A política pode mudar o mundo?

REFLEXÃO PARA UM TEMPO BICUDO

Um leitor meu, dentre os poucos com quem tenho a oportunidade de conversar a respeito do que aqui escrevo – trata-se de meu pai – não conseguiu digerir afirmação minha, do penúltimo post, relativa à política ser, junto com a arte – e na exclusão da ciência – a única atividade que eu vislumbro ter alguma eficácia quando se tem o propósito – talvez juvenil – de mudar o mundo. Como assim, diz ele: e todo este imbróglio em que nos encontramos, esta crise política e moral que se estende à economia, com consequências sociais iminentes? Não decorre justamente da política? Do grau de corrupção que nela está claro existir, independente de quem esteja no poder? Tudo não conduz a que, ao invés de mudar o mundo, pra melhor, a política não faça outra coisa senão torná-lo cada vez pior?

São questões legítimas, às quais tenho deixado que deem volta aqui dentro desta cachola. Um bom conselho daqueles que entendem sobre a alma humana (a tal psique) é o que diz: não se explique. Cabe pra quase tudo na vida, como forma de honrar, perante o mundo e perante nós mesmos, a nossa natureza desejante. Contudo, um espaço de opinião, tal como é este blog, se é que possui algum “ativo” (ou seja, algo que lhe dê valor), esse passa mais pela tentativa de fazer uso da razão do que propriamente de ser um instrumento de afirmação pessoal.

Dito isso (e não obstante não deixar de haver alguma controvérsia aí, pois as palavras podem ser tanto forma de expressão de um logos quanto forma de exercício de uma poiesis), tento, a seguir, dar alguma consequência à minha afirmação em prol da política. Para tal, parto da entrevista dada ao programa Roda-Viva, nesta última segunda-feira, pelo consagrado jurista Hélio Bicudo e pela advogada e professora de direito Janaína Paschoal, ambos os quais são os autores de um pedido de abertura, junto ao Congresso Nacional, de processo de impeachment da Presidente da República.

Bicudo tem no seu currículo de promotor de justiça no estado de São Paulo o combate, na década de 1970, ao Esquadrão da Morte, entidade secreta de extermínio que tinha forte vínculo com o aparato repressivo estatal que então atuava em âmbito nacional. Igualmente, já como figura pública, fez parte dos primórdios do Partido dos Trabalhadores, tendo assumido diversos postos dentro e a partir dessa sua militância. Rompeu com o PT em 2005, quando veio à tona o Mensalão. Já Paschoal, bem mais jovem que Bicudo (que está com 93 anos de idade) é alguém que se apresenta como principal porta-voz do pedido, desfiando com mais facilidade do que ele, os pormenores que o fundamentam.

Enquanto espectador da entrevista, tendo a avaliar que tanto um quanto o outro não convencem. Bicudo, porque está já numa idade que não favorece a que esteja em tal linha de frente: por vezes não ouve direito o que lhe é perguntado, por vezes o raciocínio e as palavras lhe escapam. Paschoal, por seu turno, é alguém que não consegue disfarçar sentimentos que não são, na minha visão, os mais propícios a quem se apresenta como portadora de uma saída: irrita-se depressa demais, às vezes diante da mera menção ao PT. Ainda que os argumentos por ambos apresentados sejam bastante contundentes, não conseguiram me convencer, no todo, sobre a premência do remédio que propõem.

Contudo, não há como não reconhecer-lhes a coragem e, acima de tudo, a consciência de estarem agindo conforme a um direito que ambos possuem. Bicudo é quem chama a atenção para tal: nós, cidadãos, podemos muito mais do que nos é dado notícia. E Paschoal, já pro final da entrevista, dá nome aos bois, põe o dedo naquele ponto nevrálgico, que é a falta de consideração, por parte do governo Dilma, ao – para não fugir ao juridiquês – exercício do contraditório: seja na própria arrogância de quem se vê como dono da verdade, seja no apoio a outros regimes que calam e prendem aqueles que ousam questionar a verdade oficial.

Em particular, quanto a esse último ponto, achei sintomático ao extremo o momento em que, no seu discurso de recém-eleita – pela estreita margem que todos sabemos –, a presidente anunciou que iria abrir um diálogo com quem? Com a oposição, como era de se esperar? Não: com os “movimentos sociais”; como se não tivessem sido justamente esses, grosso modo, os que tinham acabado de lhe dar a vitória – e como se a oposição também não fosse, grosso modo, um “movimento social”.

Pois bem, faço este excurso para chegar ao seguinte ponto: um governante pode governar dando ouvidos ao conjunto das forças – quer sejam políticas, econômicas ou intelectuais ou todas juntas – que compõem uma sociedade ou ele pode governar conforme as verdades que povoam a sua convicção pessoal, ou a convicção do (normalmente) pequeno grupo de “çábios” à sua volta. E, a partir disso, volto à questão inicial que diz respeito ao imbróglio em que nos encontramos: não estaríamos onde estamos justamente por uma falta de aptidão para dar ouvidos à sociedade? E não seria a essa aptidão aquilo que poderíamos dar, parcialmente talvez, o nome de política?

Foucault foi um pensador que se dedicou a mostrar como a busca da verdade está entrelaçada umbilicalmente a uma busca de poder. Um sentimento, inconfesso, de dominação, está por trás da ciência, do saber. E eu, na minha experiência de vida, dou-me conta que, além desse sentimento, existe um outro: o medo, a agir como uma espécie de catalizador de verdades; que faz com que construamos trincheiras em torno desses patrimônios, as nossas convicções. Cabe a alguém, de vez em quando, ter a coragem de sair da sua respectiva trincheira, atravessar o campo de batalha e bater na porta inimiga pra ver se não há algo errado nisso de estar-se matando uns aos outros. Seria esse personagem o político (no seu sentido mais nobre)?

Mas eu disse, acima, que talvez essa seria uma definição parcial. Sim, porque o outro aspecto daquilo a que poderíamos chamar de política talvez diga respeito à inquietude, tal como é essa que, claramente, move essa improvável dupla que se submeteu, segunda-feira passada, à banca de entrevistadores do Roda-Viva. Certamente, eles não estão querendo conciliar pontos de vista. Estão, na verdade, dando um passo além daquele que o próprio sistema político – por conta do próprio rabo preso – até agora se atreveu a dar. E eu me pergunto: pode ser que não dê em nada, pode ser até que seja bom que não dê em nada, mas até que ponto não terá sido o ingrediente que faltava para que a nossa çábia governante tenha finalmente se dado conta que o seu papel não é o de uma professora, de uma gênia ou de uma redentora Madre Teresa, mas sim o de uma líder política?

