Belém – Parte II (final)

A REBOQUE DE NOSSA SENHORA

O Círio finalmente chegou e eu estava razoavelmente preparado para ele. Havia estudado o seu percurso na muito útil publicação sobre Belém do Guia Quatro Rodas, bem como ouvido muitos relatos sobre o que esperar. Emoção, acima de tudo; e uma imagem da santa que, denominada Peregrina (porque a imagem original não sai da Basílica, a não ser para uma breve aparição  na praça que fica logo em frente), iria, a partir da sexta-feira, percorrer bons quilômetros, seja de carro, seja de navio, seja, finalmente, a pé, nos braços dos devotos.

Providenciei ingressos para alguns pontos que julguei estratégicos. No navio que iria até Icoaraci, no sábado de manhã, para buscar a santa, entrei relativamente cedo e consegui garantir um bom lugar, somente até que, o navio repleto e quase prestes a zarpar, chega uma senhora que, a cargo de um senhor idoso e com dificuldades de locomoção e articulação verbal, me pede para lhe ceder o lugar. O senhor era um devoto fiel, estava na cara, e eu não tive como negar. Talvez tenha sido esse o único momento de estresse nos oito dias que passei em Belém, mas ele logo foi contornado quando a família que estava ao lado concordou em se espremer um pouco para que eu pudesse de novo me firmar na borda lateral da embarcação.

À noite, na chamada Trasladação da santa, também uma família me acudiu, mas desta vez numa situação em que se tratava de entender um pouco melhor o que estava à minha frente. Avó (uma senhora de 94 anos), filha e neta tomaram assento logo abaixo de mim, na concorrida arquibancada no final da Av. Getúlio Vargas, e a mais jovem delas, uma professora universitária da área de enfermagem, também fiel devota, narrou, com orgulho, o passo-a-passo, seus olhos (e os das suas duas acompanhantes) tão ou mais atentos quanto os meus a tudo, apesar das inúmeras vezes em que havia visto a mesma evolução. A torcida, muito parecida com a de um jogo de futebol, era para que tudo saísse conforme o esperado, sem tumultos ou incidentes que pudessem comprometer a passagem.

A bonita enfermeira me explicou que a universidade onde trabalha havia treinado cerca de 5 mil dos seus alunos  para a ocasião. Eram eles que a cada instante zuniam pra lá e pra cá, carregando em macas pessoas que haviam passado mal. No dia seguinte, domingo, por ocasião da procissão do  Círio em si, quando a imagem da santa é conduzida no trajeto inverso ao da noite anterior, e já no nível da rua, eu mesmo pude sentir a sensação de ser espremido pela multidão. Por sorte, foram somente alguns segundos.

A festa toda ocorreu em paz. Assim como os estudantes socorristas, havia todo um contingente de gente dedicada a auxiliar os promesseiros no seu trajeto. Uma parte desse, inclusive, havia feito promessa, justamente, de realizar tal função, e muitos chegavam com caixas e mais caixas de copos de água mineral, que ofereciam aos que estavam envolvidos diretamente com a corda (que simbolicamente puxa o carro onde está a santa e que teria, segundo reza a lenda, num determinado momento e a certa altura do trajeto, ficado atolado). A água desses copos também era despejada em cima de todos, aliviando o sufoco do calor e se misturando ao suor coletivo.

Alguma interferência do poder público nisso tudo? Não a notei. Eis o que mais surpreende, talvez. “Pra tudo há um jeito”, foi o que me disse o chefe de família que me cedeu parte do posto de observação que eu havia perdido no barco, como que a me tirar de um atoleiro fotográfico e pessoal.

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Belém – Parte I

UMA MÃE FAZ FALTA

Por que Belém? Eis a pergunta que me foi feita algumas vezes por interlocutores locais. Alguma coisa a ver com o Círio de Nazaré, que iria acontecer naquele fim de semana, ou simplesmente era coincidência eu estar por lá por ocasião dessa festa impressionante? Eu tentava responder, mas a cada hora saia uma coisa diferente, talvez conforme o interlocutor, talvez porque nem eu mesmo sabia direito qual era o motivo: porque é uma das poucas capitais que eu ainda não conhecia, porque se trata de um polo reconhecidamente de excelência na fotografia (e o “visual” da cidade poderia teria um papel na geração dessa excelência), porque Foucault esteve por lá e se encantou, porque a comida de lá é considerada a melhor do Brasil, porque lá moram dois amigos que eu tenho em alta conta e queria conhecer melhor, porque tem o mercado mais famoso, porque lá chove todo dia, porque isso, porque aquilo.

A questão é que tendo lá ficado por pouco mais de uma semana e ao voltar ao meu cotidiano dei-me conta que estive na mais suave das cidades. Sim o calor é grande, era pra que todos enlouquecessem, mas eis que a chuva cai aliviando o bafo e eis que o vento sopra, vindo do rio. É um primeiro equilíbrio, natural ou, talvez, divino.

Depois, tem um povo que, além de bonito fisicamente, tem um brio que se justifica, pois há esmero em tudo o que se faz, indo da comida (de fato maravilhosa e muito variada) à arte que por lá é feita (acontecia o festival Arte Pará, de enorme envergadura), passando, é obvio, pela própria festa, que reúne, todo ano, mais de dois milhões de pessoas, sem que se registrem óbitos ou incidentes de maior gravidade. Há, também, agência, engenho, o que fica logo evidente na primeira volta dada no Ver-o-Peso e seus arredores: não topei com um pedinte sequer em todas as minhas andanças.

