Um sonho

DEPOIS DE COROA, SOBRE CORONAS E COROAS

Há uns anos – por volta de uns 8, talvez mais – eu tive um sonho ao dormir. Sonho medonho: eu estava na África como uma espécie de voluntário e, ao mesmo tempo, cientista. De repente, dei-me conta de que uma peste muito poderosa – causadora de uma eventual pandemia – estava em ação a partir daquele epicentro. Era gravíssima, dei o alerta; as pessoas começavam a morrer aos montes e o único refúgio era o interior de uma casa – agora já em Brasília – que, dou-me conta agora, é muito parecida com a casa que construí nestes anos, lugar de onde escrevo neste momento. Lembro que ainda tive que correr para poder fechar, a tempo, todas as portas e janelas e nos trancarmos, eu e minha companheira, lá (aqui) dentro. Foi nesse momento que acordei, perturbadíssimo.

Fã do Freud que sou, passei horas e mais horas tentando interpretar esse sonho. Foram anos de intepretação até que, num certo ponto, sem nem perceber, o tal pesadelo caiu no esquecimento. Sonho premonitório, indicando que eu talvez tenha uma veia profética? Não, não me deixo arrastar por uma sereia tão canastrona. Um amigo me informa que há um bom tempo esta ameaça, agora tornada realidade, estava no radar da ciência, respondendo pelo nome de Evento 201 – ou seja, aquele evento para além dos duzentos casos de surtos virais que, todo ano, vinham, nos últimos tempos, pipocando pelo mundo, e que não tinham empuxo suficiente para sair do regional. Uma hora, tinha que acontecer, como efeito colateral desta facilidade que hoje vivemos de, junto com os nossos vírus familiares, circular pelo globo.

Neste momento, o que me resta, além de aguardar, em casa, que consigamos vencer esse SARS-CoV-2? Bom, quem sabe, uma vez que há tanta semelhança entre o presente e esse passado que ficou para trás, retornar ao sonho medonho em busca de um possível significado.

Recordo a todos que eu passei anos estudando a obra de Michel Foucault, e que isso redundou na minha tese de doutorado, sobre o conceito de liberdade segundo esse pensador. Dentre as conclusões que tirei dessa empreitada, uma das principais tomou forma, plenamente, somente a posteriori: Foucault foi um pensador, acima de tudo, político e a sua obra ficará para os séculos por vir tal qual a de Karl Marx (que alguns – talvez a começar dele próprio –  por muito tempo julgaram ser um pensador da economia). Só que, diferente do alemão, ele tomou para si tentar entender aquilo que está no olho do furacão da política: o poder.

O poder é um fenômeno social, o que significa que, para que ele exista, precisa haver mais de uma pessoa envolvida. E uma segunda característica é a de que ele não é substância, mas sim verbo: ele não é algo para alguém possuir, mas sim para alguém exercer, dando sempre lugar a uma relação (ou relações). Essa forma de enxergar esse fenômeno, permitiu a Foucault historia-lo, ou seja, reconta-lo em sua variação ao longo do tempo e do espaço: em tal lugar e em tal momento, ele era assim exercido. A sua metodologia de pesquisa, portanto, era de natureza histórica.

Houve, porém, um pequeno (sic) parêntese antes que se tenha chegado a esse ponto, que só ocorre no início dos anos 1970 – e ao qual foi dado, pelo próprio Foucault, o nome de Genealogia do Poder. Foucault fez uso das técnicas de pesquisa dos historiadores antes disso naquilo que chamou de Arqueologia do Saber; e que tem como objeto, não o poder, mas os saberes em sua pretensão científica. Com esse método (mais ou menos) em mãos lançou-se em fins da década de 1950 e ao longo de toda a década seguinte a explicitar, em diversos campos (inclusive na medicina), a produção da verdade no Ocidente moderno. O método serviu-lhe para que ele pudesse sair de dentro desse turbilhão onde a verdade é gestada e administrada, e, em seguida, pudesse descrever, como “historiador”, a “verdade” desse processo! Há enorme novidade aí, não sei se notam, posto que, até então, a verdade sempre foi algo que, a rigor, se descobre – não algo que se fabrica! Foucault deslocou, com sua Arqueologia, o próprio estatuto, ou lugar, da verdade, deixando essa de estar onde sempre se supôs que estivesse (os sábios).

A Genealogia do Poder também é um método, que se espelha precisamente no quê? Exato: no seu trabalho da década anterior, a Arqueologia. Só que agora, o que se trata de capturar é o poder. E uma vez que se sai de dentro do poder com a capacidade de descrevê-lo em seu exercício, em todas as suas artimanhas, adquire-se o quê? Ora, um poder de outra ordem, um não-poder, talvez. Entra-se num outro campo, num outro território para essa forma particular de exercício relacional – aquilo a que, a certa altura, em mais um dos seus belíssimos textos, Foucault deu o nome de heterotopia.

Pois bem, o que eu descobri na minha tese defendida em 2008 é que isso de conseguir, à la Foucault, se deslocar em relação ao poder é um recurso que as sociedades ameríndias que habitam a Amazônia já dominam há séculos: boa parte da sua ciência nisso consiste. Pra você mandar num índio, só com motivos que lhe sejam muito bem explicitados e que ele aceite após muita consideração – e olhe lá[1]. E, em paralelo, que um dos ramos da psicanálise, aquela que deriva de Jacques Lacan – e, mais particularmente, aquela que reconhece as formulações da sua Clínica do Real (que se iniciou na década de 1970) –, a qual parte do pressuposto de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, consiste numa forma de fazer com que os indivíduos que a ela recorrem alcancem, face ao poder que essa estruturas exercem sobre ele, uma libertação. São dois métodos análogos, em seus pressupostos e objetivos, ao de Foucault – não sendo à toa, que um dos seus principais exegetas, Paul Veyne, concluiu que o principal legado desse pensador foi uma sorte de “decisionismo individual”, algo da ordem da práxis, não da teoria.

Venhamos e convenhamos: tudo isso é bem próximo de ir trabalhar na África na condição de pesquisador e voluntário.

[1] É claro que a explicação para a semelhança com a Arqueologia foucaultiana é bem mais complexa, passando pela cosmovisão desses povos, onde vige o perspectivismo.

About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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1 Response to Um sonho

  1. Jessica Cardoso dos Santos Farias disse:

    Poder. Certamente um dos meus temas favoritos nessa vida. Adorei as provocações do texto. E, aliás, falando sobre sonhos, você já se deparou com a pesquisa do neurocientista Sidarta Ribeiro no recente livro dele “Oráculo da Noite”? https://g.co/kgs/7LMuo5 🙂
    Dê uma olhada! Você pode gostar ♡

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