The Young/New Pope, de Paolo Sorrentino

O CINEMA, TALVEZ EXTINTO, SEGUE TENDO O QUE NOS DIZER

Uma amiga fez a consulta no Facebook sobre alguma série em streaming que merecesse ser vista, mas que não fosse norte-americana. Sem sequer piscar, recomendei o pacote The Young Pope/The New Pope, concebida e realizada pelo italiano Paolo Sorrentino, disponível na Fox Premium. Na época (uns dias atrás), eu não havia terminado de vê-la, mas era só porque, a tempos, estava reservando o desfecho, com o John Malkovich como papa, como quem reserva uma iguaria.

A série, fruto da imaginação de Sorrentino, é sobre dois papas que assumem, nos dias atuais, a função. Sorrentino é o cineasta de Roma da atualidade (sucessor de outros tantos, dentro os quais destaco Fellini), o que quase lhe dá, por tabela, o título de melhor cineasta do mundo. Ele filmou os poderosos locais (e, portanto, da Itália), sempre a partir da sua imaginação, sejam eles reais ou imaginários. As ruinas da cidade outrora centro de tudo, imperiais, assim como o luxo dos interiores dos seus palazzi, fornecem o cenário ideal para suas tramas políticas no sentido mais justo, que é aquele que se pergunta: para aonde rumar?

E, em se falando de poderosos e de Roma, como deixar de fora o(s) papa(s)? E, subsidiariamente, como ter feito isso no formato, antigo, de filmes com duração de, no máximo, três horas? O encaixe do formato com o assunto é o primeiro ponto a ser registrado nessa feliz jornada.

Em seguida, claro, não poderia deixar de ser, uma construção de personagens fortíssimos, partindo do Lenny Belardo, interpretado por Jude Law, o Young Pope que dá início à trama. O papel de papa, nos dias de hoje, não pode se confundir com o de alguém que não chegue com uma nova mensagem – Francisco que o diga. Esse é um pré-requisito de verossimilhança para qualquer personagem que o represente. E Belardo, um norte-americano, chega, de fato, causando, propondo, em nome da salvação da Igreja Católica, uma volta aos seus primórdios, um resgate do “mistério”. Um mistério, inclusive, diga-se, que ele cultiva – não se trata de uma balela, um truque. Milagres? Acontecem, todos sabemos… (no fundo, é sobre isso que são os filmes desse cineasta pra lá de mundano).

O outro personagem, sensacional, é o do cardeal Angelo Voiello (vivido pelo ótimo ator italiano Silvio Orlando), eterno candidato ao papado. Ele é o secretário de Estado do Vaticano mais longevo da história, o cara que detém o poder lá dentro, administrando uma verdadeira fauna; e que manipula, manipula, mas não emplaca. Evidentemente, Belardo terá que enquadrar Voiello se quiser fazer o que pretende. Um rico choque de vontades daí decorre, com diálogos, como sempre, soberbos. Acabamos enxergando nele, Voiello, a própria instituição eclesiástica; bastante, quem diria, maquiavélica – e aqui quem vos escreve é um fã incondicional desse pensador florentino.

De impasse em impasse, chega-se no papa de Malkovich, o “New” que dá título à derradeira temporada da série. Trata-se de um egresso da aristocracia britânica, uma cartada quase desesperada, por parte do conclave de cardeais (Voiello), de restauração, ao menos, da fachada, depois do choque imposto pelo jovem órfão norte-americano (adepto, no que tange aos costumes pessoais, a coca-colas e cigarros). Uma esperança, mas que, aparte o bom discurso – o discurso da busca da conciliação, da temperança, da acolhida do outro –, porta máculas que se revelam gradualmente – e que não deixam de ser acompanhadas por uma redenção pessoal (como todas o são).

Ao fim e ao cabo, temos um senhor ensaio sobre essa pergunta feita acima: pra aonde rumar? Uma outra forma de enuncia-la, à la Lenin, talvez fosse “o que fazer?”. Mas, também, poderíamos, no lugar, invocar um Foucault é indagar: como lidar com esse fenômeno, o poder? É, eu diria, a pergunta do momento. As respostas, eu lhes asseguro, lá estão.

About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
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