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Big Jato, de Cláudio Assis

MATEMÁTICAS INCOMPATÍVEIS

Que leitura fazer, depois de ter assistido ontem, no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (48ª edição), a Big Jato, da atitude de seu diretor, Cláudio Assis, que, três semanas antes, no Recife, protagonizou cena vexaminosa, por ocasião de um debate sobre o filme de sua colega Ana Muylaert, que acabava de lançar seu Que horas ela volta? – ele e o também cineasta Lírio Ferreira interromperam a fala da cineasta, que se iniciava, acabando com xingamentos a integrantes do elenco e equipe, numa atitude que ela atribuiu a despeito machista? Ambos os cineastas foram banidos, por um ano, em função desse comportamento, das promoções da Fundação Joaquim Nabuco, anfitriã do evento; e ontem, Assis, ao subir ao palco do Cine Brasília para falar do seu filme e apresentar a equipe, recebeu estrondosa vaia por parte do ávido e indócil público do festival.

Assis não é propriamente um estreante em termos de rebuliço cinematográfico. Em 2004, por ocasião da entrega de uma premiação em que seu Amarelo Manga concorria, ele disparou a chamar de imbecil ao diretor que então subia ao palco para receber o prêmio: Hector Babenco (por Carandiru). Relendo as manchetes da época, depreende-se que o seu clamor era por uma maior “honestidade” no cinema brasileiro.

Bem, Assis (assim como Ferreira) se desculpou perante Muylaert – que aceitou as desculpas. Alguma porção de sua atitude pode ser atribuída à bebida – também presente no episódio Babenco. O cinema brasileiro é uma família, chega-se à conclusão; e, como toda família, há lá lugar para os ferozes, os inconformados, os problemáticos. Em tempos de “autobiografias disfarçadas”, poderíamos ler Big Jato – um filme que fala, sobretudo, sobre família – sob essa clave.

Porém, talvez seja mais “honesto”, da parte de uma crítica, se distanciar um pouco desses bastidores e considerar o que pode haver de verdade nessa palavra enfurecida, a partir de uma análise desses dois filmes que acabam de ser lançados – o filme de Muylaert está em cartaz nos cinemas, com grande sucesso de bilheteria e o de Assis ainda demorará um pouco pra chegar ao circuito. E, como verão, algo a me auxiliar nessa tarefa decorre de um outro deslumbrante produto cultural a que tive acesso no mesmo dia de ontem: a exposição Passeio Selvagem, da artista plástica Raquel Nava, na Galeria Referência (205 Norte), que conta com curadoria e preci(o)so texto de apresentação de Graça Ramos.

Que horas ela volta? é um filme sobre um tipo de servidão que ainda existe em nossa sociedade no âmbito das famílias de classe média alta e daí pra cima: a do trabalho doméstico. Não vejo – inclusive como observador participante desse tipo de relação – pecado algum na existência desse mercado de trabalho, em que tarefas específicas recebem remuneração por parte daqueles que têm condições de terceirizá-las, face a um acúmulo, pessoal, de outras tarefas concorrentes. O problema, me parece, surge quando entra em cena uma herança cultural que avacalha a estrita ordem do contrato (que pressupõe uma igualdade de partes) e implanta a servidão (que pressupõe superioridade). E o filme de Muylaert possui o grande mérito de evidenciar, com as tintas poderosas da ficção, o absurdo, o ridículo até, daquilo que já havia sido mostrado por um documentário como Doméstica de Gabriel Mascaro e que vige nesse universo; o que é que impede, por exemplo, que o patrão levante a sua bunda da cadeira onde está sentado para pegar um Guaraná na geladeira, enquanto está claro que a empregada doméstica está ocupada com o restante da refeição a ser, em seguida, por ele consumida?

Assim, esse filme, ao contrário do que já declarou a própria cineasta ao tentar explicar o seu sucesso de público, não tem nada de plácido. Incomoda: faz com que olhemos para atitudes nossas do dia-a-dia – e, de quebra, reflitamos (em paralelo, já que esse certamente não foi o propósito inicial desse filme que começou a ser gestado bem antes) sobre o significado de uma iniciativa como a que temos assistido, ao longo dos últimos 13 anos de governo petista, de dar acesso às classes mais desprovidas economicamente a instrumentos que ocasionem uma percepção mais crítica do status quo. Há grande mérito nisso – como, de resto, em questões pontuais desse filme, tais como a atuação de ambas as protagonistas, em especial a que desempenha o papel de filha.

E Big Jato? Aonde reside seu mérito? Bem, eu diria que tudo se inicia (e termina) pela absoluta originalidade daquilo que é projetado diante de nós. Não se consegue, diante de um filme como esse, acessar aquilo que faz com que nós, críticos, tenhamos, vez por outra, algum destaque: correspondências, associações com outros filmes ou produtos culturais de ordens diversas. Já disse: é um filme sobre uma família, sobre uma família de um vilarejo do interior do Nordeste. Dois irmãos (ambos vividos sublimemente por Matheus Nachtergale) têm visões de mundo e trajetórias de vida bem diferentes, mas, não obstante, habitam a mesma localidade, passando à geração seguinte os impasses, de ordem filosófica, que perpassam seus respectivos espíritos.

Um, lida com a bosta da região, recolhendo, com o seu caminhão, aquilo que entope as fossas das casas. O outro é radialista e joga nas ondas sonoras que percorrem a (mesma) região, ilusões das mais variadas espécies, por saber talvez o quanto não se pode ficar só no que é resultante da “matemática” do mundo: as entranhas, entendidas não mais como aquelas de que sai a matéria que garante a sobrevivência do irmão, também têm a sua – e responde pelo nome de poesia. Reencenam, no limite, a diferença entre um Platão e um Aristóteles? Seguro que sim (eis que brota meu lado radialista).

Entretanto, há formas e formas em que isso pode ser feito. E a que Assis adota é uma, eu diria, que se caracteriza por dois elementos que se complementam à perfeição, quase como se gêmeos fossem: uma agilidade de linguagem falada e uma forma de filmar flutuante, ambas as quais nos atordoam. A linguagem falada é quase uma música, que requer um ator da capacidade de Nachtergale, mas também a de outros à sua volta (Marcélia Cartaxo está primorosa como esposa de um dos irmãos) – paradoxalmente, é somente com Jards Macalé, o músico, na vida real, a fazer o papel de uma espécie de menestrel local, que a coisa desanda um pouco. E a câmera que vagueia, que tem a liberdade de subir e descer, adentrar e recuar para em seguida girar, se deslocar: é como se lá estivesse o cineasta como mais um personagem a se expressar, inquieto.

O que é que isso tem a ver com a exposição de Raquel Nava? Bom, peguemos o que diz a sua curadora, no texto de apresentação:

“Conduzida com docilidade pelos materiais, Raquel não desenha o que deseja criar. Sobrepõe e extrai massas de tintas, inverte posições na hora da secagem, deixa bolhas virarem volumes, incorpora folhas de alumínio – luminosidade que se embrenha em todas as obras apresentadas – e acrescenta objetos, como a camurça preta instalada sobre a tinta no quadro-vitrine. Nessas superfícies intensas e vitais, paisagens inesperadas por darem a sensação de inacabado, ela devolve-nos também a antiga questão: a pintura é o que um faz ou o que um vê? – o que nos remete ao pensamento de Paul Klee: ‘A arte não representa o visível, a Arte se torna visível’.”

