Planeta dos Macacos: a Origem, de Rupert Wyatt

MACACOS QUE SABEM CUIDAR DE SI

Este último 7 de setembro foi um dia surpreendente, por dois motivos. O primeiro deles porque esta cidade onde moro, Brasília, afamada pela sua conivência com os ladrões poderosos e pela sua falta de pudor para com o uso do dinheiro público, promoveu uma manifestação de largas proporções contra a corrupção. Estimadas 25 mil pessoas ocuparam, vestidas de preto, uma das faixas da Esplanada dos Ministérios sob um calor e uma seca tão monumentais quanto os prédios que lá foram erguidos; e marcharam, em paz e com muita irreverência, durante três horas, fazendo todo o circuito que vai (e volta) do Museu da República até o Palácio do Planalto, passando pelo Congresso Nacional. Marchas similares haviam sido convocadas, também via internet, em outras cidades brasileiras, mas nenhuma “vingou” como a daqui. Foi dito que isso se deveu à convergência com o Desfile do Sete de Setembro, que ocorreu simultaneamente na outra faixa da Esplanada, mas isso não procede, a não ser que milhares tenham ido ver o desfile, coincidentemente, vestindo preto. O fato, que pode ser comprovado pelas fotos que fiz na ocasião (http://www.flickr.com/photos/andresribarra/sets/72157627626057604/), é que a cidade rugiu contra a roubalheira dos políticos.

A outra surpresa ficou por conta do filme Planeta dos Macacos: a Origem, de Rupert Wyatt. Fui assistir a esse filme sem expectativa alguma, meio que para matar saudade de ir ao cinema – pois as salas daqui andam acompanhando a seca rigorosa do clima, no que tange à exibição de alguma coisa que preste, e fazia tempo que eu não me sentava numa dessas grandes salas escuras que são, para mim, a tradução daquilo que são as igrejas para aqueles que acreditam num Deus. Eu nunca fui um seguidor da saga desses macacos que falam e que já renderam diversos episódios tanto no cinema quanto na televisão (inclusive, lembro-me, como paródia, num dos esquetes de Viva o Gordo).  Tinha, quando muito, uma curiosidade a respeito de como é que se poderia esticar um pouco mais esse enredo já tão remoído e sugado, qual um velho chiclete a dar voltas na nossa boca.

Pois bem, digo agora que esse Planeta (…) a Origem vale a pena ser visto não como uma contribuição à saga (da qual, na verdade, nem me lembro direito) ou por qualquer outra possível ligação com o passado de cada um em relação a essa história, mas pelo que esse filme nos fala a respeito do nosso presente e, eventualmente, do nosso futuro enquanto coletivo de humanos.

Alguns podem dizer que até aí, não há novidade, já que se trata de ficção científica, coisa com a qual eu concordaria plenamente. Esse gênero sempre me encantou enquanto sociólogo e pessoa envolvida (preocupada) com os destinos da humanidade que sou, creio, porque acaba sempre levando a um pensamento a respeito da sociedade em que vivemos. Nele, hipóteses são lançadas, a especulação se espraia e os neurônios se acendem em excitação. Mas eu ousaria dizer que nesse filme de Wyatt, há algo que o faz se destacar das (ou dentre as) grandes criações desse gênero, que é o fato de que ele oferece uma visão de um problema, atual, sobre o qual todos estamos debruçados – não só aqueles que têm uma sensibilidade sociológica, digamos – : o “problema” das revoltas que se vê acontecerem aqui e acolá, difusamente, no mundo contemporâneo (França, Espanha, Inglaterra, mundo árabe, Chile, Brasília); e que ninguém consegue explicar com precisão.

O enredo do filme gira em torno de um macaquinho que é adotado por um humano cientista que, por sua vez, andou injetando uma droga na mãe dele (macaco), droga essa que a fez ficar com uma inteligência acima do normal. A mãe morre e o macaquinho recebe a carga genética que lhe corresponde, tornando-se um super-dotado a olhos vistos. Pois bem, acontece que essa característica vai lhe permitir, na medida em que cresce, se dar conta de um fenômeno ao qual damos muito pouca bola (pelo menos enquanto objeto de indagação intelectual): o poder. Ele percebe tanto o poder que se exerce sobre ele, quanto o poder que ele pode, a partir de certas circunstâncias que se dão no enredo, exercer sobre os demais do seu gênero. E, num passo adicional, tendo-se tornado um líder, ele percebe que existe um poder que se exerce entre gêneros animais diferentes (humanos sobre macacos), uma situação da qual só se pode sair por meio da insurreição, pois, como se sabe, o planeta – esse que dá título à saga –  é um só.

Um dos aspectos mais fortes do legado de ideias que nos foi deixado por Michel Focault diz respeito ao fato de o Ocidente, a partir de um certo momento, ter dado uma ênfase exclusiva, quando o assunto é conhecimento, especulação intelectual, à questão da verdade, tendo deixado de lado a questão do poder (como se esse último fosse um entrave ou uma mancha a sujar de subjetividade a procura pela verdade dita objetiva). O poder é um fenômeno que acontece em todo canto onde existem relações e, portanto, é passível de ser tematizado pela razão. Sociedades tais como as sociedades indígenas das terras baixas amazônicas, diz-nos a sua etnologia, dedicam-se, por meio de seus xamãs, a esse conhecimento, em que se reconhece a subjetividade perspectiva de outras espécies. Platão, chamou-nos à atenção Foucault, ao dar a sua contribuição ao grande debate antigo em torno do cuidado de si – debate esse que durou mil anos, ou seja, bem mais do que eu creio que vá durar a saga desses macacos que a década de 1970 inventou, mas que acabou, por seu turno, “sumindo” no tempo – também tinha essa preocupação: que a alma, objeto central de sua indagação, fosse uma  alma-sujeito e não uma alma-objeto (e para tal, era necessário que se conhecesse e se nutrisse uma subjetividade capaz de conduzir ao invés se ser conduzida, tal como lê-se no dialogo Alcibíades).

O macaquinho de Planeta (…) a Origem deu conta de dar esse salto cognitivo proposto por Foucault. Pensar (e perceber) o poder enquanto tecnologia e, a partir disso, desenhar possíveis novas tecnologias dentro dessa esfera, sabendo que o poder sempre vai existir (e assim evitando as utopias que prometem com ele acabar): eis algo que deveria estar desafiando os nossos cérebros humanos e que nos ajudaria a entender aquilo que não estamos entendendo. O gesto do macaquinho de, em determinado momento do filme, recusar a proteção do seu “pai adotivo” é parecido demais com o gesto que eu presenciei na marcha do 7 de setembro, de hostilizar de forma ostensiva e consensual um militante do PC do B que lá deu as caras paramentado de militante do PC do B (camiseta, bandeira). “Oportunista, oportunista” foi o que se ouviu – e foi o que teria ouvido qualquer outro militante de qualquer um desses partidos que se dizem ou que se acham donos da verdade.

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A Árvore da Vida, de Terrence Malick

O DESEJO DE SILÊNCIO OU VICE-VERSA

A árvore da vida de Terrence Malick, já havia previsto um amigo meu depois de assisti-lo, é um filme que irá criar polêmicas. Eu fui vê-lo há cerca de uns cinco dias, fiquei a fim de escrever sobre e, há quatro, saiu num jornal de circulação nacional, uma critica a respeito, de autoria de um autor de que gosto: Contardo Calligaris. Vou me permitir, aqui, discordar desse psicanalista e escritor italiano radicado no Brasil e, assim, confirmar a previsão do meu amigo.

Calligaris demonstra, em seu artigo, antipatia diante da proposta do filme de Malick, que ele interpreta ser próxima à de uma narrativa sobre como lidar com as perdas de entes queridos e com as injustiças divinas. Apelando para o telúrico seria a resposta, para abundantes imagens de fenômenos naturais de imensas proporções, que nos confundem enquanto espectadores, acostumados que estamos a tramas. A National Geographic (eis aí uma idéia de que Calligaris lança mão) entrando no auxílio do nosso desespero diante do sem-sentido da vida. Uma proposta adolescente, no seu entender, ainda mais quando confrontada com a (ou com a resposta, para a mesma indagação) de um outro filme que ele assistiu no mesmo dia: Melancolia, de Lars Von Trier.