Há um responsável por isso, por essa suavidade? Por certo que sim, diriam quase todos os belenenses a quem fosse feita uma tal pergunta: a Nossa Senhora, a Virgem de Nazaré. Eu, quase me convenço disso e meio que lamento não ter conhecido Belém há mais tempo. Talvez, se isso tivesse acontecido, teria eu dado mais atenção, nas aulas de sociologia, ao Durkheim do que ao Foucault.


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46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro – parte II

POR UM CINEMA DE ALIANÇA (OU DE VAIDADES AO CONTRÁRIO)

Vamos ao segundo aspecto que me chamou a atenção nessa edição do FBCB, talvez o mais decisivo e promissor: o abandono da pretensão de se apresentar diferente do que cotidianamente se é. O rosto sem maquiagem: eis uma novidade e uma verdadeira libertação que vi acontecer em diversos filmes, que passo a relacionar.

Na Mostra Brasília, de filmes locais, que acompanhei inteira, em dois longas, ambos documentários: Cidadão Brazza, de Peterson Paim e T-Bone açougue cultural, de Alison Machado. Ambos tratam de dois heróis culturais desta capital, cidadãos que, despossuídos de recursos e de instrução, ainda assim, com o fruto de seu suor e de sua obstinação, chegaram a um estrelato, a um reconhecimento generalizado (não só local) do valor dos seus esforços em prol das artes e da cultura.

Afonso Brazza (já falecido) e Luís Amorim, retratados respectivamente nesses filmes, não são homens comuns (como poderiam querer alguns): são lutadores que se enfileiram a um conjunto de outros – também cineastas e agitadores culturais locais – sem que ninguém tenha lhes dado uma credencial para tal. Ou seja: inteiramente a seu modo, inventando-se passo após passo. Os filmes do primeiro, tanto quanto os eventos do segundo, irradiados a partir do seu inusitado açougue localizado na 312 Norte, e as estantes de livros que a sua equipe mantém em diversas paradas de ônibus da cidade, são acontecimentos nossos que tudo, até o presente, tem contribuído para que queiramos esconder; são, em certo sentido, nossas vergonhas, a mais íntima versão daquilo que culturalmente somos, quando não há ninguém por perto – e basta que o de fora saia para que nos entreguemos com o maior prazer, a maior facilidade, à hilaridade fortuita e à bizarrice cívica em que ambos nos fazem mergulhar.

No plano nacional, já mencionei, no post anterior a este, o impacto que O mestre e o Divino causou em mim – e não só em mim, mas no júri oficial que o elegeu como melhor longa documentário. Adalbert Heide, o missionário dono do penteado mais hype do festival, do gosto musical mais coerente (Menudo) e da escolha de vida mais vertiginosa (ele se transformou, como diz de si próprio e em conformidade com as imagens que seus filmes revelam, num factótum, o que tudo faz), me foi descrito por um dos produtores desse filme, quando lhe comentei a respeito do seu penteado, como alguém que carrega consigo uma “vaidade às avessas”. Acho que isso diz tudo; e o que chega direto do filme para as nossas retinas, e se infiltra neurônios e coração adentro, é a imensa gama de possibilidades que existe para a felicidade que decorre do encontro – e do quanto nos permitimos a que essa mecânica simples, mas verdadeira, esteja acima de qualquer outra mera promessa de felicidade.

A receita para uma felicidade, ou o que dá para se arrancar dela desta vida vibrátil e incerta, também se encontra em dois outros filmes dentre os selecionados para concorrer a curta documentário. O carioca Luna e Cinara, de Clara Linhart e o paranaense A que deve a honra desta ilustre visita este simples marquês?, de Rafael Urban e Terrence Keller, também nos lançam em meio a encontros: de uma dona de casa de classe média alta, já idosa, com a sua empregada; de um colecionador compulsivo, com trágica história de vida – contada, entretanto, dentro do maior beletrismo –,  com o mundo da escrita e da pintura. A dona de casa, a letrada Luna, tem a empregada, Cinara, como companheira de sessões de cinema e de saídas vespertinas a sorveterias, um “plus” que não a impede de se lamentar para a câmera, com alguma vergonha, da situação a que a solidão a forçou, mas só rapidamente, enquanto a companheira dá um pulo ao banheiro da lanchonete. O também idoso “marquês”, por seu turno, ao exibir sua portentosa coleção de revistas, não deixa de destacar como atração principal as Playboy brasileira e americana quase completas. A sobrevivência, às vezes, só é possível quando se concede alguma voz ao que está imediatamente disponível.

Algo assim também se depreende do único longa de ficção que (quase) vi por inteiro (dado o meu já referido cansaço quando da exibição desse gênero de concorrentes): Amor, plástico e barulho, da pernambucana Renata Pinheiro, que retrata o mundo árido dos cantores e cantoras do gênero musical conhecido como Brega. E o registro disso tudo acima, por parte do cinema, creio, é algo de diferente, comparável ao que nos conta uma particular leitura da história de uma outra modalidade da arte no Brasil.

