Incontrolável (Unstoppable), de Tony Scott

FOME DE VIDA

Os irmãos Scott, Ridley e Tony, são dois cineastas de que gosto. São uma dupla inescapável do cinema dos nossos dias; uma dupla, contudo e ao contrário de outras duplas de irmãos (Taviani, Coen, Dardenne), que não filma em conjunto: cada um tem a sua própria filmografia, independente uma da do outro, apesar de ambos serem sócios na produção de tudo, na Scott Free Productions. Ridley talvez seja o que tem maior reconhecimento, já que é o autor de clássicos como Alien, o oitavo passageiro, Blade Runner, 1492, Telma e Louise, Gladiador e os mais recentes Cruzada e Robin Hood. Ele talvez seja o sucedâneo de Cecil B. De Mille , que apresentou às gerações anteriores à minha os grandes épicos – bíblicos e não – que  eram reprisados na Sessão da Tarde da Rede Globo, quando eu era criança. Ganhou até o titulo de Sir, pelo que reporta o IMDB. Mas, dentre os dois, já decidi, o que mais me agrada é mesmo o Tony, que está com o seu último filme, Incontrolável, em cartaz.

Essa minha predileção pelo mais jovem dos Scotts não se baseia no fato de ele ter dirigido o cult dos cults da minha geração, Fome de viver, com os dois ícones David Bowie e Catherine Deneuve – cult por cult, Ridley também tem Blade Runner, um senhor emblema dos anos ’80. A filmografia de Tony, assim como a de Ridley, é extensa e tem muita coisa que eu (ainda) não vi. Tem, também, pelo visto, algumas bobagens (mas posso estar enganado), como Top Gun – Ases indomáveis, com Tom Cruise. A predileção se baseia no fato de que em alguns de seus filmes, como é o caso deste Incontrolável, encontramos uma reflexão autêntica sobre os meandros do poder no mundo contemporâneo. E talvez mais do que isso: uma reflexão a respeito de como os poderosos se relacionam com o populacho, a grande maioria de pessoas comuns,  preocupadas cotidianamente com coisas outras, como seus familiares, sua profissão, sua dignidade pessoal. Não querendo puxar muito a sardinha pro meu lado, mas já puxando, eu diria que é a relação entre governantes e governados, um tema foucaultiano por excelência, o que se examina nesses filmes.

Inimigo do Estado, com Will Smith e Gene Hackman, é explícito a esse respeito ao focar um jovem advogado pai-de-família que passa a ser perseguido implacavelmente pelo que há de mais avançado em tecnologia de vigilância (com uso de satélites e tudo o mais) porque, acidentalmente, enquanto comprava uma lingerie para a sua esposa, um amigo seu, em fuga, esconde, em sua bolsa de compras, um disquete contendo a filmagem que ele fez, acidentalmente, do assassinato de um importante político por parte de um importante agente do Estado. É como se se mostrasse que existem dois mundos sobrepostos, que convivem pacificamente até que, por algum desígnio do acaso, ocorre uma espécie de curto-circuito: por um lado o Estado e seus agentes, seres frios e inescrupulosos, calculistas natos, que não dão a mínima para o sofrimento alheio, jactando-se (como diria Brizola) consigo mesmos e seu poder e sob a desculpa de estarem oferecendo “segurança”; por outro, como já disse, essa gente-como-a-gente e suas preocupações, que podem até ser mesquinhas (vide O seqüestro do metrô 123), mas que, no fundo, dizem respeito à vida, a como passar por ela com alguma elegância ou dignidade.

É evidente que Inimigo do Estado desenha uma situação limite: nem todo agente do Estado é o frio assassino desempenhado por Jon Voigt, e nem sempre os frios assassinos têm acesso a postos de tão alta envergadura. A questão parece ser mais o choque que há entre o quente mundo dos afetos e a frieza do “circuito” do poder. E o que Tony Scott tem de melhor, eu diria, é a capacidade de sintonizar, com extrema facilidade, esse primeiro mundo, bem como os recursos para mostrar o segundo, com toda a sua carga tecnológica, em operação. No que diz respeito à primeira, os diálogos rápidos, a sutileza da situação cênica que envolve o populacho são algo a se notar. O excelente Denzel Washington, ator que protagoniza não só este último filme de Scott, mas vários outros, parece ser uma peça chave na composição dessa fórmula. As tomadas aéreas, a rapidez da câmera, a sonoplastia e a fotografia que tende sempre ao estouro (vide Domino) são os elementos que nos levam a acreditar nas dimensões corretas dadas a esse frio e calculista mundo do poder, igualmente retratado nos seus filmes.

