Sobre o hábito de acampar

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Recentemente, retomei o acampamento em minha vida. Uma atividade que estava há anos relegada, ainda que tenha feito parte, desde a mais remota infância, da minha formação como ser humano. “Nunca acampei”, ou, então, “acampei somente uma vez, pra nunca mais”: essas costumam ser as reações mais comuns que se ouve ao mencionar a intenção de ir se instalar em algum camping. Em geral, evoca-se um tal “conforto” que se estaria perdendo ao fazê-lo, algo que – conforme pretendo esclarecer logo abaixo – reputo ser um mito. Essa alegação se tornando válida, contudo, impede que a conversa a respeito adentre os demais benefícios, até mais profundos, que essa atividade proporciona.

Evidente que acampar é algo que se fará nas férias ou feriados ou folgas. Época de descanso. Daí que se veja com pruridos isso de, em primeiro lugar, preparar toda a tralha a ser levada e que consiste em algo equivalente a um novo lar, indo da barraca em si aos utensílios de cozinha (fogão e, eventualmente, geladeira incluídos), passando pelos sacos de dormir, isolantes térmicos, cadeiras, mesas e artefatos de iluminação. Dependendo da modalidade e lugar escolhido, essa lista pode se avolumar com eletrodomésticos (nos campings que têm estrutura para tal) ou incluir comida e dispositivos de segurança (caso se acampe “no mato”, quando, inclusive, pode-se ter que carregar tudo nas costas até chegar ao destino). E, claro, como em toda viagem/lar, roupas.

Depois de preparar e transportar tudo, ainda há o se instalar, o que compreende escolher a melhor localização dentro do camping: aquela onde o chão seja mais macio e esteja menos inclinado, onde os vizinhos estejam a uma certa distância, o sol numa tal incidência, os banheiros e tanques de lavar não muito longe. Em seguida, erguer o acampamento, começando pelo principal, que é montar a barraca. Hoje em dia isso está cada vez mais fácil, mas nunca se sabe se as estacas entrarão com facilidade no solo ou se o dia estará com chuva ou vento. Um acampamento bem montado é a garantia de uma certa tranquilidade nos dias que estão por vir; portanto, trata-se de momento que requer máxima atenção.

Essa foi, durante anos, a rotina de férias na “casa dos meus pais”. Dessa forma, conhecemos uma boa parte do litoral brasileiro, onde havia campings do Camping Clube do Brasil, do qual éramos sócios. Não sei se esse clube ainda existe, tomara que sim. Nas suas entradas/recepções sempre havia uma espécie de totem – que era, na verdade, a caixa d’água, cilíndrica – a nos receber e a nos indicar que tínhamos, finalmente, chegado, que estávamos em casa. Era um padrão, garantido, de regras, de limpeza e de segurança; daí pra frente, era por nossa conta, o que incluía desfrutar das praias – e demais atrações locais – que, na maioria dos casos, ficavam logo depois da cerca delimitadora da propriedade. E socializar, em maior ou menor grau, conforme a propensão de cada um – a minha sendo sempre um pouco acima da dos meus irmãos e do meu pai, porém não da minha mãe.

Na adolescência, de quantos acampamentos não participei com amigos, nas proximidades de cachoeiras? Em Brasília mesmo havia um camping estatal que abrigava com frequência a mim e minha namorada à época, na impossibilidade momentânea de pagar um motel. Quando me tornei adulto, ainda segui sendo sócio do CCB e acampando, já não tanto pelo Brasil e seu extenso litoral, mas no Centro-Oeste. Minha primeira viagem à Europa, num verão, foi de barraca: Paris, Londres, Bélgica, Alemanha, norte da Itália. Isso já tem um tempo. De lá pra cá, nunca mais, vá lá saber o motivo (ch-ch-ch-changes, como diria Bowie).