Pois bem, eu só assisti, até agora ao filme de Malick e, portanto, fico um pouco devedor. Mas isso não impede que 1) eu discorde da leitura que Calligaris fez do filme que ambos assistimos e 2) me chame à atenção o vinculo feito entre um filme e outro, ou melhor, a coincidência de ambos tratarem de um único e mesmo assunto.

Eu não acho que o tema de A árvore seja o não-sentido da vida. Por aí começo, percebendo, desde já, que isso me levará naturalmente ao segundo ponto. A primeira coisa a fazer notar é que em A árvore não há um “narrador” (tal como afirma Calligaris ao dar o seu resumo do filme): não é narrador nem o garoto que cresce (vivido por Sean Penn) e se vê às voltas com as lembranças dos momentos que viveu junto a seu irmão morto, nem o próprio Malick, na medida em que não creio que possamos nunca afirmar que um diretor de cinema se equivala a um narrador, que é sempre alguém que se utiliza de palavras (e Malick , no filme, não pronuncia uma palavra sequer). E eu acho que, além de tudo, esse filme carece de um narrador (algo que, de resto, não seria uma novidade, já que inúmeros filmes, cada um à sua moda, também o fazem) por um motivo muito simples:  porque o silêncio é o seu grande protagonista.

O filme de Malick é um filme alegre, ainda que gire em torno de uma perda, da morte de um jovem. Como é que isso se dá? Bom, é aí onde entram as imagens à la National Geographic, mas não somente elas. Elas entram, sim, no momento de maior dor vivida pela família retratada – em especial, eu diria, pela mãe. Mas, é também – e principalmente – onde entram as incrivelmente líricas cenas familiares, anteriores à tragédia, feitas fundamentalmente de quê? De silêncio, inclusive aquelas em que se manifesta o conflito edípico ou, simplesmente, onde aparecem as dificuldades inerentes à pedagogia.

Jorge Forbes, a partir de Lacan, é alguém que tem chamado a nossa atenção para o fato de vivermos num mundo repleto de discursos, um mundo onde tudo tem explicação. Isso, inclusive, tem criado problemas justamente nesse universo tão importante que é o da criação de filhos: as crianças têm se cansado desse mundo tão cheio de palavras e razões e têm procurado coisas que vão “direto ao gozo”, tais como a música eletrônica e os esportes radicais (nos casos bons) ou as drogas e outros comportamentos pouco saudáveis (nos casos ruins). A dimensão do silêncio, desse silêncio que existe no simples fato de vida haver (por que? não se sabe, assim com não se sabe o por que de haver desejo), é uma dimensão cada vez mais rara nos dias atuais; e é bem aí que eu acho que se insere a câmera (e o microfone) de Malick. Nesse filme, o telúrico e o lírico se emparelham e se complementam como expressões daquilo que não tem explicação – e, daí, não ter nada a ver a compartimentalizacão das cenas à la National Geographic, como se elas tivessem a intenção de proporcionar uma explicação, ou devolver uma a um protagonista que não existe.

Se há um filme que se poderia relacionar a A árvore da vida, eu diria que esse filme é A fita branca, de Michael Hanecke. Peguei-o na locadora  e revi-o nesse ínterim entre assistência e escrita para verificar uma intuição que tive logo em seguida de ter visto o filme de Malick.

Esse filme alemão tem, ao contrário do americano, um narrador, que inicia e termina uma história. Tem, também, diversos discursos – ao contrário do de Malick , onde há somente fragmentos de discursos –  que se sobrepõe uns aos outros nas vozes dos seus muitos personagens, compondo um todo: o discurso do professor que narra a história, o do médico, o do pastor, do capataz, do dono das terras, de sua mulher, do camponês. E, como se não bastassem essas diferenças, o todo que se compõe a partir desses diversos discursos é, no fim das contas, um todo bastante triste. Mas, esses muitos discursos de A fita giram – feito uma fita branca que mais parece uma mordaça – em torno de algo perante o qual todos silenciam e que é o fato de no vilarejo onde a ação transcorre estarem sendo praticados atos (crimes) que não se enquadram em nenhum dos discursos disponíveis, uma vez que inexplicáveis, frutos de desejos.

E esses atos estão sendo praticados justamente por quem? Pelas crianças, como que a revelar o seu enfado (há, inclusive, uma cena bastante emblemática disso, que é a que ocorre quando um dos filhos do pastor resolve fazer equilíbrio em cima do estreito parapeito de uma ponte, para desespero do professor que o insta a descer de imediato,  e perante o que ele, depois de não atender o seu comando e atravessar a ponte por inteiro, lhe responde que “estava dando a Deus a chance de lhe tirar a vida”, ou seja, estava testando a própria vontade divina, sem intermediários). E eu até iria mais longe nessa percepção de que existe nesse filme uma abordagem sobre o silêncio do desejo, aproximando-o do de Malick, chamando a atenção para a escolha de Hanecke por uma majestosa fotografia em preto e branco, como que a aniquilar a cada instante, a profusão dos discursos, indicando que eles estão em excesso, que a realidade é bem mais objetiva.

Mas, voltando ao artigo de Calligaris, nada impede que se goste de um filme mais do que outro e de que isso seja dito. Eu ainda devo ver Melancolia e aí terei uma base para melhor poder concordar ou discordar do julgamento desse articulista e comprovar se, na minha visão, esse filme aborda o que sobre ele se disse (o não-sentido da vida e o que fazer com ele). O que me parece estranho é que se possa achar que dois filmes, assistidos no mesmo dia, versem sobre um único assunto. Isso leva-me a pensar em quanto há (ou pode haver) de narcisismo nesta atividade de escrever sobre cinema.

É certo: Calligaris não se propõe a ser um critico de cinema. Ele é mais um pensador que, dado o espaço semanal que tem, por vezes recorre ao cinema para, digamos, ativar a escrita (e o pensamento).  Crítica de cinema, parece-me, é bem outra coisa, que eu espero que escape a essa percepção de que o mundo gira em torno daquilo que pensamos ou somos. Estou começando a ler a esse respeito (o recém-lançado livro Cinefilia, de Antoine de Baecque), mas calco-me no que Jorge Coli, esse magnífico crítico e historiador da arte contemporâneo a nós, escreveu (e demonstrou) em alguns dos artigos que compõem o seu livro O corpo da liberdade (desculpem-me não achar a citação literal): que a história da arte possui uma especificidade, caminhos próprios que não necessariamente correspondem aos caminhos da história tal como a que escrevem os historiadores e nem aos caminhos da sociedade tal como os que descrevem os cientistas sociais – o caso emblemático sendo a péssima interpretação que o grande historiador inglês Eric Hobsbawm deu do quadro de Delacroix, A liberdade guiando o povo (narrada nas páginas 108-109 desse livro).

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A Sociedade no Divã

Eis aí (embaixo) um texto que fiz para um encontro de um grupo de discussão sobre filosofia e psicanálise que ocorreu há dois anos atrás em Niterói (III Encontro Nacional de Pesquisadores em Filosofia e Psicanálise). Como não teve (por razões de formatação do material que foi apresentado naquela ocasião), no meu entender, uma divulgação necessária, faço-o constar agora deste blog da balbúrdia.

A sociedade no divã

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FHC e a descriminalização da maconha

O “HC” A SER REGULAMENTADO COMEÇA COM “T” OU COM “F”?

Minha primeira reação ao saber sobre o último filme de Fernando Grostein de Andrade, Quebrando o tabu, sobre o périplo de Fernando Henrique Cardoso no mundo, a favor da descriminalização da maconha, foi a de dizer: taí um filme do qual quero distância. Não, em absoluto, pelo tema, nem pelo diretor (que tem um belo documentário sobre uma turnê internacional de Caetano Veloso, Coração vagabundo), mas pelo próprio FHC, uma figura de que nunca gostei enquanto ele era presidente e depois, quando virou “ex” (como intelectual eu nem falo, porque confesso que nunca tive o interesse de ler qualquer dos seus livros, ainda que tenham feito parte do currículo do curso em que me formei e fiz meu mestrado,  o curso de sociologia). Com o tempo, porém, confesso que fiquei curioso e quando essa curiosidade chegou no ponto de me decidir a ver o filme, ele já tinha saído de cartaz, o que me deixou no aguardo do seu lançamento em DVD.