Incontrolável conta a história de um incidente que verdadeiramente ocorreu na Pensilvânia há alguns anos atrás. Um descuido fez com que um comboio da rede ferroviária, com uma carga altamente explosiva, partisse desgovernado e a toda velocidade rumo a uma cidade de 750 mil habitantes, onde certamente iria se descarrilar, devido a uma acentuada curva lá existente. Acionadas a equipe responsável pelo controle da rede e as autoridades maiores da empresa, medida atrás de medida é tomada, mas sempre de forma inócua, já que não se tem, nessa esfera, como mostra o filme, a vivência necessária para realizar, na rapidez necessária, os devidos cálculos: é somente quem tem o pulso de um comboio, quem trabalha nele no dia-a-dia (incluindo aí um fiscal engenheiro que nunca dirigiu um trem, mas que estudou o assunto e domina a sua condução na teoria), quem consegue armar a estratégia correta e tomar as decisões corretas nos milésimos de segundos disponíveis. Uma questão de “precisão”, termina enfatizando um dos heróis; uma precisão que deriva da proximidade, parece dizer Scott. E eis que atingimos, num filme que tudo indica ser mais um corriqueiro filme de ação, questões que dizem respeito à política, à “precisão” (agora num sentido de necessidade) ou não de certas estruturas de poder, de certos controles que de nada servem (a não ser à auto-perpetuacão).

Em tempos de tragédias como a que acaba de acontecer na região serrana do Rio de Janeiro – onde é flagrante a responsabilidade dos governantes – e em tempos de montagem de novos governos e novas legislaturas em diversos níveis Brasil afora – quando se discutem estruturas de governo e ocupação de cargos –, eu diria que a obra de Tony Scott – em particular esse Incontrolável –  pode ser uma contribuição valiosa. Talvez exista uma alternativa à incontrolável sede de poder que muitos dos nossos governantes têm evidenciado ao longo de toda a nossa história – e na recente história política do Distrito Federal, é bom lembrar. Talvez existam outras formas, mais sensatas e mais justas de realizar essa eterna relação entre governantes e governados, fazendo com que a luta cotidiana de todos nós não esteja tão sujeita aos riscos que derivam de irresponsáveis e de oportunistas de plantão. Talvez exista uma outra matemática, para além dessa que os governantes mundo afora têm usado até o presente.

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Tsai Ming-Liang, o homem do tempo

UMA TEMPORADA NA ÁSIA

Estou a meio caminho de um tsunami do bem que, saído da longínqua Malásia, inundou os CCBB’s do Rio, São Paulo e, agora, Brasília (até o dia 19). Trata-se da mostra “Tsai Ming-Liang: o homem do tempo”, que trouxe pro Brasil mais de uma dezena de filmes inéditos desse cineasta malaio, ganhador de alguns importantes festivais internacionais e personagem, até então, desconhecido para mim – foi a indicação de um amigo, professor de cinema e cineasta radicado no Rio, que me levou até ele. Até o momento, vi quatro dos seus longas, um curta para a TV e um making-of a seu respeito e pretendo ver tudo o que for possível até o último dia, lamentando ter perdido o debate que ocorreu com a presença do próprio, logo no segundo dia da mostra.

O termo tsunami tem sua justificativa para além da procedência asiática de Ming-Liang. Em certo sentido, toda mostra de filmes, em que o corpo da obra de um cineasta nos é exposto para que percorramos a sua anatomia, quando se trata de um mestre, tende a varrer conosco, a nos deixar, no mínimo, de alma lavada. No caso dos filmes desse cineasta, os elementos temporais, relativos ao clima – e principalmente às águas, quase onipresentes – dão uma segunda justificativa para essa sensação de maremoto, fato esse, inclusive, que foi prontamente percebido pelos críticos e curadores da mostra, que brincaram, ao lhe dar um título, com a ambigüidade da palavra “tempo” no Português – a subversão do tempo narrativo (cronológico) nos filmes de Ming-Liang é também uma onipresença, ao que tudo indica.

Até o momento, assisti, dentre os longas, do mais antigo (Rebeldes do deus neon)  ao mais recente (Faces), passando por dois intermediários (Sabor de melancia e Não quero dormir sozinho) e me sinto em condições de afirmar que seguir o itinerário de Ming-Liang é acompanhar uma história real de encontro radiante entre um sujeito criativo, um gênio, e uma ferramenta de expressão, que é o cinema.

