O cinema de Spike Lee e o Brasil de hoje

BOLSONARO X.?

Malcolm X.(1992), do diretor norte-americano Spike Lee, é um filme de três horas e vinte e dois minutos. Na sessão da retrospectiva desse cineasta que ora ocorre no Centro Cultural do Banco do Brasil local, bastante cheia, não ouvi ninguém sequer tossir: todos vidrados na história desse líder do movimento negro norte-americano dos anos ’60 do século passado. Parece que algo, nela, ressoa no nosso presente brasileiro, final de segunda década do século XXI. Deu-me essa impressão; o que será?

O filme conta a história de Malcolm do começo, de pai vítima da Ku Klux Klan e mãe enlouquecida pela perda da guarda dos filhos à assistência social estatal (em função da falta de condições econômicas), ao fim, trágico, de ser assassinado, na frente da esposa e filhas, em um comício. Muito esperto e destemido, o rapaz que, tendo recebido educação da família branca que o adotou, mas se visto impossibilitado de seguir uma almejada carreira de advogado (porque isso não era para um negro, conforme lhe avisou um orientador escolar), acabou aderindo ao crime nas ruas de Boston. Por pouco não foi morto, por desconfiança, pelo chefe bicheiro; mas não conseguiu escapar das mãos da Justiça, que, para além dos furtos, não gostou nada do fato de ele e seu comparsa, também negro, se relacionarem amorosamente com mulheres brancas.

Na cadeia, viu-se salvo do aniquilamento moral inerente a esse tipo de instituição por um outro detento, que o introduziu aos preceitos do islamismo sob a ótica de uma seita, a Nação do Islã, comandada por um líder religioso negro, a quem, assim que saiu da cadeia, veio a conhecer e a seguir com máxima devoção. Malcolm se tornou, com o passar do tempo, o principal porta-voz dessa seita, que adquiriu, por sua vez, abrangência e relevância nacional. O que pleiteavam não era a mera melhoria das condições de vida da população negra nos EUA, a sua integração à sociedade em termos menos desvantajosos: pregava-se um verdadeiro desmembramento, a refundação da América em duas nações distintas: uma branca e outra negra, regida pelo islã; um apartheid levado às últimas consequências.

A tensão racial nesse país atingiu, nesse período, um ápice. E quem estivesse à frente do movimento negro, desde que soubesse conduzir a enorme revolta em face à desigualdade, representaria uma força política do tamanho da que aparece na cena em que um exército de militantes dessa seita, liderados por X., se posta, primeiro, diante de uma delegacia de polícia onde está detido um companheiro espancado brutalmente e, depois, diante do hospital para onde essa mesma polícia se viu obrigada a leva-lo, exigindo um tratamento digno. Muito poder ali se evidenciava.

E exatamente por esse motivo as demais lideranças da Nação do Islã se voltam, a certo momento, contra X., planejando, inclusive, o seu extermínio. Ele passa a se tornar o principal inimigo dessa entidade, em vez da nação branca, cujo líder, JFK, acabava de ser assassinado – fato esse que X., publicamente, não faz questão de lamentar, pelo que recebeu, em seguida, uma forte reprimenda dos “colegas” de seita. Pouco a pouco, também começa a ficar evidente que a retidão moral dos demais líderes da NDI, tão estrita e propagada, não passava de fachada. Malcolm então a abandona e decide fazer um mergulho presencial no islã, indo ao Oriente Médio atrás das raízes dessa religião. De lá, volta transformado, abdicando da ideia de separação, de segregação entre seres humanos em função da cor da pele.

O filme não deixa claro quem foi que matou Malcolm X.. A CIA já o monitorava em sua peregrinação a Meca e posteriormente, quando teve que se esconder num hotel depois de ter sua casa queimada em atentado que quase o matou junto com esposa e filhas. Ao sair desse esconderijo para proferir um discurso em local público, foi alvejado pesadamente e morto. Representava, certamente, uma ameaça.

O que é que isso tem a ver com o Brasil atual? Muito pouco, quase nada ou definitivamente nada: essas seriam as respostas-padrão, as de quem tem “juízo” e entende de “política e história”. Seria, igualmente, muito provavelmente, a resposta do próprio Spike Lee.

Entretanto, nada impede que sejamos um pouco loucos e assumamos, momentaneamente, uma contramão. Afinal, não existe um certo ou errado categórico no que diz respeito a política – e a história, essa fica cada vez mais claro ser intrinsecamente  da ordem do político –; e, no que tange à arte, os bons manuais de crítica nos ensinam que a visão do autor quanto à obra por ele criada é somente uma a mais. Ao adentrarmos essa via, temos algumas similitudes entre o biografado no filme e o nosso presidente eleito; quais sejam: 1. um sujeito destinado a ser um marginal (Bolsonaro, no caso, foi descrito pelo generalato da ditadura como um “mau militar” e, não à toa, foi “reformado”), mas que conseguiu se reposicionar (para usar uma palavra atual) na vida, pela política; 2. que entrou em cena nacional num momento em que havia enorme pressão popular por uma espécie de justiça que não é uma que se inscreva pacificamente no capítulo do econômico, mas sim das relações pessoais, microfísicas, ainda que em contraposição a frutos de padrões culturais (o racismo, a corrupção); 3. que desafiou a morte ao percorrer candidamente recantos de um país que é habituado a dar pouco valor à vida, ocasionalmente extirpando-a por meio da violência.

Uma cena do filme em particular me despertou para essa linha de percepção. É quando Elijah Mohammed, o líder supremo da Nação do Islã, tenta demonstrar a Malcolm, servindo-lhe um copo d’água, a diferença de sabor entre uma água cristalina e uma outra, que ele acabava de turvar com uma substância. As pessoas, diz-lhe então, vão saber distinguir entre um sabor e outro e, se tiverem a chance de optar, vão preferir a original; a sua sede vai se inclinar por ela, não pela que foi maculada. Havia esse tipo de sede (ou um vácuo concomitante) nos EUA na década de 1960. E, acho eu, que também a houve no Brasil que elegeu Bolsonaro.

Os filmes de Spike Lee são, todos, filmes políticos e, ao mesmo tempo, filmes que portam e transmitem doçura. São filmes que tematizam valores relativos ao convívio social: a amizade, a confiança, o parentesco. Malcolm X. é o retrato de um ser admirável, que atraiu para si paixões e ódios, esperanças e temores: alguém que, em suma, se carregou de história sem abdicar de um apego, de ordem pessoal, ao que julgou ser verdadeiro. Como teria sido caso não o tivessem matado? Talvez algo próximo a um Obama?

Não sabemos, por outro lado, o que esperar de Bolsonaro. Só o que se sabe, até agora, é que é uma alma que se achou nesse terreno selvagem da política, enxergando, a certa altura, o enorme vácuo deixado pelo turvamento reiterado e difuso de suas águas.

About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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