Mas, acontece que uma enxurrada de reportagens e entrevistas, na mídia, com o “âncora” do filme, praticamente me deu uma idéia do que deva ser esse documentário. E acontece, também, que toda essa volta de FHC ao centro das atenções, com filme ou sem filme, despertou em mim a necessidade de refletir a respeito dessa figura que acaba de completar 80 anos de vida, e a respeito da minha antipatia para com ela. No fundo, eu tinha uma certa esperança de ver alguma mudança, algo de novo no seu modo de pensar e de proceder, decorrente da sua idade já provecta, mas tudo leva a crer que não seja isso o que se passa.

Quando FHC assumiu a presidência, eu já tinha seis anos de formado, dois de mestre em sociologia e menos de um ano de serviço público na CLDF, como sociólogo. É claro que, a essa altura, minha crise com a profissão que eu havia escolhido já estava em pleno andamento, mas o fato é que os oito anos de Brasil com um presidente sociólogo só ajudaram a aprofundá-la. Ingênuo e imaturo politicamente, eu me sentia em parte responsável pelos atropelos do meu colega de profissão. Tive então a sorte de poder mergulhar fundo num autor que me foi apresentado ao longo da minha graduação e esse mergulho fez com que a vontade de mudar o mundo, essa vontade que eu acredito que todo jovem que escolhe estudar sociologia possui (ao menos no início do curso), permanecesse em mim, até hoje, intacta. Esse autor foi Michel Foucault.

E foi um dos aspectos da obra de Foucault, um aspecto central diga-se de passagem, que me fez querer prestar atenção ao que FHC ora está propondo. Pelo que li até agora nas entrevistas (Correio Braziliense, Ilustríssima da Folha de São Paulo, e revista Trip), são variados (e, todos, bons) os argumentos que FHC utiliza para defender o fim da criminalização do uso da maconha, indo desde a diferenciação entre as drogas e os tipos de usos que delas se faz, passando pela inocuidade do seu combate (por meio da repressão policial e da punição dos envolvidos) e desembocando numa consideração a respeito do poder paralelo que o tráfico representa, um poder que iria sofrer um forte revés caso se desse a descriminalização. Pois bem, desses argumentos todos, o que remete a Foucault e o que me chamou a atenção é o que diz respeito à inocuidade da repressão e, mais particularmente, da punição: não adianta prender, diz FHC. É o mesmo que Foucault diria, só que nesse pensador francês, esse é um dizer muito mais profundo: não adianta prender não se aplica ao “problema” das drogas em particular, mas a qualquer tipo de “crime”. E eis que, por aí, pude começar a entender um pouco melhor os meus problemas com FHC.

Primeiro, explico o que é o dizer de Foucault. “Não adianta prender” é uma crítica que ele conduziu a uma das instituições que ele historiou: a prisão. Vigiar e punir, livro lançado em 1975 é onde ele faz essa história e de onde resulta essa crítica. Ele mostra que essa instituição, que passou a ter uma predominância abrupta e global (termo dos dias atuais, não dos anos ’70) em inícios do século XIX, tem uma funcionalidade nas sociedades atuais, uma funcionalidade da qual elas ainda não conseguiram se livrar e é bem difícil que venham a fazê-lo sem se alterarem por completo: elas, as prisões, são fábricas de delinqüência. Uma delinqüência, por sua vez, que justifica todo um aparato dito “de segurança”. Qual seria uma alternativa? Foucault não o diz, em parte, porque não tinha a resposta, em parte porque não acreditava que houvesse uma única resposta e que coubesse a uma única pessoa (ele), dizê-la. Mas, toda a inflexão que promoveu no seu pensamento no sentido da reflexão a respeito de uma ética nos leva a pensar que aí se encontraria uma saída: é preciso moldar os sujeitos, as almas, de modo a termos seres humanos melhores. Isso inclui não somente uma ênfase forte no aspecto formativo/responsabilizador das pessoas, em que as conseqüências de cada uma de suas ações sempre seja levada em conta, mas também a capacidade de perdoar nas ocasiões em que elas sejam atingidas pelas ações inconseqüentes, irresponsáveis e, em suma, anti-éticas dos outros. Coisa de grande porte, digamos, onde a própria necessidade dos (ou, de certos) aparelhos estatais se vê posta em questão.

Pois bem, com FHC, que certamente leu Foucault e Vigiar e punir, esse argumento do “não adianta prender”, não é um que aponta no sentido de uma oportunidade grande de, a partir de uma “crise”, mudar as coisas em profundidade ou, pelos menos, caminhar nesse sentido. Ele é um mero contorno diante de uma situação percebida como insolúvel, um mero cálculo de custo vs. benefício, por parte de um agente que se identifica com o aparato inteiro da segurança; um agente que possui todo o instrumental para fazer uma crítica mais profunda, mas que prefere ficar na superficialidade de um “realismo” (é isso o que ele reivindica para si, em contraposição a uma atitude “avançadinha”) acomodatício, feliz.

Uma crítica a FHC a partir do que ele não é, ou do que ele não leu ou, se leu, não registrou, contudo, tem o defeito de não ser inteiramente justa, de partir de um querer (mudar o mundo) que pode lhe ser absolutamente alheio. Ora, acontece que FHC, além de sociólogo é um político e, como se não bastasse, um político de sucesso, que chegou ao cargo mais alto dentre os existentes nessa esfera. Isso certamente não se deu exclusivamente às custas de sua serventia ou identificação com os aparatos de segurança, mas seguramente a partir de uma força motriz de pensamento, político, que também é passível de análise.

Essa sua atitude, hoje em foco, que vai de encontro a “valores” estabelecidos, não é algo inteiramente inesperado na trajetória de FHC. É um típico caso, ainda que isso não tenha aparecido em nenhuma das entrevistas que li, em que lhe caberia o recurso, amplamente usado por ele enquanto presidente, à diferença entre uma ética de valores e uma ética da responsabilidade, diferença essa estabelecida por Max Weber, sociólogo alemão, mas calcada fortemente na obra de Nicolau Maquiavel, mestre florentino do pensamento sobre a política. É por aí, eu diria, que ocorre o seu batismo e seu contato com isso a que se dá o nome de “espuma política”.

Só que esse entendimento seu, essa sua filiação a um prócer certeiro e de peso do universo do pensamento político, é uma filiação problemática, como já tentou mostrar, certa vez, o filósofo Renato Janine Ribeiro. A princípio, Maquiavel teria tudo a ver com essa relativa “falta de escrúpulos” da proposta de descriminalizar o uso da maconha, pois não haveria uma “ética” presente no seu pensamento. A princípio, Foucault e sua proposta de fechamento das prisões e de investimento numa ética que, inclusive, passasse pelo exercício do perdão, em nada se comunicariam com “os fins justificando os meios” imputados ao florentino. Contudo, Ribeiro conseguiu mostrar como o que verdadeiramente importa em Maquiavel não são os resultados, mas a ação (cf. http://www.renatojanine.pro.br/Etica/duaseticas.html); e onde há ação, onde há pensamento a seu respeito e crença no seu poder, há ética.

O príncipe é uma cartilha em que o seu destinatário é imerso num universo, o universo da ação, das ações que é necessário serem tomadas por ele em face do inesperado (a fortuna) e em face das ações prováveis de todos os que o cercam. Há um elemento nítido de construção (coletiva e realista) do novo, a partir das ações, que visam gerar efeitos e que reconhecem que não se está sozinho no mundo. O príncipe maquiaveliano tem, sim, que saber ser mau quando isso for necessário, mas a arte que lhe é ensinada por Maquiavel é inteiramente direcionada para um bem coletivo que se constrói em torno de seu agir – e não em torno ou a partir de valores previamente determinados. O que não há no pensamento de Maquiavel, portanto, é uma moral, e não uma ética; e eis que esse pensamento moldou, chocante que foi para a sua época e impactante até os dias atuais, um entendimento daquilo que possa ser a ação que faz jus ao nome de política.