Creio que a palavra sujeito, que uso para me referir ao cineasta, é bastante apropriada. Com isso, não quero dizer que os filmes de Ming-Liang sejam desses filmes absolutamente pessoais, em que a personalidade do autor se deixa evidenciar a cada instante, como se fosse o elemento, o mais importante (Godard e Fellini são um pouco isso).  Talvez, uma parte da crítica se deixe levar por essa capacidade que ele tem de impor o seu ritmo à narrativa, o seu arfar nada acossado, e veja seus filmes como a expressão de uma personalidade assim ou assado – em algum lugar li algo a respeito de homossexualidade, uma chave de leitura extremamente equivocada, me parece, bastante alheia ao que os filmes mostram.

A genialidade dos filmes de Ming-Liang creio eu que reside justamente na capacidade que eles têm de retratar a realidade de um contexto social, um mundo, o mundo Ásia, com sua comida, sua roupa, seu corre-corre, sua solidão,  sua engenharia, seu suor, sua água, suas secreções. Seus filmes contam muito com o enquadramento, uma arte que diz respeito a pintores e fotógrafos, seres por natureza apaixonados por realidade, pelas coisas que se vêem, que aí estão. Ocorre, contudo, que, em meio a tudo isso que se vê, há o homem, há sujeitos; sujeitos que pouco falam e que pouco variam (Ming-Liang utiliza sempre os mesmos atores, dentre os quais o principal é o plástico e excelente Lee Kang-Cheng), mas que estão lá, vivos, desejosos uns dos outros e portadores da mais pueril fantasia, sempre expressa por meio do canto, da música cantada, quase à la karaokê, e da dança, em parênteses inacreditáveis.

Ming-Liang conseguiu, mundo afora, fazer um nome, virou uma marca, uma força fílmica. Creio que somente assim se possa entender esse último filme dele, Faces (Visages no original, em Francês), filmado em Paris e contando com um forte time de astros eternos do cinema francês (Fanny Ardant, Jean-Pierre Léaud, Jeanne Morreau, Nathalie Baye e o mais recente Mathieu Amalric, além da belíssima Laetitia Casta).  A trama desse filme gira em torno de um filme que está sendo realizado e cujo diretor é quem? Claro, ninguém menos que Lee Kang-Cheng, que não é o único da velha equipe a aparecer e contracenar com o time europeu. “C`est bizarre, c’est très bizarre” diz Ardant a Léaud, a certa altura, no camarim do set, um set, de fato, bizarro, com um alce que some, uma neve que cai, um diretor que não dirige e nem sequer aparece pro jantar com as estrelas francesas e um cenário subterrâneo, que logo descobrimos serem os esgotos do Louvre. Poderia ser diferente, em se tratando de Ming-Liang? Claro que não: ele chegou a Paris com o seu protocolo, que não deixa de incluir a água a esguichar, irrefreável, já numa das cenas iniciais.

Dois mundos cinematográficos se encontram nesses filme, se olham, numa das cenas mais marcantes, um no olho do outro,  pegam um no sexo do outro e partem para o sexo oral, só interrompido por um celular a tocar, a câmara sempre a registrar somente os rostos. É o mundo, mais uma vez, sendo descrito; mas, e os sujeitos? Bom, aqui o sujeito é um só, Ming-Liang, que aparece filmando, de relance, rapidamente, na forma de uma sombra, na parede do esgoto dentro do qual a bela Laetitia avança, cantando uma música oriental. Oniria despudorada e absolutamente coerente com a trajetória que conduziu Ming-Liang à Meca cinematográfica mundial.

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Os Residentes, de Tiago Mata Machado

SOMOS TODOS RESIDENTES (DA TERRA?)

Todo ano, feito essas flores que florescem durante somente uma semana ou um dia, acontece de o melhor cinema do Brasil, o Cine Brasília, sofrer uma transformação que dura quase uma semana: uma porta invisível se abre no grande paredão do seu saguão e uma praça de alimentação logo se lhe acopla, o conjunto tornando-se uma grande passarela por onde desfilam personagens os mais esdrúxulos, ávidos por ver e serem vistos. É o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que, este ano, está na sua 43ª edição.

