Ruídos – A Coreografia da Violência, de Wagner Hermusche

UMA PINTURA DEVERAS CONTEMPORÂNEA

A exposição Ruídos – A coreografia da violência, atualmente em exposição no Museu Nacional da República, reúne duas séries de pinturas de Wagner Hermusche. Séries que distam uma da outra em algo como vinte anos. Interessante conhecer essas duas pontas do trabalho desse artista radicado em Brasília – porém antenado com o mundo – tendo como referência única anterior os seus noturnos de Brasília. Há não muito tempo, esses foram por ele disponibilizados ao público mais amplo, enquanto fotografias, em conjuntos dentro de charmosas caixas, tal como se fossem gravuras. É certo que, caso aqui resida, você já os há de ter visto nas melhores livrarias. Neles, esta capital fulgura tal qual ela é à noite, com suas sequências de luzes emitidas por carros e postes de luz; por seus prédios comerciais com fachadas em neon e pelos distantes conjuntos residenciais que marcam um horizonte de escuridão quase total. Uma Brasília elétrica, que em nada depende da luz natural e do céu que tanto influíram no traço do famoso arquiteto.

Poder-se-ia dizer: esses noturnos apresentam a modernidade verdadeira da cidade, não aquela que, ao aplicar certos princípios estéticos – misturando-os a doses elevadas de utopia –, não conseguiu de fato mudar a realidade social (tal como pretendia). A luz artificial que vemos injetada no escuro da noite para concorrer com as estrelas e os vagalumes carrega consigo vida, movimento, som. É disso que essas pinturas cheias de cor falam; é a essa “nova” e única realidade que elas rendem homenagem – e elas também estão representadas na exposição, num corredor de acesso, só que no seu formato de “gravuras”, já mencionado.

Hermusche, ao que parece, pinta sempre em grandes formatos. Na série de 25 anos atrás, intitulada “Sociedade Multicultural Informatizada”, predominava a acrílica sobre tela. Na série atual, iniciada há cerca de seis anos e intitulada “Ruídos Contemporâneos”, o pastel a óleo sobre papel kraft. Não fosse o tamanho das pinturas que compõem uma e outra série, teríamos, a princípio, uma dificuldade em perceber que se trata do mesmo pintor. A princípio, frise-se; porque, apesar de serem propostas tão distantes técnica e tematicamente, subjaz a ambas algo que é muito próprio desse artista: o elemento crítico, perturbador, espinhoso; que, contudo, não deixa de oferecer – mesmo que lá no fundo, como no Las Meninas de Velazquez – uma porta aberta ao novo.

Na série mais antiga, vemos fundamentalmente a consolidação de um pintor. Dizer que é “de mão-cheia” seria talvez redundante, já que a temática – dentro de uma proposta estética hiper-realista – é muito a das mãos. Dois dos quadros dessa série, inclusive, são só de mãos descansando sobre uma superfície – as de um trabalhador marroquino e as de dois casais, se acariciando. Outros dois são de mãos segurando coisas: instrumentos musicais percussivos (do samba) e controles-remoto de televisão. Há em todos um virtuosismo da luz e do movimento, algo que explode num outro quadro intitulado “Vídeo Game”, que mostra uma menina de frente para nós, espectadores, segurando um console e olhando para além de nós, como se fossemos a mera tela de uma televisão que lhe ilumina o rosto. Um sexto quadro é só de braços que surgem do nada (nada de troncos ou qualquer outra parte do corpo) e que só têm uns aos outros como referência e raio de alcance.

O que pode haver de espinhoso nisso? Bem, parta-se do título do quadro das mãos que seguram controles-remoto – e que nascem de extremidades opostas do quadro (superior e inferior) e apontam um em direção do outro, como numa espécie de disputa –: “Mãe e filha”. Há aí uma nítida questão pedagógica. As demais mãos também surgem das bordas das pinturas. As dos casais ainda se entrelaçam. As que tocam instrumentos já só se encontram mediadas pelo som que produzem. Uma força centrífuga parece estar sempre presente: as mãos, os braços, resistem a algo que os puxa para fora do quadro, algo que os quer eliminar do nosso olhar. As mãos do marroquino são mãos operárias, que estão ali, descansando, a título de exceção: logo-logo estarão em outro lugar, fabricando algo. A menina do vídeo game está já com seus olhos no mundo virtual, esse mundo que não tem lugar pras mãos e sua força, seu poder.

Na série Ruídos Contemporâneos estamos novamente fundamentalmente na noite. Porém não mais na noite necessariamente brasiliense e, muito menos, desabitada – e, até, harmônica. Nela, vemos personagens que carregam, em sua maioria, armas. São pistolas, são fuzis, metralhadoras, mísseis, granadas; é um contingente variado de agentes, milicianos, soldados, snipers e – num dos quadros mais impactantes pela sua atualidade simbólica – seres engravatados com moto-serras (um “clã”). A aspereza do presente, a necessidade-de-agredir-para-não-ser-agredido: é assim que nos situamos nessa noite que já deteve, em outras ocasiões, suas promessas intrínsecas. Até mesmo numa rave que acontece em frente ao Congresso Nacional, em que jovens dançam seminus ao som de uma banda de nome “Brain Wash”, uns cortam aos outros com pequenos cacos de vidro.

Continua existindo grande virtuosismo técnico nessa nova pintura. São quadros que tiram todo o partido do grande formato ao compor cenários onde esses personagens todos se movem. Nada é estático e o pastel a óleo continua a permitir que a noite se ilumine e nos transmita um pulsar elétrico fascinante. Mas o que parece ter preponderado daquilo que é possível apreender da série de vinte e poucos anos atrás tem mais a ver com o título-síntese da exposição como um todo: ruídos. Há ruído no esgarçar do mundo analógico tal como retratado lá atrás (vide leitura acima); e há ruído na ocupação desse espaço de realidade que é a noite, seja ela brasiliense, brasileira ou mundial. O que já foi a música da luz artificial da série de noturnos brasilienses se transformou numa intrigante fantasmagoria.

Hermusche, é claro, tem consciência disso. Um texto, imprescindível, de sua lavra, está numa das paredes da exposição explanando muita coisa. Há de se lamentar o embotamento do ser humano, a sua captura por valores que lhe subtraem autonomia, iniciativa – essa mesma iniciativa que está presente na mão, esse personagem primeiro. Porém, repare-se – e o artista é igualmente consciente disso – que algumas das armas que vemos – os fuzis do incrível quadro “Marcha” – têm flores nas suas pontas. E que, nesse mesmo quadro, o exército que avança pela Esplanada dos Ministérios é composto por pessoas, homens e mulheres, que, apesar de progredirem no mesmo compasso, se vestem cada um à sua maneira, usam penteados os mais variados, têm estaturas e cores de pele as mais diversas. Será pelo quê que marcham? Por acaso seria por algo que tenha a ver com a bela roda de crianças numa praça como a Praça Portugal ou com a bandeira brasileira composta, além das estrelas, por símbolos os mais plurais de dois outros quadros, absolutamente destoantes, dessa mesma série? Ou, então, com os músicos de jazz que não se abalam – pelo contrário – com o bombardeio que ocorre bem acima de suas cabeças do quadro logo na entrada (“Jazz N Bombardment”)? Hermusche não é alguém, em absoluto, que feche portas.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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2 Responses to Ruídos – A Coreografia da Violência, de Wagner Hermusche

  1. Hermusche disse:

    Great text Andrés! Você captura e multiplica o conteúdo. Thanks!! pela sua dedicação a minhas ideias.

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