49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

O TEMPO QUE PRECISAMOS NOS DAR PARA NÃO ACABAR

Tenho acompanhado o que posso do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. E tenho podido bem pouco, diga-se de passagem, mas creio que o suficiente para ter visto e presenciado coisas importantes, que merecem um registro.

Assisti ao Martírio, de Vincent Carelli em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tita, um filme que é um testemunho, de vida, do sofrimento dos povos indígenas da etnia guarani-kaiowá, que estão, neste momento (mas não de agora), sendo dizimados. Há diversas propostas tramitando na esfera legislativa federal que ameaçam os povos indígenas brasileiros; e, em particular, os dessa etnia, habitantes do Mato Grosso do Sul, tem tido, ao longo de décadas, o infortúnio de conviver mais diretamente com a mesma incompreensão do seu valor, geradora dessas propostas. Carelli e equipe se lançam atrás disso, com uma coragem e obstinação quase tão grandes quanto a dos protagonistas, que não desistem de seus direitos sobre a terra e sobre o seu modo de vida, baseado em aldeias.

Assisti, em seguida, ao infeliz Antes o tempo não acabava, dos amazonenses Sérgio Andrade e Fábio Baldo, que também aborda uma temática indígena, só que com um viés de ficção. O filme se empenha em relatar a vida de um jovem indígena na periferia de Manaus e é infeliz porque, partindo dessa rica premissa – o índio no contexto urbano, inclusive falando a sua própria língua, algo que denota uma certa consideração –, acolhe, numa chave inteiramente deturpada, alguns elementos da cultura que ele teria deixado para trás: os mais velhos da sua comunidade – igualmente deslocados – aparecem como portadores de valores que simplesmente não existem na cultura indígena, mas que são funcionais no enredo, trazendo opressão ao protagonista: o veto à homossexualidade (caso dele) e o infanticídio daqueles tidos como incapazes (caso da sobrinha).

A infelicidade se completa porque esses mitos, essas inverdades, no campo de batalha em torno dos direitos e da valorização da cultura indígena, são instrumentais para o discurso da dizimação. Como? Por um lado, há uma ofensiva da bancada evangélica no Congresso caracterizando os povos indígenas como matadores de crianças, criminalizando uma prática, o infanticídio, que não tem as proporções e a incidência que lhe estão sendo dadas. Por outro, pinta-se-os como inimigos do moderno e do subjetivo ao mostra-los se dedicando a algo próximo de uma “cura gay” – um total absurdo, em diversos sentidos, inclusive no que tange ao entendimento da subjetividade, uma vez que se entende que talvez não haja povo algum que a preze mais do que esses indóceis e inveterados amantes do ser-dono-do-próprio-destino. E, de quebra, ainda faz-se menção genérica às ONG’s que trabalham o tema, muitas das quais desempenham papel fundamental na defesa desses povos, como trambiqueiras e interessadas na sua exploração.

O interessante nisso tudo, porém, é o fato de que ambos os autores desse desserviço à causa indígena, tanto na apresentação do filme (que antecede a sua exibição) quanto na coletiva (no dia seguinte) mostraram-se reverenciais ao extremo ao ator indígena que vive o protagonista – por sinal, alguém que segue os preceitos evangélicos. Respeita-se o indivíduo a partir de sua procedência e pensa-se que, com isso, se está sendo fiel à sua cultura, sem se dar conta de que o próprio indivíduo não está tão interessado assim em ser índio. Mas, enfim, ele, para todos os efeitos, é índio e, logo, serve para “figurar” na tela. Antes o tempo não acabava é um filme a princípio bem-intencionado, mas que acaba sendo nada mais do que um cabal indício de que há algo errado no cinema nacional: uma pressa, uma sede de estampar ideias sem a devida destilação, sem um mínimo contraditório interno. Uma consultoria antropológica teria resolvido.

Mas o cinema nacional ainda se sustenta tão vigoroso quanto o espírito dos índios guarani-kaiowá. É a feliz constatação que surge depois de assistir a um filme como Beduíno, de Júlio Bressane, exibido hors-concours.

Bressane é um dos papas desse cinema. Acho que em algum momento já lhe rendi a devida homenagem, fazendo referência ao estado quase meditativo ao qual seus filmes nos conduzem. Eu estava, pessoalmente, com saudade disso e fui lá checar se ainda encontraria algo dessa ordem. Não só encontrei, como me fartei. O cinema de Bressane chegou na sua quintessência: ele achou aquela simplicidade extremamente complexa de fazer uma obra em que nada sobra.

Como?, dirão alguns: mas o filme é um amontoado de cenas desconexas em que um casal jorra palavras que, simplesmente, nada agarram. Palavras que não nos dão base alguma para dizer sobre o que é, afinal, esse filme. Ver Bressane tem isso: não vá lá com a expectativa de que irá decifrar facilmente um sentido. Talvez, um segredo esteja em torcer para que ele, de carne e osso, lá esteja e fale, como de costume, dando alguma pista.

E não deu outra. Subiu com sua equipe, agradeceu a presença do público, destoou da praxe ao não fazer menção alguma a Temer e explicou: é um filme sobre a produção. Sobre isso que é ato e cujo paradigma pode ser que esteja na pintura, na medida em que essa é obra de um conjunto de profissionais, que fazem, cada um, a sua parte. Explicação número dois e última: é um filme sobre a intimidade, sendo que essa é, também, uma realidade (tanto quanto a realidade abordada por qualquer outro filme).

Simples e complexo, sem sobra. A produção, bem essa está, em Beduíno, na mais absoluta maestria de todos os elementos de que um filme é feito. As imagens são fotograficamente irretocáveis, fontes por si só de prazer. Somam-se a elas os sons, todo um desfilar de presenças eloquentes ao mesmo tempo que cientes do seu caráter coadjuvante. Os ângulos, os cortes, até chegarmos no casal, vivido pelos excelentes Alessandra Negrini e Fernando Eiras. Lá estão ambos, disponíveis a uma câmera que os submete ao mais rigoroso dos testes, que dá ênfase e se concentra em cada trejeito, cada acento, cada fluir respiratório e cada crença na palavra enunciada. A intimidade é um estado de espírito, reconhecível por quem a vivencia. Mas, reproduzi-la? Isso não se consegue com facilidade.

Saio do 49º FBCB com a sensação de que há esperança para o cinema nacional. Um mestre veio e deixou um recado: a produção. É algo que pressupõe estudo, um ir-e-vir, uma constância, um esmero. Passa longe da ideia – e, nesse sentido, pode-se dizer que, apesar das aparências, o cinema de Bressane é o oposto do Cinema Novo – ou, a ideia é somente um componente a mais dentro de uma teia de fazeres. No debate do filme sobre o índio homossexual (ou bi, na verdade), num certo momento, a sala com cerca de cinquenta pessoas parou para constatar que havia, lá dentro, somente um índio, o protagonista (o resto sendo um bando de brancos), até que, lá no fundo surgiu uma outra voz, de uma mulher, indígena, a quem foi dada a palavra e que, sendo militante da causa, trouxe à baila um termo (para mim ao menos) novo: etnogênese. Parar, olhar para o que está “atrás” de nós, resgatar práticas às vezes tidas como perdidas – algumas das quais implicam até mesmo em dor –, descobrindo a força que carregam consigo e, a partir disso, reelaborar o presente.

 

 

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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