Não pretendo acompanhá-lo. Fui ver apenas o filme de um amigo e teria ido ver o de um outro, caso tivesse tido tempo. Ambos concorrem, em categorias menores. Há chances para todos e o que acontece ao longo da semana (e que não se limita ao que acontece no Cine Brasília) é uma grande oportunidade de nos colocarmos a par do estado das coisas no cinema brasileiro – e brasiliense, já que há prêmios específicos para os filmes daqui. O meu problema é uma questão de método: vou ao cinema pelo sentimento de que posso, de fato, ver algo bom; não gosto de perder meu tempo e o simples prazer de ver e ser visto não me puxa, na maior parte das vezes, para esse ou qualquer outro evento (estou ficando velho).

Pois bem, ocorreu de ser uma sexta-feira, de ter visto rapidamente uma chamada no jornal indicando para um filme diferente – tinha uma foto que já revelava uma boa fotografia – e eu acabei tendo a imensa sorte de ter ido ver Os residentes de Tiago Mata Machado.

Na apresentação do filme, quando ocorre que a equipe que o realizou sobe ao palco do Brasília e o diretor dá uma palha a respeito do que irá se ver e apresenta os seus companheiros de viagem, um sujeito, magro e jovem, o diretor Mata Machado, toma o microfone e proclama que não irá apresentar a equipe, já que ela assim deliberou segundos antes de subir (eram uns seis ou sete, também magros e também, quase todos, jovens) e que o cinema brasileiro está precisando de oxigênio. Logo, um outro, da equipe, segue-lhe no diverso e aponta para termos como excesso e invenção, ambos os expositores revelando uma segurança e uma assertividade raras a quem sobe naquele palco, principalmente se oriundo das Gerais.

Os residentes tem uma trama simples, que gira em torno de um grupo que se interna numa casa para resolver questões em comum. Sim, nada de novo, principalmente em tempos de BBB (ouvi de um amigo que ele achou, ao ler a respeito, que era disso que se tratava), só que a questão em comum é a questão da arte. São, todos, artistas, são, todos, iguais àqueles seis ou sete que subiram ao palco e não quiseram ser apresentados – claro, evidente, para quê apresentar se o que eles são e o que eles pensam iria ser revelado ao longo das próximas duas horas?

O que posso dizer é que a promessa de oxigênio se cumpre plenamente. O filme, é claro, é experimental, se insere naquela vasta linhagem de filmes brasileiros que se propõem a reflexão e não a diversão – e que, portanto, não orbitam em torno de grandes somas de dinheiro. Experimental, porém não desprovido de qualidade técnica (ótima fotografia, som, atuação), eis um primeiro ponto. Mas somente isso seria muito pouco, não seguraria ninguém, não me seguraria certamente, se não houvesse, em meio a essa excelência técnica, a mais pura ousadia e doses cavalares de criatividade.

Eu acho que festivais são interessantes porque, de fato, oxigenam: há boas produções em meio a uma vastidão de porcaria e a exibição disso tudo, principalmente no mundo dos curtas, acaba por mexer com quem com isso mexe. Assistir a dois curtas antes do longa, nas sessões da mostra principal, por exemplo, já é um exercício diferente, de comparação, de vislumbre das enormes, quase infinitas possibilidades que essa arte (a sétima, dizem) oferece. Pois bem, ocorre que, se bons curtas de fato oxigenam, é muito raro que alguém tome para si – ou tenha o talento para tal – a responsabilidade de dizer algo de absolutamente novo num longa. Sim, há os gênios, Glauberes, Bressanes, mas, fora eles – e fora José Padilha, que não é propriamente experimental – há tempos não aparecia alguém com essa capacidade.

Se há algum ponto de encontro com alguma outra proposta fílmica nesse Residentes, eu diria que esse encontro é com um dos filmes que mais me tocou na vida, que é O exílio de Gardel, de Fernando Solanas, que trata de um grupo de exilados argentinos, músicos e bailarinos e da(s) sua(s) angústia(s), que passa pelo político, pela distância em relação ao seu “chão”, mas que, no fundo, é existencial. E ponto, porque de resto o filme de Mata Machado não tem referência outra encontrável, é novo no mais amplo sentido da palavra (é do “verbo” novo, como diriam alguns chilenos engraçados).

Residentes provavelmente nunca entrará no circuito comercial. Provavelmente, os leitores desta despretensiosa crítica que vierem a se interessar em vê-lo terão alguma dificuldade em conseguir vê-lo. Às massas pouco interessa sentar para acompanhar, durante duas horas, a exploração, por parte de um grupo de artistas, das profundezas do ato de criar, das profundezas do sentimento, da crença na transformação por meio daquilo que é autêntico, belo e livre. Artistas podem ser imensamente chatos, podem se deixar levar, diante de uma câmera (ou sem câmera nenhuma), pelo próprio ego, mas eis que o diretor Mata Machado cumpriu bem o seu papel (um deles) e não deixou que, em momento algum, isso acontecesse. São artistas, sem dúvida, que estão lá na tela; e não são nada chatos.

