O Cidadão Ilustre, de Mariano Cohn e Gastón Duprat

A DANÇA QUASE IMPOSSÍVEL ENTRE O PRIMITIVO E O ELABORADO

Tenho a impressão de que Mariano Cohn e Gastón Duprat, esses dois cineastas argentinos que já haviam surpreendido com O homem ao lado (2009) – e agora o fazem novamente com O cidadão ilustre, ainda em cartaz – se interessariam por um personagem como este que aqui escreve. Digo isso porque – sem ter visto qualquer outro filme dessa dupla, incluindo um de 2011 – está claro que gostam de explorar o tema do choque entre a chamada alta cultura e a cultura dita brega, uma particularidade, talvez, demasiado latino-americana.

Já comentei aqui o primeiro desses filmes e, relendo agora o que disse então, vejo que pode ter sido uma grande bobagem. Numa cidade argentina (pelo que me lembro, pacata, mas pode ser que seja algum bairro na própria Buenos Aires), um casal se muda para uma casa – a única na América Latina – desenhada pelo icônico arquiteto francês Le Corbusier; e se depara com um vizinho troglodita e carente. Minha leitura foi no sentido de que a intenção dos diretores seria a de chamar a atenção pro fato de que o ultra-refinamento de uns não pode simplesmente pousar numa determinada coordenada, dando as costas ao entorno.

Pois bem, a trama que vemos se desdobrar em O cidadão ilustre difere um pouco disso, mas não tanto. Ela gira em torno de um escritor – prêmio Nobel de literatura – argentino que recebe o convite de retornar à sua cidade natal no interior desse país vizinho – lugar do qual havia, há tempos, “fugido”, indo se estabelecer na Espanha – para poder receber as “chaves” dessa: um título honorífico. Ele topa e, aos poucos, vai-se percebendo a inevitabilidade do desencontro, o choque desses dois mundos: o provinciano e o cosmopolita.

São detalhes, como o do (desconhecido) camarada que, depois de assistir à primeira das palestras que ele se dispôs a dar, o convida para almoçar em sua casa, com os seus. Tudo porque havia encasquetado que o personagem (secundário) de um dos seus livros era baseado em um parente seu, já falecido. Ao não atender ao convite – e sendo, na sequência, cobrado por isso – o escritor deixa as coisas claras, dá lição elementar de civilidade: não há obrigação, nesse grau de intimidade, onde não se tem conhecimento prévio. E por aí vai.

Mas o ponto onde a coisa realmente “pega” reside num concurso de pintura do qual o escritor é chamado a compor a banca julgadora. Ele, obviamente, acaba atravessando as expectativas, todas, existentes em torno do resultado – expectativas em que o conceito propriamente cultural acaba se entrelaçando com o jogo de forças político. A América Latina ainda tem muito desse território onde não vige lei alguma, restando elas a serem impostas pelo talante do fortão local.

O escritor já havia demonstrado, desde o início do filme, uma compreensão do fazer artístico correlata à insubordinação. “Recebo o prêmio (Nobel)”, diz ele nessa ocasião, “não com júbilo, mas com apreensão, pois ele sinaliza o meu ocaso: eu não incomodo mais aos reis e poderosos (aqui presentes).” Ele reafirma esse entendimento num outro discurso, posterior, quando diz não ser um militante da cultura, posto que essa é um elemento inato ao ser humano: no limite, sempre existirá, seja ela fomentada (pelos governos) ou não. Arte (cultura) é reflexão. Concordo plenamente e complemento: tanto melhor onde ela exista e seja cultivada; mas onde não for, isso não a impedirá de existir (como demonstra o mesmo “fato” de um escritor universal poder perfeitamente sair de um contexto tão restritivo quanto a cidadezinha de Salas – seja ela fictícia ou não –, na Argentina).

E onde é, afinal, que eu entro enquanto virtual personagem de um filme dirigido por essa genial dupla? Bem, para responder a essa questão eu precisaria detalhar como foi a experiência tida há cerca de três anos, quando, enquanto presidente do Conselho Curador de Cultura da Câmara Legislativa do DF, capitaneei o concurso que escolheu e  instalou a primeira (e única, até o presente) escultura no prédio onde funciona essa instituição legislativa.

A esse respeito – para não cansar meus leitores – digo somente que 1) foi uma experiência e tanto, altamente complexa, fazer surgir uma escultura nesta cidade já escultórica de por si e 2) as dificuldades antepostas à aplicação de um conceito estritamente cultural foram praticamente da mesma ordem daquelas retratadas nesse mais recente filme, só que reatualizadas com o auxílio de um verniz burocrático. Não que tivesse havido qualquer interferência no sentido de um ou outro resultado; foi o próprio propósito do concurso que passou a ser questionado a uma certa altura, em que o julgamento, com toda a lisura, propriedade e oportunidade, já havia ocorrido. Nesse instante, precisei provar a mim mesmo e a alguns dos dirigentes da instituição o quanto (ainda) sou latino-americano.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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