Lorenzo Mammì, um gigante da crítica, nos fala, num artigo seu sobre a pintura de Paulo Pasta, que começa com uma digressão  a respeito da pintura no Brasil – na coletânea de ensaios intitulada O que resta: arte e crítica de arte[1] –, sobre a pintura como um fato social, onde visões (mais do que objetos) são construídas: “reconhecer o mundo na pintura e vice-versa, demanda um código comum, não apenas entre autor e espectador, mas também entre estes e o mundo.” (p. 187). E eis que na história do caso brasileiro desse “fato”, ele detecta, tradicionalmente, uma maior presença da “contaminação”, do que da “aliança”: “Até na Arcádia de Cláudio Manoel da Costa, os pastores lamentam os rios poluídos pela mineração. Há um maldisfarçado senso de culpa, e não apenas um limite técnico, nos tetos das igrejas coloniais que teimam em denunciar um trompe-l’oeil, como há uma rigidez teatral da pintura cerimonial profana – de Debret, passando por Pedro Américo, até Portinari, tudo está armado como um cenário de papier marché pronto para ser desmontado, deixando aparecer, atrás dele, uma natureza intocada e adamítica. Nesse contexto, um diálogo verdadeiro com os objetos só é possível na projeção utópica ou na notação familiar da crônica.” (p. 188)

Daí se explicam, segue Mammì, a pintura de gênero, bem como a de Volpi e Guignard, Dacosta e Leontina, todos puxando, cada qual à sua maneira, para a crônica, enquanto que “a fuga para frente do modernismo encontra expressão natural na imaterialidade do desenho, que é por natureza projetivo” (Tarsila, Lúcio Costa). Contudo – e eis o ponto ao qual quero chegar – “pintura é encarnação, e para isso é necessário que haja uma queda, algo a lamentar. A história gera identidade pelo luto comum. Só quando, no fim da década de 1950, a utopia da modernização indolor começa a se desfazer, e com ela a confiança na boa forma concretista, é que aparecem os carretéis de Iberê Camargo. São os primeiros objetos da pintura brasileira que não estão à mão: estão perdidos de forma irreversível, embora sejam intensamente íntimos.” (Idem)


[1] São Paulo, Companhia das Letras, 2012.

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46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro – parte I

OS TURBANTES TAMBÉM SÃO BRASILEIROS

Termina amanhã o 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, quando serão anunciadas as premiações. Hoje à noite ainda haverá a exibição dos últimos filmes, tanto de documentário quanto de ficção, além da Mostra Brasília, que ocorre à tarde. Creio que é um bom momento para uma avaliação. Descubro que sou um ser tendente a encontrar tônicas, correspondências, movimentos inarticulados, mas ainda assim subterrâneos (herança foucaultiana?): foi assim o ano passado, com a presença forte da subjetividade; e está sendo assim, este ano, quando dois elementos me chamam a atenção, dentro do que tenho visto até o momento.

Advirto, antes de mais nada, que tenho feito um esforço, mas não tenho conseguido acompanhar direito a parte ficcional da mostra competitiva nacional. Ela começa de noite, às 21 horas, e a essa altura, depois de ter, por envolvimento profissional e interesse, visto todos os filmes da Mostra Brasília, bem como a maioria dos documentários da mostra nacional, vejo-me tomado por um certo cansaço físico e mental. Se der, hoje ainda quero ver os longas de ficção do Paulo Sacramento (Riocorrente, em reprise) e da Paula Gaitán (Exilados do vulcão), mas vamos ver até onde aguento.

A primeira tônica que salta aos meus olhos, muito no universo do documentário, diz respeito a uma reconfiguração de onde o Brasil, o grande e eterno personagem desse festival, acontece. Trata-se da cidade? Trata-se do campo? Sim, essas são constantes de toda equação possível a unir cinema e sociologia (e a sua prima pouco badalada, a demografia), mas não: esse binômio chato parece estar prestes a ser substituído pelo percepção de que o Brasil também está do lado de fora de suas fronteiras, de que há um Brasil rico, emocionante, acontecendo – e tendo acontecido – na interação global em que estamos todos mergulhados.

Meu filme favorito, até o momento, é O mestre e o Divino, de Tiago Campos, jovem documentarista de Pernambuco vinculado ao projeto Vídeo nas Aldeias. Trata da relação entre um missionário salesiano alemão, Adalbert Heide, que se estabeleceu em Nova Xavantina, Mato Grosso, ainda nos anos 1950, e um jovem índio xavante que foi seu aluno e que, tal qual o mestre, cultiva uma paixão pelo registro documental, cinematográfico, da vida do seu povo – que acaba sendo o mesmo povo do missionário, já que os Xavante, ao longo do tempo, o adotaram, o batizaram e o entronizaram enquanto cacique. O que foi que o trouxe ao Brasil, é a pergunta que é feita ao agora já idoso, mas não menos vivaz, missionário.