Por último, cabe uma menção a um dos curtas que precedeu Os residentes: Braxília de Danyella Proença, sobre a poesia de Nicholas Behr, famoso poeta brasiliense. Foi uma feliz sincronicidade – não sei se proposital, por parte dos organizadores do festival – o fato termos tido, com esse alegre curta brasiliense, um aperitivo tão propício (e tão em sintonia) para essa lição que foi o filme mineiro. Surpreendente a coincidência entre as cenas em que Nicholas escava, com as mãos, o solo da cidade e as diversas cenas em que os protagonistas de Residentes lidam com esse mesmo elemento – especialmente, aquela, genial, em que um caminhão-caçamba “suga” o monte de terra na qual um das mulheres do grupo realizou uma das suas catarses. Surpreendente a coincidência de uma citação de Nicholas, de Rilke, que diz que somos todos exilados de nossas infâncias e o espírito desejante, ao máximo volume, desse filme pelo qual torço com toda a minha fé.

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O que é orgânico e o que não é

UM ENCONTRO INESPERADO

Aconteceu algo inesperado na vida deste “projeto” de crítico de cinema: o outro dia fui convidado por um amigo à pré-estréia de um longa metragem no qual ele era o responsável pela música, fui, não gostei do filme e, por fim, aconteceu de me encontrar com o cineasta, algumas semanas depois, na casa desse meu amigo, que fazia aniversário. Um sujeito jovem, simpático e muitíssimo aberto que transbordava empolgação com esse que era o seu primeiro longa. Iniciamos uma conversa e eu, que poderia ter ficado quieto ouvindo-o falar da sua realização, não agüentei e lhe disse que tinha visto o filme, o que provocou a sua imediata reação de querer saber, com toda a sinceridade, a minha opinião…

Está aí, de fato, uma coisa engraçada, um bom teste, no mínimo, nesta minha breve carreira: na única oportunidade que já tive na vida de estar cara-a-cara com um cineasta (digo alguém que tenha produzido um longa, com uma ampla comercialização nacional e muito dinheiro envolvido na história) e, mais ainda, de tê-lo justamente a me perguntar sobre o que eu achei do seu filme, eis que eu nada tinha a lhe dizer que pudesse lhe agradar. Fiz o meu melhor na ocasião, puxando dos elementos factuais envolvidos na concretização de algo tão complexo como um longa, principalmente no contexto do esquálido cinema feito em Brasília. Colocando a coisa sob esse prisma, acreditei ter conseguido, momentaneamente, evitar um estremecimento social – uma zona muito difícil para mim, que não sou, em nada, diplomático. Tudo teria corrido “bem” se não fosse por dois pequenos detalhes: 1) eu não tive como deixar de dizer que o seu filme era pouco “orgânico” e 2) o cineasta não é nenhum idiota para não ter percebido a minha esquiva.

Pois bem, chega-se ao momento em que cabe a pergunta: e o que é que me levou a escrever, aqui, a respeito desse episódio? Querido leitor, acredite ou não, foi o email que, há pouco e de forma inesperada, recebi do cineasta, em tom amistoso e de colaboração, no qual solicita que eu lhe envie o que venha a escrever a respeito do seu filme, caso venha (eu lhe disse, na ocasião, que eu tinha este blog e esta mania de escrever sobre filmes).

Eu não tinha em absoluto, a intenção de escrever a respeito de Federal, pelo simples fato de que estabeleci como regra (talvez a única), para este espaço, a de só escrever a respeito de coisas que me entusiasmem ou que tenham me entusiasmado. Mas, duas coisas, novamente, me fizeram fugir dessa deliberação: 1) a extrema coragem de um jovem artista em se defrontar com o adverso e 2) o fato de esse artista, o Erik de Castro, afirmar, em seu email, que o valor que ele mais preza num produto artístico é a sua organicidade, justamente o que eu disse não ter visto no seu filme. O primeiro desses pontos me abastece desse combustível para esta escrita, que é a admiração. O segundo, me dá o tema para seguir nesta minha crônica, tal qual um equilibrista que ainda tem metade da corda bamba para deslizar por sobre.

