Sobre o poder da oração

UM INCIDENTE FORA DE LUGAR

Sou ateu e, aos 55 anos e em meio a uma pandemia, me deparo com o fenômeno da morte à minha volta. Sim, eu já tenho algumas mortes impactantes em minha jornada pela vida, a da minha mãe, há 15 anos, sendo a principal. Seu irmão, meu querido mas longínquo tio Juan, a sua esposa, Itna, e dois cachorros (um deles há três dias) também constam dessa penosa lista. Porém, eu pouco me indaguei mais a fundo, até este momento, sobre esse tema. Pra um ateu, tudo acaba nesse momento do último sopro e a pergunta que fica é: você dá conta?

Com a Covid-19 o tema da morte tem frequentado grupos de whatsapp e outras redes sociais. Pessoas em perigo ou com parentes idem solicitam, aos seus pares, orações. Eu mesmo acabo de fazê-lo pelo meu pai, que contraiu a doença e está, neste momento, num leito de hospital. Um outro participante do grupo onde postei essa solicitação, cujo pai também se encontra na mesma peleja, o havia feito antes. E o que me motivou a escrever este texto está na reação de uma das participantes (uma terceira figura) a esse pedido, solicitando-lhe o nome, a fim de poder incluí-lo nas suas preces.

Esse é o ponto em que começa a minha, como dizer, (santa e perene) ignorância. Dado o fato de eu não orar, essa requisição me bateu por um lado que desembocou no cômico. Dou-me conta que, sendo o cinema (como já afirmei anteriormente em algum texto) a minha igreja, eu de imediato iniciei uma cena na minha cabeça: em alguma repartição no céu, um funcionário vestido com terno, gravata e tudo, recebe a mensagem e, tendo a incumbência de fazê-la chegar ao Destinatário – seja por meio de e-mail, fax, whatasapp ou memorando/pergaminho que ele insere em alguma tubulação –, a primeira coisa que faz é verificar se o nome do beneficiário consta ou não da solicitação. Caso não conste, imagino que a mensagem vá para uma espécie de arquivo-morto, não chegando jamais aonde devia. É preciso saber como funcionam as coisas lá em cima; caso contrário, tempo perdido! Há solenidades e protocolos a serem seguidos…

Peço, por essa torpeza, mil desculpas. Na verdade, como pude me instruir ao comentar isso com uma outra pessoa, o que ocorre não tem nada a ver com filmes, mas sim com o ritual da oração. Creio que uma oração em que, em vez do nome, se peça simplesmente pelo “pai de fulano” também tem o seu lugar, mas a forma “correta” – ou, ao menos, a forma que a muitos foi ensinada como tal – de performar o ritual é com o nome

E ritual é algo muito pessoal, que tem que ser respeitado. Quem não tem o seu? São formas de conjurar energias do cosmos em prol de algo, seja o que for: chegar todos os dias na frente do computador (nosso escritório atual) e abrir essa tela primeiro, depois aquela, depois puxar a informação de uma e inserí-la na outra e seguir assim até o final do expediente; ir, na quadra de tênis, para a posição de saque e lembrar de tudo o que há de se fazer (um balanço do corpo, olhar para a bola quando está lá em cima, amolecer um pouco a munheca, girar o braço com rapidez no golpe), tudo isso é uma exigência para que a bola entre e você tenha alguma chance de ganhar o ponto.

Então, é necessário entender que se alguém te pede o nome do teu pai, ou de quem quer que seja, para incluir em sua oração, esse é o sinal de que aquela pessoa está disposta a fazer – vai fazer – , da forma que acredita ser correta e eficaz, uma ação em prol de um ente querido seu; e não há nada de mais valioso que alguém possa fazer por você. Se um ateu não consegue entender isso, então, meu caro, é melhor ele (você, eu) se desfiliar dessa crença sã e aderir a alguma seita fanática, dentre tantas ao seu alcance, porque lá é o seu lugar, entre os parvos.

Mas não quero fugir do espinhoso tema inicial, a morte, e sobre como essa possa pesar sobre um ateu. Primeiro, sempre é preciso dizer que não é algo que eu deseje, nem pra mim, pros meus e nem pra ninguém. Mas se ela vier – o que é inevitável –, ao quê se apegar, como não sucumbir à dor, à perspectiva da solidão e, principalmente, à ausência de porquês no que tange à vida (o desânimo quanto a ela)? 

Quando eliminamos as narrativas (ou os filmes) sobre um além, quando o tempo regulamentar se esgota, de fato, aos 45 do segundo tempo (salvo alguns acréscimos), eis que, parece-me, que surge o valor do presente, ou melhor, eis que o presente surge em todo o seu valor. E, pra mim, o presente é feito primordialmente de ações, ou gestos, enfim, de algo que se assemelha ao que o artista passa o seu tempo a fazer: coisas que ficam, coisas que perduram uma vez inscritas nas nossas memórias, coisas que são… eternas. Não há morte que possa suplantar a variedade, a profundidade e a beleza das ações e dos gestos que nós podemos fazer em vida. A morte é sempre igual, monótona. Nós, não, nós somos criadores, nós somos capazes, dançarinos cósmicos multifacetados; ela, ela é meramente um incidente fora de lugar.

About Andrés Rodríguez Ibarra

Filósofo, autor de uma tese sobre a liberdade em Foucault, defendida em 2008 na USP.
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s