Um sonho, de algo muito distante e diverso: aos poucos, pelos detalhes, vamos conhecendo o espírito franco e singelo, mas também desvairado desse homem corpulento, que guarda seu tesouro cinematográfico com especial zelo e que não tem vergonha alguma de absolutamente nada, a começar do seu penteado, num estilo que aproveita o comprimento dos poucos cabelos restantes para circundar, com gumex, a careca, formando uma espécie de ralo  e lambido turbante, composição que não escapa ao olhar respeitoso mas quase atônito – face ao exotismo de tudo – de Campos.

Mas não é unicamente esse ser errante – ou seria acertante? – que se desvenda diametralmente nesse documentário: é também o seu discípulo, de nome Divino Tserewahú. Hoje reconhecido cineasta indígena e funcionário de um museu em Campo Grande, seu drama identitário, perpassado pelo elemento teológico que o “mestre” também lhe incutiu (era essa, afinal de contas, a sua missão), é o segundo eixo sobre o qual se move esse filme. Em um de seus depoimentos, ele reconhece, de modo individual e coletivo, a importância que o aprendizado das coisas brancas, por intermédio do mestre missionário, teve para o seu atual “ser alguém”.  Mas, quando se trata de dizer precisamente que ser é esse, eis que não é a palavra “brasileiro” que surge, mas sim “ameríndio” – o que descentra tudo, até mesmo a percepção inicial do missionário, que veio ao encontro de “índios brasileiros”.

E digamos que esse rápido, sutil deslocamento a nos descentrar do solo em que acreditávamos estar firmemente assentados é algo que aparece em uma série de outros filmes vistos nessa edição do FBCB. De início, o encontramos no filme que o abriu, o documentário de Betse de Paula sobre o fotografo Sebastião Salgado, Revelando Sebastião Salgado. Quem é esse super fotógrafo que tanto orgulho nos dá? Certamente: um mineiro/capixaba, um ser do Vale do Rio Doce, que se deparou, ainda jovem, com uma ditadura nada bonita (e se exilou); mas é também um ser cujo neto fala em francês com seu pai e um cidadão do mundo que, em casa, nada mineiramente, interrompe a visita que recebe para lhe apontar a sujeira que seus sapatos estão trazendo para dentro do seu lar, tão custosamente mantido asseado – o filme também mostra, a esse respeito, a época de penúria financeira que ele, a mulher e os filhos enfrentaram no começo da carreira, quando moravam num espaço diminuto.

O deslocamento também ocorre no belo documentário etnográfico Hereros Angola, de Sérgio Guerra. Focando os pastores transumantes de uma parte desértica de Angola, esse filme é um verdadeiro show documental. Todo narrado em língua nativa, atinge um ponto de excelência no cinema etnográfico, em que toda insinuação subjetiva, todo resquício de uma autoria – e, consequentemente, de uma brasilidade – é simplesmente inexistente, a intimidade dos nativos com a câmera, conseguida certamente após anos de proximidade etnográfica, contribuindo sobremaneira para tal. Os mais variados aspectos da vida desse povo são abordados, a tal ponto de fazer com que o espectador não se espante mais, a certa altura, com os costumes (e vestimentas) os mais esdrúxulos, percebendo a sua lógica e passando a se dar conta da própria aleatoriedade de sua vida e dos costumes da sua cultura.

Por último, nesse primeiro quesito,  um outro surpreendente documentário, Outro sertão, das capixabas Adriana Jacobsen e Soraia Vilela, que foca o trabalho do escritor João Guimarães Rosa como vice-cônsul – diplomata de carreira que era – em Hamburgo, na Alemanha, no período de ascensão e vigência do nazismo. Nessa ocasião, Rosa teve papel decisivo para que diversas famílias judias obtivessem um visto que lhes permitiu fugir do horror, desembarcando no Brasil. Um trabalho humanitário, não muito distante daquele que recentemente vimos ter lugar na vizinha Bolívia, também protagonizado por um diplomata brasileiro, exemplo de um Brasil que, como a literatura de Rosa, pode ser verdadeiramente grande, universal pra todos os efeitos, fazendo forte diferença.

Deixo o segundo traço, por mim identificado, para o próximo post, a fim de não  fatigá-los – perigo real existente no mundo das ideias contidas nas imagens em sequência, tal como comprova essa minha experiência nesta edição do Festival.

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Quermesse no templo budista e seus arredores

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Hannah Arendt, de Margarethe von Trotta

A CORAGEM QUE A FILOSOFIA REQUER

Margarethe von Trotta está com novo filme na praça, Hannah Arendt, reconstituição de um episódio, central, da vida dessa filósofa alemã judia que viveu exilada nos Estados Unidos, depois de ter conseguido escapar ao terror nazista. Não é novidade, na filmografia dessa cineasta alemã, tratar do assunto de mulheres que exercem o pensamento e, em decorrência, a política, haja vista os (bem) anteriores Rosa Luxemburgo e Anos de chumbo. Von Trotta, uma cineasta com relativamente poucos títulos na sua extensa carreira, se encontra precisamente nesse cruzamento, introduzindo no cinema político – esse no qual se enfileiram contemporâneos seus, tais como Marco Bellochio, Costa-Gavras, Liliana Cavani, Gillo Pontecorvo, Andrzej Wajda, Istvan Szabó e até mesmo Bernardo Bertolucci e, mais recentemente, Ken Loach e Régis Wargnier – a plena carga do feminino.