Essa minha experiência mais recente, na Chapada do Veadeiros foi muito feliz. O camping que escolhi, Pacha Mama, possui todas as condições de excelência para um camping, inclusive o de se situar num local privilegiado, fronteiriço ao Parque Nacional dessa chapada e defronte ao majestoso Morro da Baleia; e debaixo de um céu fortemente estrelado. Possui uma cozinha completa à disposição daquele que, como eu na ocasião, não tenha levado todo o equipamento – um dos dias fiz um sensacional macarrão, na companhia de uma turma de São Paulo, divertidíssima, cuja “cozinheira”, lá pelas tantas, morta de curiosidade, me pediu uma “prova” da minha criação.

Refletindo agora sobre as peculiaridades do costume de acampar me vem à cabeça o grupo de leitura de romances do qual (ainda) participo. Nos reuníamos numa periodicidade mensal na casa de uma amiga querida que, lamentavelmente, faleceu há cerca de um ano. Sua filha, amiga também, que participava do grupo, continuou a fazer os encontros, no mesmo apartamento, que herdou da mãe. E o fato de eu usar o verbo (reunir-se) no passado reside em que, se já havia me afastado (mas por outros motivos, em grande parte aceitos) desse grupo antes da morte de Cléa, agora acabo me afastando por uma espécie de nostalgia em relação ao que ela, com a sua personalidade única, imprimia a cada encontro.

Explico: havia um ritual, que ela alimentava. Primeiro, o convite, a lembrança de que o encontro seria tal dia. A expectativa de quem iria (ou “viria”). Depois, a festa, a discussão, onde cada um – depois do indefectível cálice de vinho do porto – expressava seus espantos: não havia quem se espantasse mais do que ela; com o que havia lido, com a leitura que os outros haviam feito. Em seguida, os quitutes, o café (às onze da noite), os detalhamentos de livros lidos e a eleição do livro seguinte. Ela anotando tudo, fã confessa que era de listas. Por último, por volta de uma semana depois do encontro, lá vinha o seu relato, que servia tanto para que os que não tinham ido pudessem saber do acontecido, quanto para que os que tinham reavivassem na memória os momentos, sempre deliciosos, vividos conjuntamente. Mas acima de tudo, servia para morrer de rir, pois ela era dona de uma pena cômica, juvenil, generosa.

Tendo ela partido, o grupo persiste a realizar os encontros. Esses costumam ser bons, mas parece que essa disciplina que ela impunha – e que ninguém se sentiu (ou seria) capaz de imprimir – faz falta; ao menos, a mim, faz. É como se estivéssemos, a cada ocasião, apesar de seguir efetuando as mesmas etapas do “roteiro” estabelecido, ainda não libertos da nossa natural errância. Cléa – e suas saudáveis, amorosas obsessões – era alguém que nos retirava, momentaneamente, dessa condição. O hábito de acampar, penso hoje, é algo que se aproxima disso: faz, com a série de (doces) obrigações que nos impõe, que reformulemos, ainda que por um período curto, o conjunto de nossas errâncias, as circunstâncias todas que nos levaram a viver como vivemos, onde vivemos, por quê vivemos.

Cabe um último adendo, conforme o prometido, sobre a questão do conforto. É comum, entre campistas, o relato sobre aquela namorada ou cônjuge (ou namorado, por que não) que só aceita acampar se tiver um colchão entre si e o chão. Algo que complica bastante, pois o tal colchão haverá de ser inflável (e alguém terá que inflá-lo, de algum modo) ou então será aquele item de difícil, quase impossível, transporte. Uma tremenda bobagem, já que os sacos de dormir, aliados a mantas isolantes, garantem todo o conforto, tanto térmico quanto ergonômico, de que se precisa. Acampar engloba toda uma tecnologia, fruto de pesquisa, que só se aprimora. As barracas são hoje desenhadas para se moldarem ao vento, ao invés de lhe operem resistência. Seus tecidos, para suportarem cada vez mais colunas d’água. Há todo um empenho, por parte da indústria de materiais de camping, para que você esteja – e, consequentemente, se sinta – confortável. Na minha vivência pessoal, garanto que, passada a primeira noite – de natural ou eventual estranhamento, do corpo, da cabeça –, as noites em barraca são celestiais.

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About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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