The Crown, seriado

A ARTE DA CARA-DE-PAISAGEM

Rever (com urgência) os seus conceitos, essa máxima gestada nas pranchetas da propaganda e incorporada, desde então, à nossa cartilha mental de sobrevivência diária, talvez nunca tenha tido maior exemplificação do que no seriado da Netflix The Crown. “Ser” uma “rainha da Inglaterra”, depois dele, passou a ter um significado diametralmente oposto ao até então vigente – sinônimo da irrelevância, do “zero à esquerda” –, o que não é um feito de menor importância.

O seriado mostra os diversos aspectos dessa função que, tal como a coroa que o intitula, nada tem de leve, afetando não só ao regente (aquele(a) que empresta o seu pescoço para balançar o artefato sagrado), mas todo o seu entorno familiar. Uma família real, como é o caso da inglesa, apesar de ser composta – seja em versão masculina ou feminina – por pais, filhos, irmãos, tios, avôs, maridos e etc., é algo de inteiramente outro, não deixando sobra alguma para esses papeis tal como são vividos pela imensa maioria de nós, mortais humanos.

É um imenso fardo, principalmente para a figura central, rei ou rainha. Tanto é que, no caso em tela, o tio de Elizabeth II, Edward, quando era a sua vez de assumir o posto, abdicou. Teria ele, caso assumisse, que abrir mão de um grande amor, já que não era aceitável que tivesse como esposa uma mulher divorciada. Foi seu irmão mais novo, pai de Elizabeth, o rei George VI, que teve que preencher a vaga. E esse é só um exemplo entre vários, na saga exposta em The Crown, em que protocolos rígidos se chocam com desejos de ordem pessoal.

Por falar em desejos, lembro do clássico estudo do professor da UnB e psicanalista Francisco Martins a respeito dos “nomes próprios”: dar nome a alguém é revelador de toda uma carga de desejo e, portanto, um dado primordial a ser levado em conta numa análise. E foi justo aí que o Duque de Edimburgo, o marido de Elizabeth II, teve as suas asas cortadas, pois se ela, com o casamento, tivesse assumido o seu sobrenome – que, aliás, lhe sobreveio por adoção –, a linhagem Windsor à frente do trono seria quebrada. Ao primeiro sinal dessa – quiçá inocente – intenção, mesmo que ocorrido em distante periferia, a rede de informações da coroa é acionada, consegue detectar o perigo e seus “soldados” passam agir para neutraliza-la. O fardo é pesado, mas não falta quem o queira para si e pros seus, com consequências sempre imprevisíveis.

A monarquia pressupõe um conjunto de regras. Boa parte das quais aleatórias, mas regras. Está longe de ser uma meritocracia, por exemplo: não é quem está mais apto ou apta a governar aquele que acaba fazendo-o, mas sim aquele em cujo “colo” recai a responsabilidade. Veja-se o caso da mãe de Elizabeth II, que foi esposa do rei (rainha, portanto) durante um bom período (e, justamente, durante a Segunda Guerra Mundial). Após a morte do marido, seria, talvez, a pessoa mais preparada para assumir o posto em função de todo o conhecimento adquirido; mas que nada: a função cabia a sua filha, quase uma pirralha – mesmo que, desde muito cedo, treinada para tal.

No caso inglês, desde o século dezessete, o que se tem é uma monarquia constitucional, na qual o monarca convive, no que tange às decisões sobre os rumos da nação, com um parlamento de feições, além de legislativa, também executiva. O rei ou rainha é um dos componentes do arranjo constitucional de poder, mas não é ele quem, de fato, governa. Na representação que lhe cabe, ele assegura o povo de que o governo, essencialmente na figura do seu primeiro-ministro, cumpra bem o seu papel. Para tanto, desde cedo é instruído (exclusivamente, como fica claro) visando a observância dos preceitos constitucionais; muito precocemente torna-se capaz, para traçar uma equivalência meio sem-vergonha (mas não totalmente desprovida de razão), de atuar como um magistrado de tribunal superior – e em clave monocrática.

Mas, se fosse só isso, seria fácil – a despeito de, vez por outra, ter que passar um pito em figuras do calibre de um Winston Churchill. O que mais custa é a decorrência, em nível pessoal, dessa anulação de si a que a família toda se vê obrigada. O rei ou rainha é, para todos, esse personagem 24 horas. Se, com muito cuidado, criteriosamente se cerca de auxiliares tal qual um general se cerca de uma tropa, por outro lado, são sempre o seu corpo, os seus gestos e as suas caras os que são levados em conta. Ele ou ela está, praticamente sempre, no público; e qualquer expressão sua recebe leituras sobre as quais deixa de ter – como qualquer um de nós o tem – domínio. Todo gesto precisa, portanto, de um máximo cálculo. Nada pode indicar qualquer preferência que seja, principalmente nesse campo tão demandante e tão próximo, até mesmo diário, que é o da política.

Não é qualquer um que segura uma peteca dessas. 

The Crown é uma senhora, espetacular, etnografia da realeza britânica.

About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
Esta entrada foi publicada em Política, Seriados. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s