O filme foca a cobertura que Arendt fez do julgamento de Adolph Eichmann, ex oficial nazista que, uma vez capturado pelo serviço secreto de Israel, foi levado a júri em Jerusalém, no ano de 1961. A cobertura foi feita a partir de uma sugestão dessa filósofa à prestigiada revista The New Yorker, quando ela já era uma renomada scholar que dava aulas na New School for Social Research, na cidade de Nova Iorque. Acabou virando o livro Eichmann em Jerusalém, mas antes foi publicada em partes, nessa revista. Foi um escândalo, tendo em vista que Arendt não partiu, como muitos esperavam, para uma aprovação imediata da condenação (que, de fato, acabou acontecendo) máxima de Eichmann, mas fez desse importante episódio um trampolim para levantar a questão do mal no mundo contemporâneo, um mal que, na sua visão, estava ligado ao abandono, por parte da humanidade, da capacidade que o homem possui de pensar.

Em outras palavras, Arendt se deu o trabalho de ouvir os argumentos desse oficial nazista perante os seus acusadores: nessa ocasião, ele alegou que teria simplesmente seguido ordens superiores. Quando todos, e principalmente as vítimas do terror nazista – e inclusive pessoas com quem Arendt mantinha vínculos de profunda amizade – se negavam a dar ouvidos àquele que viam como um mentiroso, ela achou que deveria ser dado um voto de confiança ao que ele estava dizendo. Ela viu que isso seria uma oportunidade para entender o quê tinha levado a humanidade a tal ponto de horror, pois disso talvez se conseguisse extrair o antídoto necessário para que esse ponto jamais voltasse a ser alcançado.

Em outras palavras, a condenação surda de Eichmann, à qual todos esperavam que ela se somasse, teria impedido que se olhasse para a experiência do nazismo como algo que se encontra muito mais próximo do que se quer acreditar. A recusa ao pensamento, como decorrência da própria engrenagem que conforma a vida moderna, com suas metas de produtividade postas em destaque, com sua ênfase na performance e sua confiança inconsútil na capacidade do conhecimento, eis aí uma condição que não é propriamente uma exclusividade do nazismo. A banalidade do mal, tese que Arendt levantou e que lhe serviu para resumir esse período de horrores do qual ainda se saía em 1961, é uma configuração bem menos distante do que parece, sendo a eventual consequência de todos os momentos em que se acredita que não vale a pena “queimar neurônios” com algo.

Eu tenho pra mim que o  grande mérito desse comovente filme é o fato de ele tocar no cerne da questão de, afinal, para quê serve a filosofia?

Arendt nunca foi, na minha trajetória filosófica, um santo de inteira devoção. Digamos que tenha tido para com ela, até hoje, um respeito cordial, como esse que se tem com vizinhos que levam seus cachorros a passear e nos cumprimentam quando passam, mas que não se sabe o quê esperar na hora da reunião de condomínio. Discípula (e amante, na juventude) de Heidegger, esse outro gigante filosófico que aparece no filme como uma espécie de demiurgo – que, não obstante, sucumbiu ante a força nazista (teria pensado tanto e a tal extremo que, talvez, não tivesse tido fôlego o suficiente para fazê-lo no que diz respeito a política que o cercava?) –, ela sempre me pareceu se mover numa esfera um pouco mais idealista do que aquela que eu estava disposto a foucaultianamente aceitar – ainda que fosse uma pensadora que, qual Foucault, tivesse a política como o cerne do seu exercício profissional (e espiritual) diário.

O filme de von Trotta, contudo, me conduz a crer que Arendt poderia estar muito mais próxima do entendimento que a convivência com Foucault me levou a crer ser o correto quando o assunto é filosofia. Em ambos se encontra uma mesma defesa do ser humano como um ser que pensa. Não se trata, como é dito em algum momento do filme, de uma virtualidade ou de um projeto a ser perseguido e conquistado, de um caminho a ser trilhado em detrimento de outros: simplesmente, é uma condição inata, talvez uma condenação, algo de que o ser humano não consegue escapar, a não ser por força de um muito bem desenhado e dispendioso esquema em sentido contrário.

A filosofia, tal qual a definiu Foucault, não é uma forma de busca da verdade, mas uma forma de buscar que tipo de relação queremos ter para com ela. Isso implica uma coragem que é precisamente aquela que o filme de von Trotta retrata no que diz respeito a Hannah Arendt: a de ser capaz de sair de dentro da voragem da verdade e de levantar a questão sobre aonde essa nos irá conduzir. Nem sempre, como outro pensador político até a medula – Maquiavel – já sabia, é ao melhor lugar.

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Somos Tão Jovens, de Antônio Carlos da Fontoura

UM PASSO GIGANTESCO E LIMÍTROFE

Acabo de ver o filme Somos tão jovens, de Antônio Carlos da Fontoura, que conta, numa abordagem ficcional, uma parte da trajetória do cantor e compositor brasiliense Renato Russo, tal qual narrada pelas pessoas que lhe foram mais próximas. Trata-se de um must para todos os que, como eu, tiveram algum envolvimento com a cidade em que o que se vê na tela ocorreu: a Brasília anos ’80, quando inúmeras bandas de rock despontaram, fazendo um barulho apocalíptico e necessário, entre os espaços vazios – que assim continuam, só que um pouco mais cheios de gente e, principalmente, de carros –, e a ditadura militar – que estava nos seus estertores.