O cinema de Cláudio Assis é um pouco como o trabalho de Raquel Nava; em ambos, saltam aos olhos proezas de diversas ordens. E, a partir disso, não admira que o pernambucano, às vezes, incorra em estrepitosos passeios selvagens.

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Uma catarse

A SOCIOLOGIA: UM ERRO?

Há trinta anos atrás, mais ou menos, deparei-me com essa que viria a ser a minha profissão: a sociologia. Eu tinha interesse, na época, no curso de Comunicação Social, onde se formam, dentre outros, os jornalistas. Mas, minha nota de vestibular não era suficiente para tal. Ela dava somente para a minha segunda opção, que era por essa “ciência da sociedade”. Consertar o mundo era o que eu queria, lembro-me bem, com 17 anos – talvez acreditasse, intuitivamente, que a comunicação pudesse ser um caminho para tal – e, por isso, essa opção, apesar de ser segunda, ainda era satisfatória.

Com o tempo, cursando as matérias do jornalismo – com a esperança de, no vestibular seguinte, emplacar essa opção – fui me dando conta de que quase tudo nesse curso recebia uma atenção, por demais, digamos, apressada. E, por outro lado, as matérias do curso de Sociologia, que também, por obrigação, cursava, passaram a me cativar. Nem percebi quando deixei de lado a ideia de novo vestibular e passei a me inscrever não mais obrigatoriamente – mas com verdadeiro interesse – nas disciplinas que me apontavam para algo que, descobri, gostava de fazer: pensar.

Sim, há muitas formas de pensar. Todo mundo pensa. A rigor, quem entra pra uma universidade é pra exercer essa faculdade, ou dom, que nos foi dado. Quando uso esse verbo no tocante à sociologia, contudo – e era essa, ao menos, a minha sensação à época –, eis que parece aí surgir uma certa condição de pureza; pois, afinal, um sociólogo – penso eu, agora –, ao contrário do restante das profissões, convive com nada além de ideias – um arquiteto depara-se, necessariamente com uma prancheta, um historiador, com arquivos, um jornalista, com uma máquina de escrever, um microfone, uma máquina fotográfica, até mesmo um antropólogo tem que ter ao menos um caderno de anotações e uma forma de se apresentar que gere confiança, um psicanalista precisa de um divã (e ambos esses últimos, de um “outro”), um economista, de números, e assim por diante.

Ideias, todo mundo diz, são luminosas, esclarecem. Sendo assim, o sociólogo – na verdade um sucedâneo dos filósofos – poderia ser visto como alguém que transita num ambiente que se parece com o ar, a sociologia sendo, portanto, meio etérea. Mas, na verdade, acredito que, no tocante ao exercício dessa profissão, a analogia ambiental que mais caiba seja com a de um buraco, parecido com o que os mineiros estão habituados a permanecer e no qual eles, às vezes, ficam presos – a caverna de Platão também servindo a contento.

A despeito, contudo, de todo esse glamour (ou falta dele), desencantei-me dessa ciência. Um impacto forte foi a constatação, ainda ao recém sair do mestrado, de que o “príncipe dos sociólogos”, que então ascendia à Presidência da República, não correspondia ao que vivia na minha expectativa. Eram, obviamente, meus anos ainda ingênuos, de madurez política quase nenhuma. Por outro lado, de tudo o que tinha visto (e, principalmente, lido) ao longo da minha formação, somente a obra do Foucault se mantinha incólume. E, lá pelas tantas, no seu ímpeto genealógico, ele declarava que a sociologia tinha nascido, a bem da verdade, nas prisões… (como instrumento de controle).

Passados os anos – dentre os quais deram-se uma convivência cotidiana num parlamento e um doutorado em Filosofia que não redundou, como era de se esperar, no magistério dessa “disciplina” – meu interesse crescente é com a arte, como bem pode reparar qualquer um que frequente este blog. E eis que me ocorre de ler o livro, recém-lançado aqui no Brasil, de Gilles Lipovestsky e Jean Serroy, A estetização do mundo – viver na era do capitalismo artista. Lipovetsky é filósofo e Serroy um pensador da estética – e o livro traz uma hipótese deveras intrigante, que logo mais explicito – mas, para mim ao menos, o que ambos fizeram foi uma análise tipicamente sociológica.

A constatação que ambos fazem diz respeito ao grau em que o mundo atual, com sua profusão de mercadorias e seu ímpeto consumista, na contramão do que se poderia esperar, não se tornou mais feio; pelo contrário, teria incorporado – e continuaria a fazê-lo, cada vez mais – nesse seu voraz sistema, tudo o que a arte tinha a oferecer. O nosso mundo se torna cada vez mais estetizado – “artelizado”, na terminologia por eles usada – sendo que isso não implica que se tenha tornado melhor, ou mais belo, sequer – já que guerras continuam a matar e desigualdades custam a regredir. É quase um tapa na cara da arte, a lhe dizer algo como “você é absolutamente inútil”.

Pois bem. Sem nem sequer ter me dado, ainda, ao trabalho de terminar esse livro, acho que duas observações merecem lhe ser feitas. Essas dizem respeito ao que vinha dizendo acima, sobre a sociologia; aplicam-se, por tabela, a essa. A primeira é uma observação de que, nesse belo modelo (basicamente marxista) em que as forças produtivas, por um lado, e o ímpeto criativo, por outro, contracenam, espaço algum parece existir para uma liberdade, ou, sequer, para essa atividade que com ela se confunde: a política.

A segunda observação tem bastante a ver com essa primeira: diz respeito às análises que são feitas sempre a partir de um todo, maior, que serve como gabarito para o entendimento do particular. Lipovetsky é especialista nisso, criando termos como hipermodernidade, as tais “eras” disso ou daquilo. Em geral, o tempo e o espaço servem para a formação de tais gabaritos de inteligibilidade (termo que roubo de Foucault, que o usa num outro contexto); e é daí que surgem os historiadores (mestres do tempo) e… os sociólogos (mestres do espaço, junto, talvez, com os geógrafos – já que sociedades precisam de espaço para existir). Tudo, em suma, tem o seu encaixe: não é possível que não o tenha! Não é à toa que Foucault diz que a ciência, tal qual a praticamos hodiernamente, está mais próxima da perspectiva cristã, com o seu Deus supremo, do que da grega, em que o universo possui plasticidade.

Sim, é verdade muito do que esses dois autores apontam quanto à escala adquirida pelo fenômeno artístico no mundo atual. Cifras astronômicas lhe dão sustentação, ao mesmo passo em que estilo e identidade se tornam gêmeos siameses, impulsionando, por sua vez, o design a insumo básico de qualquer produto a ser colocado no mercado. Mas, essa forma de apreensão desse fenômeno passa ao largo, parece-me, de sua verdadeira razão de ser.