Pois bem, voltando ao projeto de FHC em torno da maconha, a pergunta que cabe é o quanto que ele se encaixa nessa moldura maquiaveliana, a lhe assegurar, digamos, uma “nobreza” política. Seguindo o que nos ensina Ribeiro, vê-se nitidamente que ela corresponde muito mais a um outro entendimento – uma outra “abertura” no dizer desse autor, que se apropria do vocabulário enxadrístico – do agir político, que é justamente aquele que deriva do pensador anglo-holandês Bernard Mandeville. A “abertura Mandeville” em política é uma que data do final do século XVII e que gira não em torno do agir, mas em torno da canalização das forças sociais existentes, sendo o seu indefectível bordão o “vícios privados, virtudes públicas” e o seu exemplo mais significativo a defesa desse pensador da liberação da prostituição nos portos da Holanda: seria ela, um vicio da ordem do privado, que iria assegurar que as donzelas de família não fossem atacadas pelos marinheiros que lá atracavam, sedentos de carnes femininas; um mal necessário, digamos, à preservação da “virtude” pública. Não há aí, como se pode ver, interesse algum em desvendar condutas que possam levar a um crescimento coletivo, em padrões a serem atingidos de forma coletiva, mas sim uma defesa de técnicas de condução de condutas, técnicas essas que só visam salvar ou resguardar um “bem” já estabelecido – e estabelecido por poucos, diga-se de passagem. Não há o reconhecimento de uma igualdade de condições que gira em torno da capacidade que todos temos de agir, mas a noção de que há fluxos de interesses difusos que necessitam de alguém “superior” e de visão diferenciada para poder lhes dar um “bom destino”.

Não pretendo aqui adentrar mais nesse assunto que diz respeito à filosofia política. A tentação é grande de dizer o quanto essa discussão tem a ver com conceitos que Foucault trabalhou no final de sua trajetória, tais como o de “poder pastoral” e “condução de condutas” se contrapondo a uma “ética” e a uma liberdade. Só o que quero chamar a atenção é para o fato de o quanto fica claro que essas duas formas distintas de se conceber a ação política correspondem inequivocamente à diferença abissal – e muito ao contrário daquilo que FHC defende em uma de suas entrevistas – que existe entre os oito anos de governo desse que ora ressurge no cenário político a partir daquilo que todos julgavam(os) serem cinzas e os oito anos de governo do seu sucessor; uma diferença que diz respeito a enxergar as pessoas enquanto sujeitos (às vezes somente potenciais, mas sempre na perspectiva de serem fonte de soluções) ou enquanto objetos (ou seja, “problemas”, a serem “equacionados” por “admiráveis” sujeitos).

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PPPPP by POA

BRASÍLIA TEM O (SEU MILES E) SEU QUARTETO CORSÁRIO

“(…) e se consideramos que, no final das contas o barco é um pedaço flutuante de espaço, um lugar sem lugar, que vive por si mesmo, que é fechado sobre si e que ao mesmo tempo está nas mãos do infinito do mar (…) vocês compreendem por que o barco foi para a nossa civilização, desde o século XVI até os nossos dias, ao mesmo tempo não somente, com certeza, o maior dos instrumentos de desenvolvimento econômico (não é disso de que lhes falo hoje), mas a maior das reservas de imaginação. O navio, é a heterotopia por excelência. Nas civilizações sem barcos os sonhos se calam, a espionagem toma o lugar da aventura, e a polícia o dos corsários.”

Michel Foucault, “Os espaços outros” (Conferência proferida em 1967 e só autorizada para publicação em 1984)

No último dia 26/05 houve, no Plenário da Câmara Legislativa do DF –  local onde eu trabalho como Consultor Técnico-Legislativo – uma Comissão Geral em que se discutiu um assunto de bastante relevância e premência: até que ponto os estabelecimentos comerciais voltados para o espetáculo e a apresentação de música ao vivo e situados próximos a zonas residenciais podem continuar a exercer essa atividade e dentro de quê parâmetros. Iniciativa do Deputado Distrital Cláudio Abrantes, o encontro contou com a participação de diversos dos atores envolvidos, desde músicos da cidade, passando pelos empresários do ramo cultural/noturno e chegando aos fiscais que cuidam da aplicação da lei que regula a emissão de sons. Foi uma oportunidade de exercício do entendimento, num conflito de interesses instalado que tinha culminado na cassação temporária de alvarás de funcionamento de importantes estabelecimentos do ramo da diversão. Não sei o que deu, no final das contas, mas me contento com o que lá foi dito pelo maestro Rênio Quintas a respeito do esquecimento progressivo na história mais recente do DF do projeto inicial da cidade, que a previa como pólo gerador do novo, de novas idéias, novas formas. Foi muito belo o seu discurso, que não abrangeu exclusivamente o seu quinhão, a música, mas apontou para a produção cultural de um modo geral, para o papel da arte no mundo contemporâneo, tão carente de soluções e de beleza, da capacidade de celebrar a vida.

Pois bem, eis que alguns dias depois, mais precisamente no sábado subseqüente  a esse dia, o grupo de artistas que havia participado, com suas instalações e suas performances, da abertura da mega exposição sobre a construção de Brasília no mesmo prédio da CLDF, realizou, na chamada Praça do Povo que fica defronte a esse recém-inaugurado prédio, a segunda parte do seu “movimento”: esses quatro artistas, sob a curadoria de José Eduardo Garcia de Moraes, pegaram uma parte dos objetos que haviam exposto e com os quais haviam interagido no dia da inauguração e lhes deu uma nova cara. A mais evidente dessas transformações foi a metamorfose sofrida pelo belíssimo cavalo em acrílico e tamanho real de autoria de Waleska Reuter e intitulado “O Rei Secreto do Mundo”, que antes – e pintado num verde aprazível – se encontrava na entrada principal do prédio. Ele agora, na praça, reapareceu, desafiador, numa cor preta reluzente e soturna, lembrando o bronze, e montado em cima de uma base mais alta, que remete a um daqueles velhos carimbos que requerem um balanço, pr’um lado e pro outro, pra poderem imprimir a sua insígnia; e ganhou duas presas de elefante!

Os outros membros do grupo também fizeram suas derivações. Garcia de Moraes deixou quietas suas garrafas d’água Perrier descansando sobre o tapete de pratos brancos Luminart – tudo francês, e os segundos ainda com os respectivos preços à mostra – na luminosa instalação-homenagem ao amigo Athos Bulcão, bem debaixo de uma das escadas internas do prédio. Mas tirou novamente da caixa suas barras de manteiga Président e seus colares dourados empilhando as primeiras e vestindo os segundos, tal como havia feito no dia da inauguração. Uma expectativa continuou pairando no ar quanto ao destino final desse conjunto dourado e potencialmente gorduroso de objetos. Elyezer Szturm chegou vestido de deputado, de terno e gravata e fez lá algumas evoluções, ainda amuado, talvez, pela retirada misteriosa e repentina da sua harmoniosa instalação de centenas vassouras de piaçava enterradas, feito palmeiras, no gramado defronte e limítrofe do prédio com a calçada e a rua. Por último, Oziel, que, na inauguração, havia tatuado in loco, na coxa, a inscrição “O Não-Estrutural” e filmado essa operação, projetando-a em tempo real num monte de brita pintada de branco, fez uso novamente do próprio corpo como plataforma, desta vez cobrindo-o de cola para, em seguida, nele grudar os fiapos da própria barba, que ele havia cuidadosamente juntado, ao se barbear, nas semanas antecedentes; tudo pra ficar com a aparência de um sinistro lobisomem.

Eu não assisti a esses movimentos de sábado, não pude, por motivos alheios à minha vontade: eles me foram relatados. Hoje, deles, dos seus ecos, somente convivo, diariamente, com o “Rei Secreto do Mundo” que, incólume e impassível, continua a intrigar e espantar a todos, colegas e transeuntes. Mas fico me perguntando se não se trata de, assim como com o som, que “perturba” ou que “apraz” conforme a cabeça em que penetra, realizar uma Comissão Geral em que se discuta como essa Câmara Legislativa que se quer nova e dinâmica, impulsora do novo, vai receber, em seu novo lócus e nas suas novas instalações, essas evidências gritantes da condição de vanguarda que Brasília possui no universo das artes.