Eu começaria repetindo o que outros já disseram, que Federal tem o infortúnio de ter sido lançado em quase concomitância ao sublime Tropa de Elite 2 (sobre o qual escrevi no meu penúltimo post): os dois têm uma temática muito parecida, ainda que a ambientação seja outra (Brasília, sua bandidagem e seus policiais, no caso do primeiro). Mas isso não encerra e nem poderia encerrar o assunto. A questão é: onde está a organicidade de uma obra? Quanto a isso, eu nunca pensei, nem quando vi, nem quando escrevi a respeito de Tropa 2, que ele tivesse a virtude de ser “orgânico”. Hoje, contudo, depois de ter visto Federal, eu entendo que a organicidade de Tropa existe, sim, e ela reside, na minha opinião, no fato de que, nele, se percebe que não são somente os policiais e bandidos que aparecem na tela os que vivem entre a vida e a morte, mas é o próprio diretor do filme que, se não tivesse para si e, principalmente, para o seu filme, o rigor da perfeição, teria, provavelmente, morrido. Orgânico, nesse sentido, me parece ser todo produto no qual se jogam todas as fichas, se queimam todos os navios, algo que nasce do corpo, que está no corpo e do qual só nos livramos caso nos matem ou caso morramos ou, então, caso o gravemos, o inscrevamos, em algum lugar. Não conheço nada do processo criativo de Padilha (como passei a conhecer, pela conversa que tivemos, o de Castro), mas fica evidente que cada fotograma do seu filme carrega consigo uma tensão que só pode ser a tensão de alguém que estampa uma assinatura, a sua assinatura, em algo – no caso, o celulóide. Talvez seja isso o que lhe permite dizer alguma coisa em relação a uma “realidade” que é, também, a do espectador; comunicar, enfim, “mandar (bem)” o recado, como se diz nos dias atuais.

O filme de Castro, por sua vez, carece da amarração da assinatura ao longo de toda a sua extensão, como se o seu diretor estivesse e não estivesse lá, ao mesmo tempo. Há uma preocupação em tematizar a vida dos quatro federais, uma preocupação “subjetivadora”, que o tornaria diferente de outros filmes “de ação”; essa preocupação, contudo, pode (e foi, no caso de Tropa) ser facilmente atendida com a introdução da voz de um (ou mais) narrador(es). Caso fosse um filme “de arte”, mais experimental, o filme poderia nem usar desse recurso, para investir mais profundamente no subjetivo, deixando a ação no plano da simples sugestão (são tantos os recursos do cinema, tão amplas as possibilidades); mas a pretensão parece ter sido maior, mesclando o subjetivo com a ação. Acaba que não “fecha” nem pra um lado, nem pro outro, quer agradar a gregos e a troianos, não assina. E, assim, as coisas se sucedem, entre perseguições, trocas de tiros e sexo, em cenas que resultam de um visível esmero por parte de toda a equipe, mas que têm o gosto de mera ilustração* e não de coisa “real”; como se o principal estivesse, sempre, na idéia e não no resultado, que é o entrecruzamento, concreto, entre luz, câmera, ação e som. Talvez, a diferença a que os músicos chamam à atenção que existe entre música e som – e quanto a essa, eu diria, sem ser músico, que é somente pelo segundo que se “morre” quando ele não sai conforme se quer.

Acima, falei de uma autêntica saia justa, de temidos possíveis estremecimentos, dificuldades e até mesmo de infortúnio, palavras graves que contrastam sobremaneira com a cordialidade e a deferência de Erik de Castro para comigo. Quero terminar dizendo que também contrastam com o sentimento que ora me toma, de ter tido a imensa sorte de ter feito contato com a sua pessoa e com a sua obra, que está só começando (ele já dirigiu o curta Senta a pua, que ainda não vi) e com a qual espero, em algum momento, vir a contribuir, de um jeito ou de outro. Nós, críticos, descubro, talvez não passemos de cineastas frustrados, como todos dizem – eu bem que tive meus arroubos em Super-8 – e, assim, também fazemos parte da esqualidez do cinema made in onde quer que estejamos, não contribuímos em nada (ou quase nada) para a sua robustez. Federal, ao contrário, sim: é um passo grande que o cinema local dá, tendo lançado seus tentáculos em diversas direções, conseguido aglutinar e arregimentar forças que aí estão, dentro e fora da cidade, prontas para serem usadas. É, se formos ser sinceros com a nossa história e com a nossa própria organicidade, um feito e tanto.