Qual seria essa? Bem, que tal se fôssemos atrás daquilo que Lorenzo Mammì nos aponta em relação a (o crítico de arte brasileiro) Mário Pedrosa, e seu quase lampejo (já que não teria levado isso adiante) ao propor a arte como “exercício experimental da liberdade”? Mammì é bastante elucidativo em relação a essa intuição, surgida no pensamento de Pedrosa em 1967 – justamente quando passava a ter que dedicar o grosso dos seus esforços ao combate político da ditadura então em vigor –:

“O centro do argumento de Pedrosa (…) está no caráter único da obra de arte. Por nascer de um impulso individual livre, essa unicidade não é redutível às equivalências de um sistema de trocas capitalista, ou à função meramente ilustrativa da arte soviética de propaganda. Num sistema de comunicação completamente mercantilizado (ou ideologizado, no caso soviético), a obra de arte resiste não enquanto produção distinta das imagens comerciais, mas enquanto experiência existencial de trabalho livre.” (Prefácio a Arte – Ensaios, de Mário Pedrosa, pp. 17-18)

Exercício experimental da liberdade… isso me soa – será por que? – tão próximo desse outro ponto cego desse livro obtuso – e da sociologia, afinal de contas –: a política.

Ainda acredito, vejam só – a esta altura da vida! –, que é possível mudar o mundo ou, ao menos, partes dele. E descobri, ao longo desse percurso, que há duas formas de fazer isso (três, se considerarmos a psicanálise lacaniana), nenhuma das quais tem a ver com a ciência. São a arte e a política. Exercícios experimentais da liberdade.

(E quanto à filosofia? Restaria-lhe algo de bom? Sim, talvez, desde que não abdique jamais de ter a liberdade – e não a verdade – como eixo. As verdades são como os veios de solo a nos cercarem neste buraco com muito pouca luz em que nos encontramos. Qual delas nos interessa mais em termos de saída?)

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Adeus à Linguagem, de Jean-Luc Godard

UMA DIMENSÃO QUE SE CONSOLIDA, FINALMENTE

Vale a pena, tenho a convicção, ir mais de uma vez a assistir a Adeus à linguagem, último filme de Jean-Luc Godard, agora em cartaz. Ainda pretendo fazê-lo: trata-se de checar coisas ouvidas, para além das vistas – a que não há como não prestar atenção, seja pelo 3-D, seja pela mera beleza das imagens, as quais eu chamaria de nada menos que celebrativas. Um barco, tipo um ferry, singra um lago, atraca, enquanto casais, em terra, procuram entendimento (Aufklärung) a partir de livros. Celebra-se, duplamente: o cinema, a replicar a sua primeira imagem, em modo agora fluvial – em vez de ferroviário –; e a literatura – não aquela que está presente nesses livros que os casais escrutam, mas na sua simples encenação, eu diria, joyciana, em que importa mais um fluxo (linguístico?) do que propriamente a materialidade dos personagens e do que lhes ocorre (não é à toa que, a certa altura, se fala dos rios, daquilo que eles, desde sempre, nos têm a contar).

Sim, a opção pelo 3-D expande, de forma a quase nos nocautear, uma tendência plástica já presente desde, eu diria, Je vous salue, Marie. Imagens são coisas que se armam, podendo, no cinema, subvertê-lo, posto que esse nunca foi plástico. Uma tela de TV, com corpos a passar na sua frente, como que a recortar o que se narra lá dentro – nem que seja mera estática –, isso já consiste num efeito visual suficientemente eloquente. Quando esse jogo entre planos recorre à nova tecnologia – justamente aquela que se especializa nesse jogo em particular – o acerto é total, definitivo: mesmeriza-nos fatalmente.

Não se trata, veja(m) bem, de uma forma de aproximação de uma dada realidade. A leitura corriqueira do 3-D passa muito por aí, mas o que se vê em Adeus à linguagem, a partir dele, é, mais, uma espécie de deslocamento, a permitir que o mecanismo plástico cresça, que os recortes, no seu interior, se deem numa nova direção, por vezes (propositadamente) atordoante. Assim, permite-se a entrega à mera – e prazerosa – observação das ações/reações de um reles vira-lata, uma vez que a dimensão de pensamento (linguagem?) se lhe acopla – ainda que por meio da sugestão de um narrador – quase sem esforço algum. No fundo, o “adeus” do título é zombeteiro, já que pode-se lançar a dúvida de se a dimensão que se acrescenta (em paralelo, é claro, ao feito meramente tecnológico, hoje já banal) a esse universo de vigência plástica não é justamente a da linguagem, em forma de pensamento.

E eis que caímos nesse motivo pelo qual recomendo (a mim mesmo, inclusive) uma segunda assistência a esse filme: o pensamento. Godard sempre foi um cineasta amigo das ideias. Ideias são pensamento e, aqui e acolá, no filme, algumas aparecem, são enunciadas, mas o vórtice em que estamos envoltos, como se fôssemos coelhos sendo puxados de uma cartola, mal permite que lhes demos atenção. Ouvi, por exemplo, algo sobre imagens assassinas. Assassinas de quê? Confesso que não registrei: preciso voltar lá pra checar. Mas sei que ali está, também, Godard, o pensador atento à História. E pode ser que ali esteja, também, uma verdade. (Meu deus! Já não bastasse ter-nos ele pendurado pelas orelhas, ainda joga esse molho, como que a finalizar um fino prato de alta gastronomia!)

Por fim, disse acima que o título seja porventura irônico, mas há um aspecto de Adeus à linguagem que faz jus, deveras, ao adeus dado. Trata-se da própria edição do filme, em que se pratica uma clara despedida: uma fala começa e é interrompida por um corte abrupto, cenas idem; ou então, há repetições, inclusive na numeração das partes; ou então, diversos pensadores (Platão, Sartre, etc.) são incluídos nos créditos finais, ao passo que, no começo, avisa-se que, por expressa ordem do diretor, nem todas as falas do original em francês foram traduzidas. O cinema não deixa de ser uma linguagem, um conjunto consolidado de protocolos – e Jean-Luc Godard foi um dos seus mestres incontestes – ; mas linguagens se esgotam. Ou não?

Esse, aliás, é outro tema lançado para que nosso paladar reflexivo não fique sem um devido ponto de apoio. A linguagem surge, necessariamente, de um face-a-face, diz uma dessas falas que preciso rever; e o que acontece quando uma rede de informática se lhe sobrepõe? A coisa é, além de lúdica e saborosa, grave.

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Uma tradição familiar

RÉQUIEM PARA UM PEUGEOT

Herdei, com toda a certeza, de minha mãe um certo sentimentalismo em relação às máquinas que nos servem no nosso dia-a-dia, em especial os carros. Havia sempre um pouco de choro e um certo ritual de despedida cada vez que um carro por ela dirigido ocorria de ser trocado por outro. Não me lembro qual foi o momento em que, na casa dos meus pais, passou a haver dois carros: um para cada motorista, sendo que acabou caindo nas costas dela o papel de motorista, digamos, titular – que era quem nos levava e trazia da escola, levava ao clube onde praticávamos esportes na sequência do período escolar e demais diligências. Assim, o carro “oficial”, sempre oriundo de alguma concessionária, era o dela, ao passo que o do meu pai era, via de regra, um carro semi-novo, destinado a rodar, aparentemente, até cair.