Tenho a notícia de que um livro foi lançado contando a mesma história, não sei se agora, simultaneamente ao filme; e tampouco saberia dizer se esse livro serviu de inspiração a Fontoura, ou se ocorreu o contrário – tendo o livro embarcado na ideia do cineasta. O que sei, com certeza, é que o que se vê ao longo de Somos tão jovens é o resultado da aproximação de maior alcance que jamais foi feita, e que provavelmente jamais virá a ser, ao coração desse fenômeno que foi Renato Russo e o universo que o cercou.

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Sou amigo de Carmen Manfredini, irmã de Renato, e de alguns dos outros personagens que também aparecem no filme e já conhecia muitas das histórias que nele são narradas: sei que foram colhidas junto a quem as viveu, que as frases que são ditas correspondem ao que realmente aconteceu – sempre freudianamente levando em conta, é claro, que toda reconstrução do passado é, na verdade, uma construção. Tendo conhecido pessoalmente esse artista, eu mesmo teria algo, ainda que mínimo, a acrescentar a esse rol, uma ou duas histórias que evidentemente não se distanciam do retrato, vivo, sincero e fiel – e bota fiel nisso, pois o ator que vive o papel de Renato, Thiago Mendonça, está simplesmente idêntico ao original, trejeitos e tudo – que foi feito nessa película.

Mas creio que esse filme merece ser visto por todo tipo de pessoa. Creio que os mais velhos têm que vê-lo, assim como os mais jovens. Por que motivo? Para mostrar aos mais novos uma Brasília pretérita em que os jovens, sem muitas perguntas, tomavam emprestado dos blocos onde moravam a energia elétrica na qual ligavam seus instrumentos e faziam shows bem no meio das superquadras? Para selar, pros mais velhos, com o selo da história, com “h” maiúsculo, aquilo que já lhes pareceu ser, quando ocorreu, apenas uma barulheira insuportável? Talvez.

Mas não. Somos tão jovens me parece ser uma reflexão sobre o que acontece quando se reúnem certas condições. Tem um quê de aula de química, quando nos são apresentados todos aqueles elementos e nos é mostrado que certas misturas desses provocam certas reações. No caso, de que elementos estaríamos falando? E qual a reação gerada? Comecemos pela última, exposta sucintamente no final do filme: milhões de cópias de discos vendidas ao longo do tempo.

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E os elementos? Bem, em primeiro lugar um poeta de verdade, um ser cuja sensibilidade se casou de forma feliz com o universo da palavra; e cuja coragem  e inteligência o levaram a procurar os instrumentos com os quais dar vazão, cust(ass)e o que custar, ao que resulta desse encontro. Em segundo lugar, uma família que, com tudo o que de tortuoso sempre irrompe nesse universo, deu apoio a esse ser estranho, disposto a ser músico de rock, quando o que se sonhava era que fosse diplomata e escutasse Bach. Em terceiro, os amigos, seres cuja procura não se distanciava da dele, uns ajudando aos outros nos desencontros em série que são a vida dos filhos de diplomatas, militares e burocratas de alto escalão, ninguém tendo muito bem “aonde ir”, depois de já ter ido a quase todos os lugares. Em quarto, um gênero musical, o punk rock, que aprofundava, levando-a à extrema concentração minimalista, a energia nascida com o rockn’roll. Por último, é claro, a ditadura e seus absurdos, mas já afrouxando a corda com que asfixiou a sociedade durante tanto tempo – 21 anos como nos lembra um outro filme em cartaz.

Há pouco tempo foi feito, pelo mestre do documentário Vladimir Carvalho, um filme que aborda o fenômeno do rock de Brasília dos anos ’80, intitulado Rock BrasíliaEra de Ouro. A maioria dos personagens que aparecem no filme de Fontoura, nesse outro, são entrevistados na atualidade e rememoram e reinterpretam, à sua maneira, os fatos acontecidos. É um belo filme, em que pinceladas panorâmicas do turbilhão ocorrido, nos anos ’80, no laboratório social em que vivemos aqui no Planalto Central, são oferecidas, em que uma aproximação ocorre. Agora, com essa abordagem ficcional dessa mesma realidade “documental”, temos, mais do que um panorama, uma gostosa e integral reprodução dessa experiência química passada; uma reprodução que, como toda experiência que se preze, não está livre de nos chamuscar.

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NYC (parte final)

PROPÓSITOS E PRINCÍPIOS

Ao todo, Nova York me acolheu por uma semana. Não fui no Queens, nem no Brooklyn, fiquei mais no miolo das ruas e avenidas que se cruzam ao sul do Central Park. Frequentei os principais museus de arte, algumas galerias de Tribeca e Soho, o Centro Internacional de Fotografia; e comi muito bem, evitando os fast foods que são uma marca não só nova-iorquina, mas norte-americana – se bem que teria adorado comer um hot-dog de rua, ou um dos apetitosos kebabs para os quais se faz fila, mas a minha intolerância ao glúten não permitiu que me desse esse luxo. As delicatessens da cidade também são coisa de deixar qualquer guloso como eu maluco. A comida é certamente algo que te faz estabelecer uma relação de carinho, ou, ao menos, de maior proximidade com um lugar.