Eu acompanho o trabalho de José Eduardo Garcia de Moraes há anos e, nos últimos tempos, tenho tido o privilégio de partilhar de sua amizade, já que ele é velho amigo de minha esposa. Acho-o genial. São lendárias as suas performances, dentre as quais minha memória destaca uma, ocorrida no estacionamento do Instituto Cervantes, em que espalhou no asfalto algumas dezenas de Coca-Colas em garrafas PET (dessas de 500ml pra cima) e, a partir de certo momento, como se fosse um autômato, começou a catá-las do chão e a jogá-las pra cima, com toda a força, uma atrás da outra. As  garrafas voavam e, ao caírem, em alguns casos, devido ao gás que portavam, explodiam e saíam zunindo a toda velocidade nas direções mais imprevistas e de modo até mesmo a representarem um perigo (uma delas atingiu um carro, amassando a sua lataria), mas nada de José Eduardo parar. Ele tem também, ao longo de muitos anos, estado à frente de um projeto pioneiro denominado PPPP, Praça Portugal Para Performance, em que ele (e convidados) se apropria(m) dessa que é uma das únicas praças que Brasília possui (agora só me lembro da dos Três Poderes, da do Buriti e dessa da nova CLDF), entre as embaixadas de Portugal e dos EUA, para, de forma absolutamente autônoma, quando lhe dá na telha e em nome do puro amor à arte, promover esses desconcertos, que parecem sempre dialogar com estoques de objetos produzidos em série que nos cercam no cotidiano (tais como latas de Nescau, rolos de papel higiênico, bolas de basquete, carros) ou não (esferas de metal, colares reluzentes, roupas e calçados únicos, animais domésticos) e lidar com a construção e a destruição de estados de equilíbrio. Quando recebeu o convite para integrar a exposição sobre a história de Brasília, viu a possibilidade de transferir as atividade da Praça Portugal para aquilo a que deu o nome de Praça Paris, que é onde hoje descansa o “Rei Secreto do Mundo” – daí o nome dado ao novo projeto, PPPPP, Praça Portugal Para Praça Paris, assinado pelo conjunto de artistas denominado POA, Por Ordem Alfabética, para não ferir suscetibilidades, suponho.

Coincidentemente, estes dias peguei para ver com atenção e por inteiro um DVD que adquiri há algum tempo e que documenta o percurso feito por Herbie Hancock, o famoso tecladista, ícone do jazz, para a gravação de um de seus últimos discos. O DVD, sensacional, chama “Possibilities” (e eu suponho que o disco também deva assim se chamar) e o mostra arregimentando parceiros para a exploração de novas sendas na música: jovens e velhos músicos, conhecidos e desconhecidos do grande público, com os quais ele intuía que poderia compor e tocar novidades. Herbie Hancock integrou, na década de ’60, o lendário quinteto do trompetista Miles Davis e uma parte do filme é dedicada a mostrar aquilo que ele aprendeu junto a esse seu mestre e amigo. Miles, diz Hancock, não queria que seus liderados ensaiassem visando o concerto que iriam realizar no fim do dia, a apresentação que iriam fazer: ele os queria por inteiro naquele instante perante a audiência, o único tempo válido sendo o presente. Queria que eles não tivessem medo do novo e é justamente isso o que Hancock tenta reproduzir com cada um dos seus novos e frescos parceiros musicais. A certa altura, quando está criando e gravando com Carlos Santana e Angélique Kidjo, ele diz algo que me fez lembrar o POA e a CLDF, algo que diz respeito não à música, mas a como fazer a “música crescer a partir das realidades da vida”: “se você trabalha para tocar partes da vida de uma pessoa que têm a ver com elegância, beleza, graça, dignidade, é o oposto daqueles que estão tentando tocar o ser de uma pessoa e que tem a ver com o poder pelo poder”. Talvez, uma parte da saída do “Rei Secreto do Mundo” e da sua mudança de cor e de feição se deva a um sentimento próximo a essa oposição expressa por Hancock. Se for esse o caso, seria bom que alguém dessa nova CLDF interessada em se reposicionar perante a sociedade e em navegar rumo ao novo agisse rápido para evitar o mal-entendido; e não espantar de vez esses mestres do novo que, feito corsários, por lá aportaram com a melhor das intenções.

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Brasília, uma arquitetura familiar, de Débora Amorim

UM PARALELO A MAIS

Uma amiga minha, Lara Amorim, professora de antropologia da UFPB, me deu de presente um livro do qual ela participou como curadora e autora de um texto de apresentação; um livro sobre Brasília, cujos (outros) autores são, na qualidade de fotógrafos – é um livro de fotografia –, a sua prima Débora Amorim e o seu tio Márcio Amorim. É um livro feito em família, a partir do material inicial deixado pelo fotógrafo amador e pioneiro Márcio, que registrou momentos da história da família que ele constituiu em Brasília, bem como momentos da história da própria cidade. Esses registros, por sua vez, são postos em paralelo ao trabalho de sua filha Débora, profissional da imagem atuante na capital dos dias de hoje. O livro chama Brasília, uma arquitetura familiar e traz algo de muito novo para o cenário da historiografia de Brasília, principalmente aquela feita a partir de imagens.

Atualmente, estamos tendo, aqui em Brasília, no recém-inaugurado prédio da Câmara Legislativa, uma exposição sobre a cidade e sobre seus principais personagens e monumentos. É uma mega exposição que já esteve em Madri e Lisboa e parece que segue para a França na sequência. Tem um baita de um patrocínio, fruto do trabalho de uma jovem produtora cultural: Danielle Athayde. Trata-se de um trabalho que tem de tudo: desde uma maquete da cidade, dona de uma conturbada história, até aqueles personagens que sempre constam –  JK, Pinheiro, Sayão, Niemeyer, Costa, Bulcão, agora acrescidos de Le Corbusier, e os fotógrafos Fontenelle, Manzon e Gautherot –, passando pelo trabalho de um fotógrafo (forâneo) contemporâneo e de quatro excelentes artistas da cidade. Algumas coisas, nela, para mim, são novas (o trabalho desse fotógrafo, alguns documentos raros e valiosos, dois quadros de Athos Bulcão, com seus azulejos), mas, no geral, considero a exposição uma repaginação, bem feita certamente, de coisas que já vi e, principalmente, de coisas que vejo todo dia, coisas que eu até estou meio cansado de ver: prédios e poder, ou os prédios do poder e o poder dos prédios.

O livro dos Amorim, por sua vez, apresenta esse outro lado de tudo o que diz respeito ao poder, o lado da subjetividade, como bem colocou a própria Lara, quando me resumiu a proposta. Em geral na iconografia brasiliense, esse é o lado que sempre aparece ou pequeno, diante da grandiosidade da proposta, ou anônimo. Já Brasília, uma arquitetura familiar nos dá nomes, nos dá rostos, momentos, lugares; e todos esses elementos nos falam muito diretamente, porque são configurações de sonhos bem concretos: ter uma família, ser feliz, construir coisas, trabalhar.

Certo, os poderosos também sonham – é o que está patente no célebre  olhar de JK, nas expressões de Niemeyer, no gestual de Lúcio Costa –, mas até quando vamos continuar a achar que o sonho de todos tem que ser sempre o sonho por tabela desses sonhos, digamos, primeiros? Eu acho que Michel Focault foi alguém que nos alertou muito para esse perigo quando quis estabelecer as bases de uma nova filosofia em torno não de uma verdade, mas em torno das relações entre os sujeitos e o poder. O poder é algo que emite verdades e cabe a nós, sujeitos, ver se essas verdades são mesmo boas para nós, nos trazem benefícios ou querem simplesmente nos aprisionar, nos reduzir, manipular, nos cooptar.

Os sonhos do poder, tal como são aqueles com que nos deparamos na exposição organizada por Athayde, são do tipo que nos levam a esquecer os escândalos de corrupção recorrentes, os desperdícios de dinheiro público e as agruras vividas cotidianamente, ao conviver com ele, poder. O cheiro podre que se sente a cada esquina inexistente, o cheiro da arrogância e da prepotência dos que tem algum naco, ainda que mísero, de poder, meio como que é suavizado quando nos lembramos das belas intenções dos próceres e dos demiurgos, como se lá, nelas, estivesse uma parte da nossa verdade – e a verdade, fomos ensinados, é sempre algo que deve nos acalmar. Esse conjunto todo tende, em suma, a nos dessubjetivizar, a nos tirar da capacidade que temos de construir nossa própria identidade, nosso próprio caminho. Por isso, é premente, é vital, que o outro lado da história seja contado, seja exposto.