(Faço um parêntese aqui para chamar a atenção pro fato de que meu irmão parece ter herdado essa outra parte da tradição familiar, a que coube a meu pai, de ir e vir nas pistas desta cidade veículo-destinada dentro de um forte concorrente a coágulo das suas artérias viárias).

Mas eu falava do apego por esses seres (sic), os carros. Se formos ver eles quase se assemelham aos animais domésticos que abrigamos em nossos lares ao mesmo tempo em que eles – em especial os cachorros – nos abrigam nos seus corações. Sua vida útil é parecida; de todo modo, sempre menor que a nossa. “Dão” oficina quase que da mesma forma que aqueles dão veterinário. E, enfim, não reclamam, se adaptam ao nosso ritmo e vícios. São, quem sabe, nossas mais completas testemunhas – e ainda, por cima, com a vantagem de nunca, nada, revelarem.

A vida útil desse carro de que ora me despeço está perto de seu fim. Os detalhes são relevantes: oito anos, quase duzentos mil km. Recentemente tive que trocar o seu cárter – o recipiente, no motor, que armazena o óleo quando esse não está, devido ao movimento, evitando que pistões friccionem as paredes dos dutos em que esses vivem presos. De tantas trocas desse lubrificante, o orifício por onde ele escoa havia se desgastado e já não havia mais como improvisar lá uma bucha de contenção. O mesmo tipo de improviso estava vigente no mecanismo da janela do motorista que, depois de um estalo, não subiu mais e teve – o mecanismo – que ser substituído pelo de um modelo mais novo, já que estava complicado achar uma reposição de pleno direito. Mangueiras do sistema de refrigeração estavam inchadas e também em falta no mercado. Enfim, chega uma hora em que se adquire (ou não) a consciência de que não é mais de um carro que se trata, mas de um preâmbulo para uma boa sucata.

Contudo, quanta gentileza a desse francês, que jamais deixou de detectar as gotas de chuva caindo sobre o para-brisa, tomando de imediato, como um bom mordomo, a atitude de ativar o limpador correspondente. A mesma presteza ocorrendo por ocasião da escuridão: delícia entrar em túneis ou garagens subterrâneas sem ter que acionar botão algum pra jogar luz lá dentro, pois já havia alguém (sic) atento a tal tipo de alteração. E o que dizer do ar-condicionado? Novamente, medições atentas eram feitas para fazer com que a temperatura ambiente correspondesse à desejada, com variações, numa certa faixa, de meio ponto centígrado! E, ainda por cima, o sujeito (sic) era poliglota, informando em diversas línguas (aprendi variadas de suas expressões na simpática telinha outrora futurista) a iminência de falta de combustível ou a necessidade de uma revisão.

É chegada a hora de um novo “servidor”, que vem prometendo maior estabilidade em curvas (suspensão inteligente), economia (mais ainda?), controles e conectividade com o mundo em mais alta proximidade e escala, sem dispensar o conforto do ar-condicionado digital.

Estou revendo – ou simplesmente vendo, em alguns casos – a saga de Star Wars, composta, até o momento, de seis episódios, e acabo de ver, no quarto deles – na verdade, o primeiro a ser filmado, já que a saga não foi filmada em ordem cronológica –, uma cena em que o androide C3PO é barrado ao entrar num bar na companhia de Obi Wan Kenobi e Luke Skywalker: “não aceitamos androides aqui” grita, do balcão, o dono da espelunca onde, não obstante, toda uma fauna de figuras, dos mais diversos quadrantes do universo, se refestela. O grupo de aventureiros intergalácticos aquiesce, mas a pergunta, óbvia, diz respeito a que tipo de “birita” o famoso “ser de lata” estaria interessado. Acho que George Lucas, o criador dessa incrível saga – que, por sinal, partiu de uma imagem, por ele concebida, dos dois droides (C3PO e R2D2) vagando deserto (de um planeta longínquo qualquer) afora atendendo à missão a eles repassada – anteviu, de forma genial, todo um novo mundo, não necessariamente muito distante: um no qual devemos deixar que os droides adentrem os lugares que frequentamos e se sirvam do que quer que lhes dê gosto.

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Sambossa & Roll, de Isabella Paz

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BRILHO PROFUNDO A PARTIR DE UMA LINHAGEM NEGRA

Na entrada, eu e um outro senhor (sim, já entrei nessa categoria, conforme sou tratado com maior frequência) ainda guardávamos esperança de poder entrar enquanto um rio de brasilienses adentrava o Clube do Choro para ver o show Sambabossa & Roll, da cantora Isabella Paz. Esse senhor, de acordo com o que me revelou, era do Rio e estava de passagem pela cidade. Tinha ido, na véspera, a essa mesma sala de espetáculos e visto o soprista Nailor Proveta e parceiro. Estava encantado, com a estrutura, a qualidade da música, o preço e comentou que na sua cidade não existia, nem de longe, algo assim. Parecia saber do que estava falando. Mas não teve a mesma sorte que eu, que, creio, consegui o último dos ingressos à disposição, das mãos de uma dama que foi com a minha cara e que, depois de ter entrado e saído diversas vezes – a cada hora, com novos convidados – ainda possuía um.

Como foi que quase perdi esse show? Bom, achei que, sendo o salão do Clube um senhor espaço (uns 300 lugares?) e estando a cidade vazia em função do “feriadão”, não teria a dificuldade que tive – na verdade, teve muito mais gente que ficou de fora. Mas, também, acho que subestimei a essa cantora filha da cidade, que, há pouco mais de duas décadas, lapida uma voz, um estilo, um repertório, com um trabalho musical que, além do expressivo, passa pelo pedagógico e terapêutico.

Acho que já a tinha visto cantar (mas posso estar errado) e certamente já a tinha ouvido no rádio. Poderia até dizer que a reconheceria caso a ouvisse “às cegas”; dando sempre novas flexões a clássicos da MPB, mas como se pedisse licença, ficando, aos poucos, cada vez mais à vontade nesse universo – e isso porventura também transparecia da sua voz – quase sacrossanto.

Mas eis que, desta feita, Isabella Paz, vá saber por que – as circunstâncias da vida, às quais, em dado momento, se referiu (o nascimento de sua filha, a morte do seu pai ilustre, a parceria amorosa com o guitarrista Pedro Doca) –, resolveu dar uma flexão não mais à música, mas em si mesma. Deu pra notar isso desde o momento em que pisou no palco, depois da sensacional banda que a acompanhou: óculos vermelhos, indicando que a busca é por alegria, que o universo é plástico, disponível a uma eterna renovação.

