tendo sido ela decididamente produtiva). O que é que se passa, então? Uma subversão do retrato ou, pode ser, talvez, uma condução desse a um novo ambiente ou território.

Alguns dizeres, de lavra do próprio fotógrafo compõem a parte textual da exposição. São os devaneios, entendo, por trás de tudo, uma exposição das questões que guiam a sua procura. Digo alguns, mas na verdade são muitos e, todos, profundos, revelando o quanto há de elaboração mental no seu trabalho. Três deles, em particular, me chamaram a atenção (e dentro da seguinte ordem de importância):

 

  1. “Poderia haver um retrato sem semblante, sem fisionomia ou expressão facial?”
  2. “Abdicar da semelhança convincente e empática que faz do retrato um movimento de reafirmação pessoal; fazer do retrato um processo de despersonalização, desterritorialização de uma identidade.”
  3. “Sua pele, as dobras do seu corpo, o corpo que se dobra sobre si na espessura de uma folha de papel.”

O conjunto dos retratos de Respiro é um no qual se incorpora esse corpo que está presente nessas três indagações/diretrizes acima. O corpo, esse pode ser de um peixe ou de uma estátua, ou pode ser uma parte do corpo de alguém, ou suas meras costas, ou então o seu corpo inteiro, a incluir um dos elementos do primeiro desses dizeres, mas de modo a que ele não tenha protagonismo –  vide, por exemplo, o retrato sensacional  de Sebastião Salgado, em que esse fica meio de lado e recobre uma parte do rosto com uma de suas mãos, de modo a que um dos seus olhos fica encoberto, sendo que o segundo, lá atrás, é o foco daquela luz invisível a que Scavone se refere –, mas ele lá está. Até mesmo quando a foto é somente da face de alguém, como é o caso no conjunto de retratos – inúmeros e todos do mesmo tamanho, compondo uma espécie de instalação – que ocupa uma parede inteira de um dos ambientes da exposição: ao passo que, no restante, todos os “retratados” são identificados (ou, ao menos, há um esforço nesse sentido), aqui a identificação continua individual, mas com o título “cabeça brasileira” ou “cabeça francesa” ou cabeça isso ou aquilo, de acordo com a nacionalidade do retratado. O corpo é inescapável no retrato bressaniano, nem que ele conste, unicamente, no título da foto.

Eu identifico aí uma clara proximidade com aquilo que Eliane Robert Moraes se deu ao trabalho de pesquisar no seu livro O corpo impossível – a decomposição da figura humana: de Lautréamont a Bataille. Nele, ela dá conta do, digamos, lado B do esforço (iluminista) de sintetizar a figura humana, de construir um retrato da humanidade, que poderia estar consubstanciado no rosto da sua “matéria prima”, qual seja, o ser humano. Esse rosto, enquanto “corpo”, é, como diz o título desse estudo, impossível, já que sempre haverá sob ele o restante, ou, aquilo que resiste a uma síntese definitiva. Foi dessa alegação contestadora, como nos mostra essa autora, que surgiu a figura que estampou o frontispício da revista Acéphale, dirigida, ao longo do curto espaço de tempo em que existiu, por Georges Bataille: o acéfalo, um corpo sem cabeça que dá passos largos, fugindo, a fim de que não lhe colem, na sua parte superior, uma cabeça.

Não concebo, não consigo conceber, que Bressani não tenha tido notícia, não tenha se encontrado ao menos por uma vez na vida, com esse ser que corre assustado.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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