E para encerrar, se me coubesse de dar um conselho ao Erik, esse seria o de deixar essa coisa de diplomacia para nós, críticos; e mandar, sempre, muita bala no espectador (e nem tanta nos personagens).


* Eis aí uma palavra perante a qual eu me espantei quando me chegou o outro dia, pois havia tempo em que não a ouvia sendo usada. Foi o grande Aluizio Mendes Campos, tio de minha mulher, que a usou, afirmando, quando indagado a respeito de si, que a sua cabeça está (isso é pura verdade) “ótima”, mas que o corpo é mera “ilustração”.

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A tese virou um livro

Já está disponível, pela editora CRV, “Uma relação sempre atual: a liberdade recalcitrante de Michel Foucault”, por Andrés Rodríguez Ibarra. O endereço é  http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3097 .

capainteira

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Tropa de Elite 2, de José Padilha

DE CAPITÃO A CORONEL

José Padilha irrompeu a cena pública com o seu Tropa de Elite há coisa de uns três anos. Foi um bafafá danado – e não só por conta das cópias piratas que vazaram antes do lançamento do filme –; a obra incomodava ao nos colocar em meio ao debate candente sobre o Rio de Janeiro e a sua geopolítica, apresentando um anti-herói, o Capitão Nascimento, policial do BOPE, com um discurso fascista, mas que tinha lá um certo quê de razão! Também, o discurso dos direitos humanos, esse a que a maioria de nós nos apegamos, recebia uma boa chamuscada, aparecendo como um blá-blá-blá conveniente, na medida em que as dimensões do buraco carioca se descortinavam. Onde está a razão, quando o dia-a-dia dos agentes de segurança do Estado é mostrado no imediatismo do agir, no curtíssimo espaço de tempo que transcorre entre o puxar um gatilho ou não? O filme de Padilha balançou a muitos.

Agora, temos a continuação, que inicia com um flashback para o começo da trajetória que levou Nascimento, já coronel, ao cargo de chefe da inteligência da Secretaria de Segurança do Estado. O drama é o mesmo: atira-se ou não, numa rebelião de presos de segurança máxima, numa situação que já estava “sob controle”? A razão diz não, mas o sangue que ferve é o do policial BOPE que, sim, foi treinado, etc., etc., mas que acaba por fazer besteira. De novo, temos o drama de Nascimento, que, assim como na versão primeira, é o narrador do filme: ser ou não ser? O BOPE e a sua caveirice é mesmo uma saída?

Sim, diz Nascimento; e a sua ascensão por linhas tortas se lhe apresenta como a oportunidade para fortalecer essa corporação da qual ele extrai a sua identidade. Mas eis que a realidade, agora, também, se lhe apresenta com toda a sua crueza, o big picture resolve cair da parede e na cabeça de Nascimento, sob a forma das milícias, compostas por elementos que são parentes próximos, primos ou irmãos do valente e, até então, (candidato a) salvador, BOPE. A família segurança, descobre ele, não presta e o próprio Estado se revela tão ou mais nocivo que os bandidos a serem combatidos, tornando evidente uma desconfiança que o primeiro Tropa já suscitara em mim: trata-se de “Tropa de elite” ou de “Tropa da elite”?

A queda na real do coronel é brutal e talvez fosse fatal se não existisse um outro fator novo nesta sequência: a existência de um político sério. Herdeiro do foucaultismo que já aparecia no primeiro Tropa, temos agora um professor universitário que “cola” em Nascimento por vias paralelas (é o padrasto do seu filho) e que, como ele, recebe uma “promoção”, só que a deputado estadual. É, no início, uma espécie de sombra do nosso capitão, aparece-lhe, como se diz, “até na sopa”. Mas eis que essa sombra chata, essa antítese do nosso já familiar anti-herói, acaba por ter um papel de tábua de salvação.

Tropa de Elite 2 é um show de cinema, como já escreveu Gustavo Dahl numa crítica na Folha de São Paulo – ele disse, mais precisamente, que o filme “salva o cinema brasileiro da irrelevância”, e eu tendo a concordar com ele –, mas isso se deve não somente ao seu apuro técnico, ao seu acerto nos diálogos, no ritmo, nas escolhas dos planos, dos atores, etc.: se deve, também, ao reconhecimento de que há – ou pode haver –  vida decente, ainda que mínima, em meio à política. Essa é uma constatação fundamental, que a pressa das maiorias, dos que se vêem eternamente como  injustiçados, tende a escamotear.