Foram poucas músicas, algo em torno de umas doze ou treze, iniciadas por um scat, ou canção balbuciada – que alguém da mesa em que eu estava chamou de “em língua do P”. Seguiram-se dois sambas de Noel e “Corcovado” de Tom. Não teve Caymmi, mas Edu Lobo (“Ponteio”); enfim, tudo de extremo bom gosto, em arranjos delicados, generosos, por parte do tecladista Renato Vasconcelos (à frente de time dos sonhos, que incluiu um naipe de metais com flauta, trompete e trombone, além de violão, baixo acústico, bateria e um cavaquinho). O que se ouviu e viu, nessa primeira metade do show, foi uma Isabella Paz absolutamente segura, tendo alcançado seu objetivo, há tanto tempo perseguido, de conversar em paz (me desculpem o trocadilho) com esse divino legado.

Porém, quando veio a segunda parte do show, tudo premeditadamente se transformou. Digo premeditadamente porque não só ela mudou de roupa (não sei se esse termo se equivale a figurino, por isso me mantenho na versão mais prosaica), mas também os músicos. Saiu o piano acústico pra ficar somente o elétrico, um sax entrou no lugar da flauta e um trio feminino de backing vocals se apresentou em linha de frente, com sorrisos e jogo corporal a dialogar diretamente com aquela presença que tinha se mantido tão elevada na primeira parte. Por último, o banco sobre o qual Isabella cantou – e que me pareceu quase protocolar, mas que logo em seguida vi que também tinha um papel – sumiu de cena, permitindo que não só seus braços, cabeça e olhar dançassem, mas também o seu corpo todo. E, é claro, entrou em cena um guitarrista (Doca).

O que aconteceu a partir de então foi algo arrebatador. Versões rockn’roll, fundindo-se com uma levada funk, de dois clássicos de Caetano e Chico Buarque: “Vaca profana” e “Deus lhe pague”. Teve também, nesse enlevo de massa sonora extremamente dançante (não sei por que ninguém da plateia se dispôs a tal), um Lenine e, em total coerência com a negritude disso tudo, uma leitura aprimorada de “Carne”, da dupla Marcelo Yuka e Seu Jorge – que cheguei a confundir com algo do Jorge Benjor e que Vasconcelos teve a genialidade de misturar a um trecho do musical Hair, da década de setenta –, tornada clássica pela voz de Elza Soares. Puro delírio que permitiu entrever um brilho para além dos óculos vermelhos.

O domínio da música popular brasileira – uma sigla já gasta e pouco aceita por músicos contemporâneos –, ora presente nas “pessoas” do samba e da bossa nova (talvez seus mais dignos portais), trabalho pra uma vida inteira, parece ter permitido a Isabella Paz o entendimento de que esse é uma corrente sem fim, em que novos elementos, como na vida, sempre podem entrar, permitindo uma ampla e saudável renovação.

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Shiva strikes again

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Sobre a Lei do Silêncio

PELO ESQUECIMENTO DEFINTIVO DA ESCALA BUCOLICA (E A FAVOR DO DESABROCHAR, SEM VOLTA, DA ESCALA GREGARIA)

Uma discussão das melhores se avizinha nesta cidade que acaba de completar 55 anos. É certo que não se trata de uma exclusividade: diz respeito aos limites de emissão sonora – vulgo, Lei do Silêncio –, alvo de leis por tudo quanto é lado neste planeta. Trata-se, na verdade, da revisão de uma lei ora em vigor, que tem sido usada para fechar diversos estabelecimentos comerciais que ofereciam cultura em seu cardápio – em especial, música. O assunto tem gerado intensa troca de opiniões nas redes sociais e começa a aparecer na mídia e fazer com que o aparato do governo local, recém empossado, comece a se mexer, passando tardiamente a dar ouvidos a um segmento – o dos artistas, frequentadores, empregados e empresários locais afetados por esses fechamentos – até agora tido como um com o qual o chefe desse aparato – o governador Rollemberg – tinha uma afinidade.

Tenho acompanhado o movimento que ora surge, ao mesmo tempo em que comecei profícua discussão com amigos muito próximos que tem manifestado, a despeito do seu envolvimento – inclusive, mais direto que o meu – com a música, serem contra a iniciativa da revisão da lei. A situação, pra mim, por vezes toma a feição de uma encruzilhada pessoal, posto que tem sido sempre os argumentos da primeira turma – e não os dos meus companheiros de mais longa data – os que tem me convencido.

Que turma é essa? Bem, em primeiro lugar, eu diria, grosso modo, que são artistas de uma geração posterior à minha e dos meus amigos. Muito provavelmente, a maioria é nascida na cidade – ao contrário de mim e dessa minha outra turma. Há algo aí de diferente, não tem como negar: os seus horizontes se impregnam, de forma muito mais acentuada, de árvores retorcidas, luz radiante, cachoeiras e entardeceres multicoloridos. Mas, também, percebo que há neles um vínculo muito mais forte com os meios de expressão de que fazem uso; uma radicalidade bem mais evidente, inclusive no que tange à adoção da arte como meio de vida. (Não quero, com isso, desmerecer os artistas brasilienses da minha geração e das que a precederam. Eles estão aí, com maior ou menor dificuldade e sucesso junto ao público. Ser artista, para muitos, não é tanto uma escolha – ainda que essa seja uma questão crucial – mas uma inevitabilidade: não adianta achar que a linguagem falada ou escrita dê conta de tudo o que as pessoas têm a dizer; e o encontro de uma cabeça e um coração com uma forma de expressão que lhes dê vazão vai ser sempre algo impossível de se deter enquanto chama vital.)

Não adianta, me parece, querer entender o que está sendo proposto, o enfrentamento ao qual muitos ora estão se lançando, com os olhos de um passado de precariedades e, até mesmo, pioneirismo. No máximo, pode-se perceber a existência de um legado, pois alguns desses jovens artistas a que me refiro são filhos de heróis culturais – como é o caso da atriz Maíra Oliveira, filha de Ary Pára-Raios – ou mesmo de artistas não tão conhecidos. A questão, hoje, se resume mais ou menos ao seguinte: ou a arte tem um lugar na agenda viva da cidade, no seu projeto de presente e futuro (e um lugar no mesmo patamar de importância dos diversos outros aspectos), ou, então, por favor, avisem a essa geração de artistas, de forma agora definitiva, que esta cidade não lhes convém, que o que eles querem e precisam não se encontra aqui.

Brasília nasceu como um experimento urbanístico. Se deu certo ou não, há controvérsias – eu em particular acho que não, que o seu ordenamento espacial setorizado, se, por um lado, dá margem para a existência da tão decantada “escala bucólica”, por outro, impede o que as cidades oferecem de mais rico, que é a possibilidade do encontro com o que é diverso. O que não se pode negar, contudo, é que vida passou, também, a acontecer no bojo desse experimento. E, sendo assim, talvez seja chegada a hora de a cidade – e não mais os artistas – fazer uma escolha entre essa vida, por vezes frágil, mas intrinsecamente pulsante, e a rigidez de seu concreto e das suas linhas retas (a se imiscuírem, tudo indica, no modo de pensar dos seus habitantes).