Evidentemente, não se trata de postular algo do tipo: a família é a solução, o caminho para o impoluto, em oposição à decrepitude do poder. Nelson Rodrigues é um que nos mostra muito claramente, por meio de toda a sua obra, o quanto esse caminho é enganoso. A questão parece mais passar pela corajosa exposição de nomes e de afetos, que não têm medo de serem revelados: Márcio, filho de José e de Quinquinha, que se juntou a Jodette e que, pais de Marcus e Débora, construíram, com esforço, mas também com alegria, em Brasília, junto ao poder, uma casa, um lar, uma família. Arquitetaram, como bem lembra o título do livro e o texto que o apresenta, algo, que é único, singular e muito belo, tão belo quanto (ou mais) os formosos prédios a que estamos acostumados.

Um dos mais belos textos de Foucault, dentre os que tocam diretamente nessa questão da subjetividade perante o poder (e eu diria que dentre todos os que ele escreveu), intitula-se “A vida dos homens infames”. Ele nasceu de um projeto (inconcluso) que esse pensador tinha de fazer um livro a partir dos registros administrativos dos homens e mulheres que, no século XVIII, tiveram algum relacionamento com o Hospital Geral da Bastilha; existências que ainda que não valerão “jamais a menor passagem de Tchekhov, de Maupassant ou de James” teriam “balançado”, nele, Foucault, “mais fibras do que aquilo que ordinariamente chamamos de literatura”. O que acontece com esses registros, diz ele, é que evidenciam um ardor, uma energia e até mesmo uma violência semelhante àquela de “partículas dotadas de uma energia tanto maior quanto elas são tanto menores e difíceis de discernir”.

Eu não ousaria colocar a saga dos Amorim no rol da vida dos homens (e mulheres) infames da história do que quer que seja, até porque esse é um termo que se liga à desonra e a desonestidade, algo que, até onde sei, passa muito longe da história dessa família. Mas, se por infâmia entendermos uma alegria de viver, um ardor e uma energia que destoam por completo das exigências de um mundo estritamente racional e obediente aos desígnios do poder, então, creio que os Amorim, junto com uma imensa maioria dos cidadãos brasilienses, são, como mostra esse importante livro, uns belos de uns infames. E a maior prova disso é o trabalho de Débora Amorim, que, dentre todos os assuntos que a um fotógrafo é dado escolher como tema, escolheu a criação artística, ou seja, aquilo que sempre foi e sempre será o baluarte da luta contra as estupidezes do poder.

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Rio, de Carlos Saldanha

A VIDA PODE SER MARAVILHOSA

Fiquei sabendo que José Padilha, diretor dos Tropa de Elite (já comentados aqui), vai fazer o próximo Robocop. Boto fé, muita fé, porque o cara é uma fera, sem dúvida. Mas o que me leva a abrir esta crítica é o sucesso, nas telas, de um outro brasileiro, Carlos Saldanha, diretor do longa de animação Rio, com recente estréia. Saldanha tem uma trajetória oposta à de Padilha: seu sucesso se deu a partir de um trabalho fora do país, nos estúdios norte-americanos de animação, com a direção artística dos A Era do Gelo, e agora chega ao seu país de origem como um produto que cabe ao público brasileiro julgar, eu diria que mais do que a qualquer outro público, porque aborda precisamente essa cidade, o Rio de Janeiro, esse emblema da brasilidade – que, coincidentemente, foi o “trampolim” de Padilha para o “mundo”.

E enquanto (também) brasileiro, eu acho que Rio é uma enorme conquista para o pensamento daquilo que somos, para a nossa antropologia. É um filme que teria tudo para ser ofensivo à assim chamada brasilidade. Primeiro, por fazer uso de uma técnica que não nasceu aqui, nos nossos parcos estúdios (se é que eles existem). Segundo, porque se espraia sobre um território que não é meramente geográfico (como foram as geleiras ou poderia ser a floresta amazônica) mas emotivo –  qual é o brasileiro que, mesmo nunca tendo ido ao Rio, não tem essa cidade em algum ponto do seu DNA, não a tem como fonte de orgulho, como prova de que a vida é (ou pode ser) maravilhosa? –; porque toca num símbolo que se encontra, por vezes e de fato, em muitos aspectos, combalido. O desenho animado e os filmes de animação têm um passado no qual não é rara a presença dos estereótipos e até mesmo do preconceito, coisas a que, até algumas décadas atrás, alguns analistas davam o nome tenebroso de “ideologia”.

Mas eis que Saldanha dá um triplo escarpado por sobre tudo isso e por sobre a memória de Zé Carioca, aquele papagaio cordial que já nos representou na “orquestra das nações” e lança ao mundo a história de Blu, uma ararinha azul macho que é capturada ainda bebê numa floresta que só pode ser a da Tijuca e é transportada como contrabando para o Minnesota. Lá, ele é interceptado por uma garota americana que o acostuma a todos os confortos de uma vida doméstica, inclusive à inaptidão para o vôo. Pois bem, acontece que Blu é reconhecido por um ornitólogo brasileiro que afirma ser ele o último exemplar macho de sua espécie e que propõe a ele e à sua dona, agora uma mulher, uma viagem ao Rio para ele se acasalar com a última ararinha azul fêmea existente no mundo. A viagem acaba acontecendo, Blu passa a conhecer Jade, a ararinha, e o seu berço, a cidade, o mundo do qual ele foi tirado.

E que mundo é esse? Bem, eis aí a grande questão. É, por acaso, o mundo da cordialidade? Da malandragem? Do turismo sexual? De modo algum. Saldanha vai deixando cair todo e qualquer estereótipo, toda e qualquer imagem preconcebida e possivelmente encapsuladora – às vezes até brincando com isso, como quando nos induz a achar que Jade seria uma “presa” fácil para o inocente nerdzinho gringo em dias de garanhão, para logo nos revelar a fêmea arguta e sedenta de liberdade que ela, de fato, é – e vai nos revelando uma suavidade, uma delicadeza, uma sutileza que passam pela música, pelo gestual , pela dança e pela cor. Algo único, genuíno, refinado, que explode, em certos momentos, em exuberâncias – naturais, como no caso da paisagem, artificiais, como no caso do desfile das escolas de samba. É fácil reconhecer o Brasil real nesse filme: ele não aparece como ideia, mas como corpo, como visualidade e sonoridade únicas. Ouso dizer que se fosse possível ao cinema ter cheiro, Saldanha também cuidaria de que seu filme exalasse os mais variados perfumes brasileiros.

Enquanto escrevo estas linhas, me vem à lembrança um filme que vi neste Carnaval passado (e sobre o qual gostaria de ter escrito, coisa que acabei não fazendo): o documentário O Samba que Mora em Mim, de Flávia Guerra-Peixe, uma proposta exitosa de retratar o universo do Morro da Mangueira e do samba que lá se faz. Agora, eu diria que esse filme e o Rio de Saldanha, são iniciativas muito próximas. Flávia Guerra-Peixe também consegue fugir dos estereótipos, tão fáceis, pela mesma via da sensibilidade, da atenção ao que é singular e que só pode passar pelo corpo: pelo olho de quem vê, pelo ouvido de quem ouve, pelo corpo de quem se faz ser visto e ouvido.

Mas, tenho que confessar que uma das coisas que me fez concatenar estas impressões a respeito de Rio foi ter escutado, no dia seguinte ao filme, o belíssimo álbum que o soprista Carlos Malta gravou a partir da obra de Pixinguinha.

Pixiguinha, todos sabem, é uma fonte inesgotável de certeza a respeito do divino e do sublime. Malta, por sua vez, é um carioca que ama o Rio e um profundo pesquisador da brasilidade que, certa vez, num dos diversos shows que dele já vi, fez o público, ao final, sair entoando  uma melodia de Radamés Gnatalli que evoca um Rio de Janeiro polido, refinado, civilizado à sua própria maneira, com as pessoas se cumprimentando alegre e educadamente ao longo das suas avenidas e ruas. Um Rio muito próximo do de Saldanha; uma alegria, no final desse show, muito parecida àquela que Rio provocou em mim.