Contudo, eu estava em Nova York com um propósito fotográfico. Estava a fim, também, de ver fotografia. E posso dizer que fiz duas descobertas. A primeira, de um fotógrafo que, tendo fotografado, nas décadas de 1960 e 1970, a América e, em especial, Nova York, se somou ao meu panteão, onde já constavam William Klein, Diane Arbus, Bruce Davidson, Cartier-Bresson, Miguel Rio Branco, Cláudio Edinger e outros: Garry Winogrand. Dos diversos livros que folheei na incrivelmente rica e compacta livraria do Centro Internacional de Fotografia, o seu foi o que mais me impactou, um trabalho clássico em P&B, dono de imenso humor e total devoção ao espírito das ruas.

O outro trabalho que me tocou muito foi o de William Eggleston, exposto no Metropolitan. A ideia de que se pode aplicar àquilo que se fotografa o princípio democrático mexeu comigo: tudo é interessante, ou pode sê-lo, inclusive um velocípede à espera ingrata do seu condutor ausente – ou uma marquise a dividir elegantemente o que se move na horizontal daquilo que se ergue em réplica rumo ao céu. Outro dado interessante a respeito desse artista: ele só fotografa algo um única vez. Nunca faz mais de uma foto de um mesmo objeto, pessoa ou situação. É alguém que tem um protocolo, cuja aplicação resulta em algo significativo – e totalmente na contramão do furor reprodutivo de que a fotografia tende a – talvez desde o seu berço enquanto técnica – se revestir.

Por último, é bem possível que tudo o que vi de pintura contemporânea, de escultura e de instalações tenha mantido acesas em mim questões sobre o estado atual do discurso fotográfico, tema sobre o qual tenho lido ultimamente. A ideia da morte do famoso punctum barthesiano, tal como ocorre na fotografia de Jeff Wall, por exemplo, em que se adota o princípio compositivo do all over; algo assim ocorreu-me quando pisei, a certa altura, no Times Square.

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NYC (Parte II)

REMANDO NUM MAR DE BYTS

Nova York é uma cidade cujo ritmo eu custei a pegar: muito acelerado. Creio que, por um lado, por conta das telecomunicações, em especial a internet. Todo mundo anda conectado o tempo todo. Há sempre algo ocorrendo, mais além, num outro sistema nervoso. Difícil para a fotografia de rua, pois nela, o fotógrafo se oferece como um aceno do mundo não presente. Pois bem, esse mundo distante está, agora, com a rede mundial, sempre à disposição, na palma da mão de cada um e aí…, eu diria que o fotógrafo fica pra escanteio.

Mas também tem o fato de que essa cidade é um grande polo de compra de produtos por parte das dezenas de milhares de turistas que lá aportam diariamente. São pessoas que correm pra lá e cá, meio que freneticamente, no empenho de fazer o melhor negócio. Em suma, o que se tem é um cenário eletrizante, em que captar expressões, estabelecer pontes mediadas por uma lente, se torna tarefa complicada.

Para ilustrar o que digo, por meio do uso de um contraponto, remeto a uma das exposições que tive a oportunidade de ver, muito concorrida, em cartaz no Metropolitan Museum of Art. Foi uma justamente intitulada “Streets” e consistia na exibição de uma filmagem, feita a partir de um carro em movimento e numa ultra câmera lenta de alta definição, daquilo que ocorria contiguamente, com as pessoas, nas calçadas das ruas de Nova York. O artifício para que a contemplação do universo da rua – o resultado final de uma street photography, bem como o desse trabalho – venha a ocorrer, parece que tem que ser, hoje, outro, onde o movimento contínuo do fotógrafo também se dê, em conjunto com o seu estar num “além” quase invisível.

Mas tal aparato, por seu turno, tão robusto, impede o fotógrafo, de se adaptar a essa nova condição e o impede também de entrar nos lugares, de abrir portas a fim de checar o que acontece lá dentro, nesses templos do consumo. Como tudo é feito a partir do carro, também o movimento vertical do olhar se limita, o horizontal se torna  o plano monocórdico, o que está acima e o que está abaixo deixa de existir: uma perda e tanto.

Os cliques do fotógrafo convencional, nessas condições, têm que ser quase a queima-roupa, e tão rápidos no levantar e abaixar a câmera como para deixar a dúvida no ar sobre se, de fato, se tirou ou não uma foto. Caso contrário, quanto tempo seria necessário para explicar o por que, para que, para onde é que vai essa imagem no circuito que está logo ali, prestes a tuitar ou vibrar ou se acender no bolso ou bolsa de todos? Novaiorquinos são rápidos também no quesito escândalo em público, não demoram, percebi, em passar da mais gelada indiferença ao mais íntimo do palavreado ofensivo. Coisa, talvez, de quem está operando mais de um sistema nervoso ao mesmo tempo.

O Central Park é, nesse quadro hiperestésico, de fundamental importância, assim como alguns dos vários squares, o harbour também. Mas o Park… nele tudo se desacelera. Ilha dentro da ilha, fornece a esse todo o equilíbrio sem o qual, lá, tenho a impressão, mal se respiraria – e isso nada tendo a ver com fotossíntese.