Os estabelecimentos comerciais que oferecem cultura são entrepostos (hubs, na linguagem da informática, com suas diversas entradas e saídas) que permitem a descoberta do novo, do inesperado, daquilo que nunca se imaginou. Sua importância, ainda mais numa cidade como Brasília e seu traçado higienizante (haja vista o que mostram os filmes de Adirley Queiroz como A cidade é uma só? e Branco sai, preto fica), não pode ser negligenciada. Numa tradução para o universo que sempre me foi mais familiar, eu diria que eles equivalem às livrarias. E eu me recordo de uma em particular, a Casa do Livro, que funcionou por muitos anos no Conic, em cujos papeis de embrulho se lia um verso certeiro e despreocupado de Drummond: “livraria: lugar de danação, lugar de descoberta”. O que seria de mim se não fosse esse lugar?

Sim: as bibliotecas existem, são vitais. Mas nelas há sempre de prevalecer o silêncio. E, mais, elas são lentas, estão quase sempre defasadas em relação ao que se publica. Penso que algo parecido se dá com os estabelecimentos que oferecem cultura na sua relação com os chamados “espaços culturais”, museus, teatros, palcos e salas de exposição, geridos direta ou indiretamente pelo poder público. Esses são muito importantes; mas, o que surge mesmo de novo – e a chance que alguém tem de dar de cara com o desconhecido que pode mudar a sua vida –, isso se encontra nos bares, praças, botecos, galerias, pistas de dança, ateliês e cafés de uma cidade.

P.S.: Acho que nem preciso dizer que a proposta de revisão da Lei do Silêncio não deixa de prever mecanismos de fiscalização e punição de emissões sonoras que efetivamente prejudiquem as pessoas no seu merecido descanso. A ciência – e a tecnologia dela derivada – será uma forte aliada quando se tratar de encontrar o ponto exato, no lar de cada um, em que isso começa.

P.S. 2: Está marcada para o dia 16/6, às 9 horas, na Câmara Legislativa do DF, uma audiência pública para a discussão dessa proposta, encampada pelo deputado distrital Ricardo Vale, e cujo número é PL 445/2015.

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Cães Errantes, de Tsai Ming-Liang

OLHAR PRO NADA E VER ALGO QUE DIZ TUDO

Desenha-se com nitidez nesta cidade, Brasília, uma “movida” tal como a que ocorreu na Madri do começo dos anos 1980, um tema, quem sabe, para um outro post. Só inicio assim este comentário sobre Cães errantes, filme em cartaz do cineasta malaio Tsai Ming-Liang, cuja retrospectiva tanto me impressionou há quatro anos atrás, porque uma animada mini-balada no mesmo bairro, onde misturava-se vinhos e rock anos ’80, fez com que eu chegasse com quatro minutos de atraso ao cinema. O palco de tudo? O majestoso e mítico Cine Brasília, cinema-jumbo que passou algumas décadas em crise de identidade, até que se reencontrou, recentemente, assumindo a cinefilia sem mais.

Quatro minutos: torço para que não tenham comprometido meu entendimento da obra – coisa que pode acontecer, mas, acho que não neste caso. Uma mulher vela longamente por duas crianças que dormem, tudo em silêncio, dentro de um cômodo apertado, com um fundo preto com fios brancos na vertical, lembrando aquela capa do disco Unknown pleasures, do grupo Joy Division. Podia ser um Gauguin. Pra quem já tinha lido a breve sinopse, entende-se ser a mãe, que, nesse instante, abandonava os dois rebentos, deixando-os aos cuidados do pai, na Taipei dos dias atuais.

Aos poucos vamos descobrindo, em tomadas extensas e de tremenda beleza plástica, o contexto desse abandono. O núcleo familiar restante habita um cubículo improvisado e meio escondido numa espécie de mangue da grande metrópole, em meio a jasmins-da-índia. Incursionam na cidade em busca da sobrevivência, comendo nas calçadas aquilo que o parco soldo que o pai ganha como homem-sanduíche (aqueles seres inacreditáveis dos grandes aglomerados urbanos atuais que servem exclusivamente como arrimo para placas de propaganda) consegue comprar. Banham-se em banheiros públicos e, no mais, os filhos, vagueiam por supermercados e arredores, enquanto que o pai purga a separação, o coração partido.

Não muito breve – mas, também, no devido momento, nesse filme que, como não poderia deixar de ser, trabalha o tempo (inclusive nosso, como espectadores, nos forçando a olhar sequências que podem parecer infinitas e em que “nada” acontece) – surge uma mulher, uma alma caridosa, mas também escaldada, que os resgata da espiral francamente descendente (numa cena que irá ficar gravada ad eternum na memória de quem se alimenta de cinema). Inspetora de qualidade do Carrefour por onde as crianças perambulam, trata-se igualmente de alguém largada no mundo, que habita uma casa que proporciona todos os confortos de um lar moderno, mas cujas paredes escuras e rachadas – é uma casa que já foi inundada, segundo ela revela a certa altura –, respeitadas em sua dor pela proprietária, podem ser lidas como resultado de uma força subjetiva, de uma espiritualidade tenaz, uma humanidade, que, não obstante, se equilibra, também, precariamente.

Essa é a trama, digamos, digna de um bom cinema francês. Poderíamos, quem sabe, a partir dela, resgatar um Os amantes da Pont-Neuf, de Leos Carax. Mas, não é ela, nem de longe, o principal. O que é, então, o principal? Seria a repetição da presença ubíqua da água e do vento – elementos climáticos com os quais esse cineasta sempre conta, assim como com o ator Lee Kang-Sheng?

Evidente que não. Cães errantes, creio eu, consolida esforços prévios e nos entrega algo deveras novo, uma obra-prima que não pode deixar de ser vista, ouvida, presenciada. Haverá, certamente, incômodo. Poder-se-á, em certos momentos, até se perguntar o que diabos se está fazendo ali, naquele cinema gigante, na companhia de vinte outros gatos pingados (que irão se transformando em meros quatro ao longo da projeção). O segredo é não olhar em volta, focar no que está na tela e começar a perceber que fronteiras são quebradas, em alguns diversos sentidos.

Primeiro deles, já bastante evidente na filmografia: o enquadramento e a fotografia, que tornam as cenas, muitas delas absolutamente estáticas, verdadeiros quadros, pinturas. Só que pinturas que respiram. São três as formas pelas quais isso é atingido. Por um lado, em tomadas de cima em diversas das cenas externas, fazendo com que um corriqueiro fundo em perspectiva, um céu ou o ar ou “luz” (gratuita), seja substituído por chão e por água e, consequentemente, cor (intenção). Em segundo, em cenas interiores, onde as paredes, como na casa da “heroína”, também contam uma história, têm vida. Por último, nos diversos planos em que os rostos dos personagens são filmados em close, os olhos, as narinas, a boca a indicarem o que acontece no que está imediatamente por trás.

