Decifrando as urnas

EXISTE ÉTICA NA (SENSAÇÃO DE) SUPERIORIDADE?

Em breve faremos um mês com presidente e governadores (alguns) eleitos. Tempo suficiente para se afastar um pouco do espanto e tentar entender, com o auxílio da razão, o que de fato aconteceu nessa eleição. As forças democráticas foram derrotadas? Essa me parece ser a pergunta crucial, posto que é do lado delas que me vejo situado e disposto a seguir caminhando – e foi por isso que julguei, a certa altura do segundo turno, que a melhor opção seria o voto em Fernando Haddad.

Um primeiro dado a ser levado em conta é o fato de que Bolsonaro se elegeu de forma limpa, dentro dos critérios preestabelecidos. Uma maioria expressiva de cidadãos brasileiros e aptos a votar foi às urnas e manifestou, livremente, a sua crença de que era essa a melhor opção. Pode-se alegar que houve fake news, jogo sujo, disparos ilegais em redes sociais: ok; porém, lembre-se o quanto essa mesma estratégia, baseada na difusão de mentiras, não foi utilizada contra a candidata Marina Silva na eleição de 2014? Imprensa e tribunais eleitorais noticiaram e fizeram e fazem a checagem que, até o momento, não apresentou fatos robustos o suficiente – e esses, a esta altura, teriam que ser de uma flagrância superlativa – para uma anulação do resultado.

Consideração mais grave diz respeito à, digamos, plataforma sobre a qual esse candidato se elegeu: um conjunto de valores distantes do que se entende como sendo aqueles que corresponderia a uma democracia moderna abrigar, dada a liberdade individual que lhe é inerente. Bolsonaro, há anos, é porta-voz de visões retrógradas e preconceituosas no que tange aos costumes: foi através dessa atuação que ele acumulou fama em meio ao Congresso Nacional e à mídia. E o fato de que um contingente tão expressivo de brasileiros tenha, agora, lhe dado o voto é algo que deixa enorme perplexidade, conduzindo à pergunta: somos intimamente tão desumanos – a ponto até de dar crédito (e logo esse, de líder da nação) a quem defende a tortura? Desconhecíamo-nos à larga em nosso pendor autoritário?

Acho que temos que ir com calma em relação a esse tipo de conclusão – note-se que nem sequer entro na falácia de achar que tudo isso não passa da consolidação de um “golpe” que, evidentemente, não existiu. Não me parece que os que votaram em Bolsonaro o tenham feito fundamentalmente em função da visão de mundo estampada nos seus discursos cheios de ódio e crueldade, mas sim em função de ter ele, com eles, condensado na sua figura o inconformismo difuso e, ao mesmo tempo, furioso com a política e, em especial, com o PT. Num ambiente saturado por mentiras – como ficou claro a partir das revelações da Lava Jato e da posterior renitente recusa, inclusive da militância petista e seus satélites, nas redes sociais e demais foros, em reconhecer os erros cometidos –, alguém que passava um mínimo de autenticidade (ou um máximo, se formos levar em conta o conteúdo explicitamente ofensivo e degradante das suas falas) passou a adquirir as feições de boia de salvação, por mais improvável que isso parecesse.

Voltando às forças democráticas, parece-me que um primeiro passo a ser dado é reconhecer que, até o momento, Bolsonaro jogou e joga o jogo da democracia, inclusive com perspectiva nenhuma de cometer algo como um novo e já patenteado “estelionato eleitoral”. Em seguida, olhar para si mesmo à procura da eventual existência de atitudes perante o outro e até de honestidade para consigo mesmo que tenham provocado uma tamanha desconfiança por parte de tanta gente. Sim, a roubalheira do Petrolão é fato incontestável, mas será que, para além dele, não haveria também outras barreiras de cunho ético que foram se estabelecendo ao longo dos anos – ética aqui entendida sob o duplo aspecto de uma situação na qual não há respostas prontas (ou fáceis), tanto quanto uma em que o que está em jogo é a liberdade no seu sentido essencial, de algo que se exerce nas relações?

Não haveria uma certa – e antipática, para dizer o mínimo – superioridade daqueles que supostamente, detém a verdade (como se essa existisse) da política? Um certo elitismo, uma diferenciação suspeita, estabelecedora de um “nós” e de um “eles”? Uma certa obrigação de pensar dentro de determinados parâmetros, a partir de certas visões e com o uso de exclusivos conceitos? Em que medida se está assim tão imune a formas de autoritarismo? Em suma, se perguntar até que ponto a denominação de “democráticas”, por parte dessas forças, não incorpora um descabido ufanismo, não realiza uma apropriação demasiadamente apressada.

Bolsonaro e os governadores que saíram eleitos das urnas terão quatro anos pela frente e o rol de estragos que eles poderão deixar pode ser grande. Porém, esse é um risco inerente a todo e qualquer governante, eleito ou não. Como disse acima, Haddad foi minha opção de segundo turno. Foi escolha difícil, tendo em vista a minha descrença em relação não à sua pessoa, mas ao seu partido. É bem provável que, caso eleito, os riscos à democracia fossem de igual tamanho aos atuais, ainda que de natureza inteiramente diferente; quem sabe, até maiores – eis que me declaro aqui e para todo o sempre, falível nas minhas escolhas, como qualquer ser humano; porém, sem arrependimentos.

Em suma, a decisão está tomada; não creio que seja papel das forças democráticas, daqui em diante, dificultar as saídas engenhosas ou pródigas que possam vir a surgir, pois estamos bastante necessitados delas, mas, sim, se contrapor a tudo o que não tenha amparo na lei, que não seja justificado perante escrutínio público e que produza angústia, ignorância ou sofrimento – de preferência, contrapondo-se a tudo o que não mitigue esses três quando existirem – aos que aqui habitam.

About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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