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A Rede Social, de David Fincher

UM FILME POLÍTICO ONDE MENOS SE ESPERA

A Diego Ramírez Ugarte

Acabo de ver A Rede Social, de David Fincher. Como o filme já saiu de cartaz – ao menos aqui em Brasília – assisti-o na tela da minha recém-adquirida Samsung Led de 40 polegadas, com HD, Blu-Ray e tudo. Vi também os extras que acompanham o disco principal (trata-se de um pacote duplo). Posso dizer que se trata de um grande filme, que impressiona por uma série de motivos.

Em primeiro lugar, pela agilidade em dar cabo de uma história que está sendo escrita. Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, está vivo e a história que vemos no filme é a história do que ele passou há não mais do que três, quatro anos atrás. Eu me lembro de quando entrei no FB: foi por volta de 2008 e por meio de um grande amigo meu, que vive no Paraguay. Amigo de infância, com quem eu passei a ter um contato bem esporádico, depois que o pai dele, que era chefe distante do meu pai, voltou para o seu país de origem, levando consigo a família. Quando crianças, estudamos por anos a fio no mesmo colégio, fomos companheiros de turma e, praticamente, não havia um fim de semana em que não estivéssemos um na casa do outro. Pois bem, entrei ao ser convidado por esse amigo e hoje tenho uma carteira de mais de 130, das mais variadas origens. Sou um adepto disso que eu vejo como um serviço que tem demonstrado ser uma ferramenta comunicacional para muita gente.

Certa vez postei, nesse contexto, um comentário a respeito de como eu percebo que alguns dos meus amigos que eu nunca tinha desconfiado que fossem dados à poesia estavam se revelando refinados poetas, mestres em dizer coisas apropriadas e belas dentro do curto espaço de que se dispõe. Com o tempo, percebi que isso se aplica, também, aos vídeos e fotos que cada um posta: as escolhas que cada um faz daquilo que acha que vale a pena compartilhar revelam um bom-gosto (ou o seu contrário), uma significância, um humor, por vezes, que dificilmente vemos nos meios de comunicação habituais (TV, jornal, rádio). Damo-nos conta, talvez, de quão belos são nossos amigos, mesmo quando são ridículos; ou, de como toda uma dimensão, a amizade, tão importante para qualquer ser humano, criança ou adulto, estava meio que, progressivamente, morrendo de inanição, até esse tal de Zuckerberg chegar com o seu adubo.

Pois bem, o cinema demonstra a sua agilidade máxima com esse A Rede Social, uma agilidade, penso, que se equivale à agilidade mental revelada pelo próprio personagem Zuckerberg – e que deve corresponder à do Zuckerberg da vida real. É bom que se esteja preparado para diálogos rapidíssimos, que iniciam o filme e que nos indicam que não estamos propriamente num contexto herzogiano, ou wenderiano, para todos os efeitos. Contudo, não creio que essa seja uma das chaves principais desse filme. A agilidade deve ter acontecido, em doses cavalares, creio, por conta dos advogados a negociarem previamente, com cada um dos retratados, as complicadas questões relativas à imagem pessoal, essas questões que giram em torno de calúnia e difamação e que tanto aguçam os apetites na medida em que as (expectativas de) cifras arrecadatórias aumentam. O filme trata um pouco disso, da cobiça e da imagem, com suas recorrentes cenas na barra de um tribunal. Mas, penso, também, que talvez a correria desses profissionais não tenha sido tanta, já que acredito na inteligência do principal dos retratados, na sua devoção ao próprio produto que ele criou, um tônico que serve para fortalecer aquilo que o filme revela ser o que ele, Zuckerberg, menos possui: a amizade.

Para mim, a principal chave de leitura desse filme, porém, está no fato de ele ser o retrato de algo ao qual só posso dar o nome de revolução. O que é uma revolução? Temos notícias de algumas, já limos e vimos filmes a respeito, somos filhos de outras – ou de uma só, não se sabe bem qual, teríamos que ter perguntado ao Renato Russo –, temos a esperança de vê-las acontecer em tantos e tão variados âmbitos, a dos dias de hoje sendo a do “mundo árabe”; mas, de fato, o que é uma revolução? Michel Foucault, mestre meu, dizia, em consonância com o mestre seu, Kant, que as revoluções de verdade são as que acontecem na cabeça das pessoas, no seu pensamento. Quando o pensamento muda, tudo vem a reboque; e é lá, nessa esfera, que se dão as batalhas monstruosas, os cataclismas, os rompimentos fatais contra os quais, feito o que hoje vemos ocorrer, com tristeza, no Japão, ninguém consegue fazer absolutamente nada.

No filme, o que ocorre é exatamente algo que lembra a inexorabilidade de um tsunami: vemos todas as barreiras, morais, tecnológicas, legais, comportamentais que cercavam esse gênio, Zuckerberg, paulatinamente sendo derrubadas. Diante da força da sua genialidade, do seu pensamento, nada – nem mesmo uma amizade, única mas meio interessada – se sustenta. Quando o novo surge, adeus.

 

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Cisne Negro, de Darren Aronofsky

UM CINEASTA NATURALISTA EM PLENO SÉCULO XXI?

Está criada uma polêmica: há os que amaram e há os que detestaram Cisne Negro, o último filme de Darren Aronofsky. Está aí um diretor, jovem, de que eu tinha poucas referências; e eu estava doido pra ver esse recém-lançado filme seu para ver o que eu acharia, afinal. O que posso dizer é que me levou a rever o seu penúltimo O Lutador, que tinha visto pela metade, certa vez que o peguei numa locadora. Acho, no final das contas, que os dois são bem parecidos. E gosto, muito, de ambos.

Os que não gostaram de Cisne vão de uma preguiçosa acusação de cafonice a uma  mais elaborada, que diz respeito ao exagero alucinatório que toma conta da protagonista e do filme, a certa altura. O que ocorre, de fato, é que a proposta do filme é a de mostrar o drama de uma jovem bailarina que faz parte de um importante corpo de balé clássico e que luta por conseguir o papel principal da nova montagem do grupo, o renomado Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky. Tudo estaria bem, as chances dela conseguir o papel sendo altas, não fosse pelo fato de o diretor ter encasquetado que a mesma bailarina deveria desempenhar ambos os papéis de Cisne Branco e Cisne Negro. Isso – e principalmente o desafio pessoal de dar corpo à sensualidade do segundo e mais sedutor dos “cisnes” – faz com que ela se veja indo além dos seus próprios limites e comece a surtar. E nós, espectadores, somos convidados a ir junto nesse surto, tendo o trabalho, junto com a guerreira bailarina, Nina (vivida pela ótima Nathalie Portman), de distinguir o que é alucinação e o que não é.

Aronofsky é um cineasta que cuja temática, eu diria, deriva de uma corrente artística do século XIX – a respeito da qual estou, coincidentemente, lendo um belo ensaio do historiador Jorge Coli – denominada “naturalismo”[1]. É claro: como o cinema ainda estava por ser inventado, essa corrente teve os seus principais lances sendo jogados nos campos da pintura e da literatura. Ela teve, conforme noticia Coli, uma vida difusa, não se concentrando em um único lócus geográfico e não fazendo alarde algum, a tal ponto de só ter sido reconhecida muito tardiamente, no século XX e, ainda assim, sob controvérsia. Fundamentalmente, ela consiste no esforço de retratar o mundo profissional, de fazer um inventário dos diversos meios pelos quais os homens ganham o seu pão de cada dia: as ferramentas de que dispõem, seus trajes, sua condição. A arte naturalista é uma arte que lida com tipos sociais e esses tipos se definem a partir de suas profissões, não a partir de traços psicológicos individuais ou a partir de alegorias já prontas e sancionadas pelo establishment cultural.