E é precisamente nessas sequências, em que a câmera se posiciona a centímetros da face desses atores sublimes – eu diria, parafraseando a Welles, que Kang-Chen é o maior ator do mundo – onde uma outra fronteira se quebra: aquela entre cinema e teatro. Sim, porque esta é uma forma de cinema onde a ação está sempre em descompasso com a palavra, está sempre antes ou depois dela. Tome-se, por exemplo, o momento em que a heroína se dá conta da existência da garota, do fedor em seu cabelo, ao lado da gôndola de congelados do supermercado. A cena seguinte já é no banheiro, supervisionando-lhe um banho de torneira. Assim se resolve o problema da ação. Mas, como resolver o problema da emoção? Ora, só colando a câmera no rosto, ou, então, mantendo-a fixa dentro dos estreitos limites do cubículo onde a família vive/dorme – e onde o pai assassina, performaticamente, um repolho. E pra fazer isso você precisa de atores, com A maiúsculo.

O resultado disso é um mergulho na alma. A água, onipresente no cinema de Ming-Liang, agora é a que está (também) dentro dos personagens e que verte deles em lágrimas que recebemos como se fossem fruto do nosso próprio olhar. O mundo? Bem, esse está transformado em um que aceita que homens substituam postes, enfrentem a intempérie para que o frenesi dos transeuntes possa, em segundos, divisar alguma oferta. Assim sendo, talvez, tudo, nele, precise ser alterado. Inclusive, o seu cinema.

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Performance na Praça Portugal (PPPP nº 01/2015), por José Eduardo Garcia de Moraes

ENCONTRO COM UM SHIVA LOCAL

O convite veio por email, como de hábito, com algumas fotos, sempre tiradas a raso, mostrando detalhes de objetos carregados de simbologia, como se a performance já estivesse acontecendo no momento em que a foto foi tirada. Neste caso, tratava-se de fotos de uma palmeira cuja folhagem se abre em leque, do tronco escarpelado de uma outra, da alça rococó de um bule de chá, dos desenhos numa louça portuguesa com motivos marítimos, a exemplo dos de um pôster carregado em kitsch e em cores de um crepúsculo talvez tahitiano. O título, “Circos reais de Madrid e harpas de gárgulas, show de cavalos árabes e cavalos sírios, cavalos marinhos e peixes de água doce, espadas de prata e espelhos de magia”, trazia consigo já uma bela carga de elementos a decifrar e a expectativa da variedade. E o lugar, bem, o mesmo de sempre, a casa/laboratório a que o filho pródigo sempre retorna, incrustada entre embaixadas de peso e anexos ministeriais: a maternal Praça Portugal.

José Eduardo Garcia de Moraes, genial artista performer brasiliense lançara a convocatória, dera o sinal para que o seu séquito (e quem mais viesse, dentre o público convidado) aparecesse lá, num domingo, no final da tarde (18 horas). E lá ele estava, o séquito, eu incluído, pontualmente, para prestigiar o mestre, a respeito de quem já escrevi em duas outras ocasiões neste blog.

E, passados alguns minutos da hora marcada, chega ele no seu Honda Fit, sobe na calçada (em pedra portuguesa e desenhos espirais) da Praça, dá umas duas ou três voltas e pára, deixando que sua acompanhante desça e que todos ouçamos o jazz que verte lá de dentro. O carro permanece ligado e José Eduardo retira do seu porta-malas o primeiro dos utensílios com que iria, ao longo da próxima hora e meia ou mais, se relacionar, perante o nosso olhar sempre um pouco assustado: uma bola de pilates, só que no formato de cápsula, como se fosse um grande e quicante comprimido de algum remédio a ser ingerido por um dinossauro.

Infinitos outros objetos se seguiram. Quase todos utensílios – inclusive os de vestir e calçar, que ele trocava a cada entrada sua de volta no Honda, que não parou nunca de propagar a música de Dave Brubeck e outros desse filão musical. Cada um desses utensílios, contudo, apesar da carga de prosaísmo (rastelo, rodo, buzina e banco de bicicleta, caixa de ferramentas, bandeira nacional, as roupas, bandejas, pratos e vasos, azeites, águas, cigarros, conchas de servir sopa, banheira de dar banho em cachorro, coador de alimentos), era notório na sua juventude, alguns até portando a etiqueta com o preço ou ainda fechados dentro da embalagem, outros reluzindo, invariáveis, uma marca de prestígio no mundo do consumo (como o próprio carro – do qual todos os outros iam saindo, feito coelhos de uma cartola – ou as vestes esportivas).

A dança que o artista levou a cabo ao longo de todo o extenso período da performance consistiu em fazer com que esses objetos todos interagissem com outros de uma natureza inteiramente diversa – mas igualmente luxuosa –, com contornos de singularidade e origem distante (tanto espacial quanto temporalmente): um narguilé em vidro, uma vara idem, uma gargantilha e dois anéis de pérola, uma corrente de ouro, xícaras de porcelana fina, bolas cromadas, um globo pontiagudo, um par de sapatos basco, um calendário de museu judeu no exterior, os diversos pares de óculos no nariz. Enfim, tudo o que foi prometido no título foi cumprido e aqueles que nos demos o trabalho de acompanhar essa dança até o final saímos de lá como se tivéssemos acompanhado uma criança a brincar com valores de diversas ordens, jogando-os no ar e lhes dando, em seguida, uma recepção acalorada e celebrativa, como a dizer “saravá” pra cada um, para, em seguida, perfilá-los dentro de uma geometria espacial e muito precisa, tal como fizeram Lúcio Costa e Niemeyer.

Nada de destruição, explosões, quebras, desfraldes, como já se viu no passado em performances suas. Apenas, digamos que José Eduardo levou tudo isso – essas coisas todas – para um passeio no qual elas experimentaram o risco, viram seu valor quase – mas somente quase – lhes escapulir. Algo se verteu sim, pra não fugir ao passado performático próximo: duas garrafas de azeite e de água (Perrier, é claro), mas, no final, se houve alguém que saiu mudado, transformado, este foi o próprio artista (que saiu, inclusive, molhado); e nós espectadores.

Não sei se esse deva ser o papel de um mero fotógrafo (tenho um acordo mais ou menos tácito de lhe enviar as fotos que faço, o que já fiz, tendo lhe remetido as melhores, para que ele mesmo divulgue), quanto mais amigo (não conversamos, ainda, a esta altura, a respeito), mas vou me permitir especular que essa última performance de Garcia de Moraes tem a ver com o assustador crescimento que a cidade em que ambos moramos experimenta. Ao longo dos últimos anos, levas e mais levas de pessoas, das mais diversas procedências, aqui tem aportado e se multiplicado e, em consequência, pistas se engarrafam, lojas pipocam, cinemas lotam, piscinas transbordam, parques fervilham, problemas se acumulam, atritos ocorrem, vidas mudam, nós envelhecemos. Como compatibilizar passado com futuro, essa mudança toda? Uma dança ao mesmo tempo destruidora e criadora como a do deus indiano – ou a de José Eduardo – talvez seja a resposta.

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