Parasita, de Bong Joon-Ho

POR QUE NÃO GOSTEI (TANTO) DE PARASITA

Algo me deixou cabreiro da primeira vez que assisti a Parasita, filme vencedor do Oscar, do coreano Bong Joon-Ho. (A história) “não é o que você pensa” dizia alguma propaganda à época; e, de fato, assim é. Há surpresa, bem grande – a qual quase todos, a esta altura, devem conhecer.

Mas, não creio que tenha sido isso o que me incomodou. Primeiro, porque reviravoltas como a que nele ocorre podem ser atrativas, funcionar como alavancas a nos propulsar para outros estados ou ambientes do pensamento, atingindo, assim, o objetivo primordial de toda obra de arte. Segundo, porque o essencial desse filme não está nessa cambalhota do seu roteiro.

Parasita possui todos os elementos de um grande filme. Ele, de fato, é um grande filme. Tem a agilidade, tem o ritmo desses saborosos filmes que põem em cena a uma trupe de vigaristas. Gente que necessita iludir, gente que esquematiza planos, concatena acontecimentos em série a fim de conseguir uma determinada proeza. Questão de planejamento. De imediato, penso num Nove Rainhas, mas são inúmeros os (bons) títulos: é todo um filão no cinema, com direito a refilmagens e tudo –  pense-se na série dos Onze homens(acrescida recentemente de um grupo x de Mulheres) e seu um Segredo, ou então da Truque de Mestre e seus Atos (até agora somente dois).

Porém, ai porém, neste Parasita, os vigaristas acabam levando uma rasteira, como poderia eu dizer… arquitetônica. Teriam eles – uma família formada por pai, mãe e um casal de filhos –, uma vez instalados clandestinamente no novo território (uma fabulosa, moderníssima casa, suponho que em Seul), plenas condições de escapar, feito “baratas”, caso algo desse errado (e, de fato, algo disso eles conseguem, quando o imprevisto se instala); mas nada, em absoluto, poderia leva-los a prever a existência do parasitismo que dá nome ao filme…

E eis que se veem obrigados a resvalar de volta, do usufruto de um alto luxo, de até mesmo um horizonte que se descortina de “encaixe” nesse (outro e quase afetado) padrão, para o agreste e bruto universo da carência. Conseguem, em seguida (e no limite), alguma recomposição, mas o tombo havia sido tão feio, a distância entre um mundo e outro de tal magnitude, que tudo termina mal. Temos aí algo de novo, um twist no gênero “vigaristas pra lá de espertos conseguem…”. Eles (nossos heróis) já não conseguem; e a culpa disso estaria, para alguns, na desproporção entre aquilo a que ricos e pobres têm acesso.

Mudança, vital, de clave, que se confirma no diálogo pós-débâcle entre pai e filho vigaristas, quando o primeiro pontifica: todo planejamento sempre dá errado, o melhor é não planejar (mas, também, não deixar de fazer). Acho que foi essa sutil inflexão o que ocasionou o meu engasgo estético. Contudo, é daí que provém a genialidade desse filme. Não: ele não é um libelo contra a desigualdade social. Ele é a mutação de um dialeto particular da linguagem cinematográfica, de um certo padrão já consolidado. Precisei ver uma segunda vez pra sacar.

E o que ele fala para o nosso mundo presente é: precisamos reinventar o que existe. Aquilo que nos divertia, que nos fascinava, perante a complexidade da vida atual, já não dá mais conta. O planejamento tem que ser de outra ordem, incorporar novos princípios.

About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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