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NYC (Parte I)

O INVERSO DA CONCRETOFAGIA

Recentemente, tive a honra de constar, enquanto fotógrafo (e em meio a outros quatro artistas), do trabalho de final de curso de uma jovem fotojornalista, Mariana Costa, que abordou o tema dos novos olhares sobre Brasília. Ela partiu da exposição que realizei em 2012 no TJDFT (Tribunal de Justiça do DF) , à qual dei o título de “Concretofagia – os eixos ao sabor do desejo” (http://www.flickr.com/photos/andresribarra/sets/72157629482988540/). Mariana me entrevistou para esse trabalho, fez uma análise daquilo que tenho feito nessa área ao longo dos últimos onze anos, eu fui na sua defesa de monografia, ouvi seus argumentos, os argumentos da sua banca, da sua orientadora, uma experiência muito gratificante, em suma.

O debate foi rico, Mariana foi questionada de forma muito franca (a única que considero válida) a respeito do uso que fez (eu, pra dizer a verdade, não li seu trabalho, já que ainda não tive acesso a ele) das noções de “verdade” e de “novo”; e soube se defender, a meu ver, mostrando que seu trabalho procurava evidenciar que um novo “regime de verdade” talvez esteja em vigor no que diz respeito à iconografia sobre a cidade – isso tudo sobre o pressuposto de que a fotografia, por mais arte que seja ou se proponha a ser, nunca se desvencilha por completo da marca do documental. Também teve que se explicar quanto à afirmação – da qual me senti quase inteiramente responsável, já que seguramente devo ter dito isso na entrevista – de que Brasília é uma cidade “feita para carros”. Essa afirmação, está de tal forma atrelada à proposta de “Concretofagia…”, que a sua contra-arguição, eu praticamente a senti como uma rejeição do meu trabalho: se a ideia foi a de mostrar que uma street photography  é ainda possível numa cidade onde não há ruas e sim “vias”, “setores”, “conjuntos” e “quadras” (mas há, ainda, pessoas e o seu desejo), vem a reboque, naturalmente, a pergunta sobre para quem exatamente foi feita essa cidade – e os carros não são lá um resposta tão ruim assim[1].

Essas questões todas, por sua vez, foram as que me acompanharam na recente visita que fiz à cidade de Nova York. Sim, havia a desculpa de conhecer a cidade de Ithaca, a cinco horas da Big Apple, onde vive a minha irmã – e onde passei um fim de semana –, um velho desejo até então irrealizado. Mas, também, a necessidade de pisar num solo não tão ruinoso, de testar o inverso da proposta de “Concretofagia…”, agora tornada – para a minha alegria e graças ao trabalho de Mariana – explícita: a possibilidade de uma street photography, nos dias de hoje, numa cidade, talvez a cidade por excelência, das streets.

Tudo começa, é claro, pelas grandes estruturas, por um lento ajuste da câmera, esse objeto que necessita ser erguido, ao olho, esse órgão cuja função pode nos levar a questões tão inesperadas como as postas acima. Por um gradual afastamento dos traços e temas que, respectivamente, a luz e a história incrustam na alma, na medida em que com eles nos deparamos cotidianamente.

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PS.: os outros artistas que constam do trabalho de Mariana Costa são Ivaldo Cavalcante, Leonardo Wen, Usha Velasco e Wagner Hermusche.


[1] É evidente que essa é só a casca da questão. No fundo, o debate seria em torno do sucesso ou do fracasso da ideia em si que está por trás de Brasília, do cumprimento ou não da sua promessa modernizante. Eu não tenho pruridos em me filiar à segunda opção, o que não me torna, de imediato,  um derrotista. Faço minha a análise daquele que considero um dos mais lúcidos e talentosos críticos de arte em atividade, Lorenzo Mammì, para quem esta cidade deve ser encarada como “nossa ruína, tão essencial para nós quanto as ruínas astecas são para os mexicanos” (diz isso no ensaio “A construcão da sombra”, a propósito da obra de Marcel Gautherot , contido na recém lançada coletânea de textos intitulada O que resta – arte e crítica de arte); o que não é nenhum desalento, já que (como ele mesmo diz, num outro ensaio dessa mesma coletânea, a respeito da experiência do modernismo na arte contemporânea brasileira) “a falha fundamental do modernismo brasileiro se tornou força, no momento em que se tornou história. Não houve no Brasil nenhuma ruptura radical, como a que se deu nos Estados Unidos, entre o expressionismo abstrato e o minimalismo. Por ser desde o começo mais simbólica do que funcional, a linguagem moderna brasileira serviu mal à ideia de progresso; mas pela mesma razão, não precisou ser abandonada junto com essa ideia. Brasília é paradigma de tudo isso: um grande corpo branco, encalhado no meio do Planalto Central, cujas funções estão enfraquecidas, e cujas articulações internas vão perdendo progressivamente sentido. Um casco que, pela própria imobilidade, vai se recobrindo de incrustações míticas, barrocas. E, no entanto, algo cuja potência imaginativa é inegável, e continua fecundando todo o nosso pensamento estético. Talvez toda história comece por um grande fracasso, um fracasso que valha a pena. Nesse sentido, Brasília deu ao Brasil uma história, porque deu ao Brasil uma ruína.”

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