Pois bem, é isso o que Aronofsky faz. O Lutador é o retrato cru e cruel de um lutador de catch que envelhece e se vê às voltas com um acerto de contas consigo mesmo, diante da vida “desregrada” que teve. Comovedor. Cisne Negro também narra um desregramento, quando mais não seja pelo fato de que Nina é levada a enfrentar as leis impostas por uma mãe frustrada e autoritária. Em ambos os casos, o que conduz a esse desregramento é a profissão de cada um. E a convergência entre um e outro filme se aprofunda pelo fato de ambos retratarem profissões que estão dentro do showbusiness.

Eu creio que Aronofsky, naturalista ou não, é um cineasta que veio para incomodar. Um terceiro filme seu, A Fonte da Vida, é um que muitos podem até julgar patético, com a sua pretensão de sincronizar três tempos e três espaços em torno da temática da morte, da tentativa de superar essa que é a mais segura das certezas. Nem mesmo os belíssimos efeitos especiais desse filme são suficientes para aliviar a sensação de exagero e até mesmo de delírio megalômano. Somente um aspecto, creio, em retrospectiva, o salva, que é justamente o fato de o protagonista ter o quê? Uma profissão, a de médico – que vê a sua jovem e bela mulher ser gradativamente consumida por uma doença terminal. Aí, sim: o delírio e a megalomania do filme são perfeitos irmãos siameses do delírio e megalomania de muitos dos expoentes dessa profissão, são o seu retrato fiel – ou, pelo menos, uma tentativa disso.

E o incômodo desses dois mais recentes filmes que lidam com profissões do mundo do espetáculo, onde reside? Pois bem, eu acho que – e eis inclusive uma das explicações que encontro para a forte rejeição de Cisne Negro – no apego que se tem ao próprio mundo do espetáculo, que, nos filmes, é desconstruído. É muito mais fácil, e é muito mais isso o que as pessoas esperam, ser o espectador do Lago dos Cisnes, ou de qualquer luta de catch, do que o espectador daquilo que acontece nas coxias, das disputas e angústias que lá se dão. Por outro lado, como é que um reles espectador de balés ou de catchs vai, um dia, sequer sonhar em ser testemunha da transformação, do empoderamento (que chega a beirar a imortalidade), que só o mundo do trabalho pode oferecer – e que os filmes de Aronofsky cuidam de retratar, com tamanha fidelidade que até mesmo os delírios e as fantasias dos retratados neles aparecem e se confundem com a própria narrativa?


[1] “Pintura naturalista”, in Coli, Jorge; O Corpo da Liberdade; São Paulo, Cosac&Naify, 2010, pp. 285-294.

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Biutiful, de Alejandro González Iñárritu

PINTA O TEU PLANETA E SERÁS… VITAL

Alejandro González Iñárritu e Guillermo Arriaga – o primeiro como diretor e o segundo como roteirista – tiveram uma parceria que rendeu excelentes frutos: Amores Brutos, 21 Gramas e Babel, filmes que se caracterizam por engenhosos roteiros, desses cujo desfecho amarra de forma surpreendente os diversos e esparsos fios que se deixam à mostra ao longo do desenrolar da história, crueza, drama, belas imagens e contundentes trilhas sonoras. Eu disse “tiveram”, porque a parceria desses dois mexicanos já não existe mais. Arriaga acabou virando diretor de seus próprios roteiros, que continuam a repetir a fórmula, creio que já bastante antiga – data, no mínimo, de Short Cuts – Cenas da Vida de Robert Altman, passando pelo admirável Crash –  No Limite, de Paul Haggis – , da amarração final dos fios soltos, tal como prova o seu recente Vidas que se cruzam. Já Iñárritu, “desmamou”, escreveu um enredo próprio e está com o impactante Biutiful em cartaz.

Babel, o filme anterior de Iñárritu, já havia lançado o desafio: será possível realizar um filme que se passa no mundo? Como assim, “no mundo”? Sim: no mundo, no mesmo sentido de “no planeta terra”. Coisa mais esdrúxula, pois não se trata de nenhum filme de ficção científica ou coisa parecida; e, óbvio, todo filme tem uma locação muito evidente (ou às vezes nem tanto), um cenário. No caso desse filme, o cenário é o mundo e o que permite vencer o desafio proposto é justamente essa técnica dos fios que se entrelaçam, na qual Arriaga se especializou. Digamos que Babel é uma encenação, convincente, da globalização, a primeira de que tenho conhecimento.

Tudo indica que essa idéia, essa boa e novidosa idéia de retratar a atualidade do “mundo” na sua simultaneidade e sobreposição de aspectos (ou cenas), tenha sido, apesar de tudo, de Iñárritu, pois nesse Biutiful ele elegeu – primeiro e fundamental dado – a mais global das cidades, Barcelona, como cenário – único, diga-se de passagem, assim como única é a história que nele se conta. Eu já morei nessa cidade catalã, pela qual sou profundamente apaixonado, e sou testemunha da sua riqueza de recursos “multi” – culturais, étnicos, espaciais, temporais.

A história gira em torno de Uxbal, um pai de família, interpretado pelo extraordinário Javier Bardem, que vive de agenciar imigrantes ilegais, fazendo a ponte entre empresários (locais ou não, legais ou não) e a polícia. Tem dois filhos pequenos e é casado com uma doida: uma massagista que sofre de distúrbio bipolar, que já aprontou e continua a aprontar todas e mais algumas e que acaba por ser alguém totalmente incapaz de ajudá-lo a criar os dois rebentos. Além disso, é médium e, como se não bastasse, descobre que está com um câncer que já virou metástase (em outras palavras, está desenganado). É, contudo, um lutador, um ser que nos comove ao, como tantos, não entregar os pontos, mantendo em equilíbrio – e com toda a graça possível – os vários “pratos” que giram a partir de suas mãos, pés, testa, queixo e etc. – como que a provar o quanto que, nos dias de hoje, a “globalidade” está em cada um, que não adianta tocar um único instrumento, jogar numa única posição.

Mas Biutiful não é um irmão gêmeo de À procura da felicidade, filme relativamente recente (2006) de Gabriele Muccino (com Will Smith como pai incansável e herói): ele vai muito mais fundo na questão existencial (palavra meio antiga). Como? De várias maneiras, a primeira sendo a própria questão da morte, tema iñárrituano indiscutível  (vide 21 Gramas). A segunda passando pelo amor de Uxbal pela sua louca esposa e pela vida, pela sua desesperançada fidelidade a ambas. Elas o tratam mal e, ainda assim, ele as nutre, se preocupa, cuida delas, demonstrando uma força inesperada, que vai além do heróico e beira o animalesco, o instintivo.

Eu creio que Biutiful, antes de mais nada, é uma reflexão sobre o papel do homem, do macho, nos dias de hoje e, como tal, sucedâneo de uma temática que, em termos cinematográficos, começou com Marco Ferreri – muito particularmente com seu O futuro é mulher (1984), mas digamos que essa é uma temática por excelência desse genial cineasta italiano. Dois outros filmes de que me recordo se inserem nessa linhagem, sendo que um deles é bem recente e ainda está em cartaz em algumas cidades: O Jardineiro Fiel, de Fernando Meirelles (2005), e o eletrizante 72 Horas, do já referido Paul Haggis. Num período de quase 30 anos, entre Ferreri e Iñárritu, convenhamos, é bem pouco, para um tema vital – mas, de resto, acho que esse tem sido um tema esquecido por todo mundo, não só pelo cinema.

E, pensando justamente nessas três décadas, me volta à cabeça um insight que tive ao rever Biutiful – não é um procedimento usual meu, simplesmente tive um problema intestinal na primeira vez, que me obrigou a sair antes da metade do filme – e que se deu na cena em que a mãe dos meninos de Uxbal resolve aparecer no lar, se senta na mesa para jantar com eles e começa a contar, a duzentos por hora, uma história que tinha acabado de ouvir sobre um acidente de trânsito. Uxbal a interrompe bruscamente, mandando que se cale e que os deixe terminar a ceia em paz. Nesse instante, tive a nítida sensação de que se fazia ali uma referência a Almodóvar e às suas mulheres que falam pelos cotovelos. Por acaso não têm sido elas a dominar a cena nestes últimos trinta anos? Alguém, algum dia, tinha que conseguir detê-las e eu creio que esse alguém é Iñárritu.

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