É tão fácil condenar, jogar a todo e qualquer um que entra no jogo da representação dos interesses coletivos na vala comum da indecência e da esperteza… Como se não houvesse matizes e como se não fôssemos, todos, humanos, às vezes, aqui e acolá, sujeitos a pequenos deslizes, a ceder a pequenas tentações. Requer-se dos políticos a perfeição que ninguém, por sua vez, é capaz de suportar para si mesmo, de ver implantada em sua própria vida. E o que é que acaba acontecendo com essa presunção irrestrita de culpa? Que quando surge alguém realmente sério, capaz, puro, em suma, alguém bom, isso passa desapercebido, em meio a brancas (ou pretas) nuvens, o que só beneficia aos políticos corruptos.

Um amigo meu que morou um tempo no exterior e que gosta de cinema se espanta e se chateia com o fato de o cinema brasileiro só tratar, na sua visão, do tema violência. Não tenho muito o quê contra-argumentar, a não ser o fato de que a questão, o incômodo, talvez não seja tanto o excesso de violência, mas a falta de heróis no nosso cinema. Talvez, um cinema sem heróis seja, de fato, um cinema irrelevante – e eis que Padilha, depois de ter buscado, feito um espermatozóide, desesperada e infrutíferamente, por um, no primeiro filme, conseguiu uma dupla fecundação, neste segundo.

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A Origem (Inception)

TRÊS EM UM

Ao Ricardão Schmitt

Assisti ao filme Origem (Inception) de Christopher Nolan, por sugestão de um amigo meu, que é publicitário, mora em Curitiba e também flerta com o cinema. Anteriormente, um outro amigo, recém chegado do exterior, havia comentado sobre o seu sucesso lá fora, a sua novidade inconteste, o que já havia atiçado a minha curiosidade. Na hora de comprar o ingresso, no cartaz do filme, li que Nolan é o mesmo diretor do último Batman (na verdade dos dois últimos, pelo  que leio no Imdb), O cavaleiro das trevas, que me impressionou pela rapidez da sua linguagem e pela carga psicológica dos personagens, que parece ter devolvido à história do homem-morcego a sua complexidade original, de quando ainda era uma HQ. Em outras palavras, entrei no cinema com uma expectativa boa.

Sem dúvida, trata-se de um filme instigante. Tem um roteiro excelente, que mistura um elemento que costuma dar bons sambas nas salas de cinema a uma idéia genial e a um tema psicológico bastante atual. Três em um! Complexidade que remete ao clímax do filme, quando, devido ao desenrolar da trama, temos algo como três filmes acontecendo simultaneamente e em co-dependência diante de nós, numa demonstração impressionante de como arquitetar uma narrativa. Filme de arquiteto.

Mas  voltemos aos três componentes, não da trama, mas do próprio filme. O primeiro, para mim, é um que, por si só já me faz gostar de um filme: o tema da montagem de uma equipe de especialistas, em que cada um tem uma função bem definida e em que um depende de todos e vice-versa, para o objetivo comum ser atingido. De Doze homens e um destino, a Missão impossível, passando por Matrix e tantos, centenas de outros, eis aí um ingrediente que, por si só, me apraz e, geralmente, me sacia quando o assunto é filme. Talvez esteja aí um dos meus “fracos”.

O segundo elemento é a idéia (principal) do filme de que existe uma arte que é a de plantar idéias nas cabeças das pessoas e de que ela funciona no momento em que elas dormem, ou seja, no subconsciente. Ora: idéias, quem de nós, intelectuais, no sentido mais prosaico do termo, não trabalha com elas? E quem é que, mexendo com idéias, não sabe do poder que elas têm, tal como ensina, ainda bem no comecinho do filme, o seu protagonista? Ao tematizar essa “arte”, fictícia, Origem, nos coloca, de fato, em meio a um mundo que nos é muito familiar e do qual o próprio cinema não está nada distante: o mundo dos assim-chamados mídia, um universo que não é feito senão de idéias, idéias que querem aparecer, ser ouvidas, penetrar nas cabeças.

Ultimamente, devido a uma das várias atividades nas quais estou envolvido, tenho tido um contato maior com a questão da publicidade. Faço parte de uma equipe que vem tentando emplacar uma idéia que visa transformar uma determinada realidade social. Tendo os recursos, temos investido pesadamente em propagandear a nossa proposta; e temos visto e sentido, na pele, o quanto é difícil. É o que justifica a existência de profissionais voltados para isso, profissionais que ganham, às vezes, somas extraordinárias, porque “sabem” como convencer as pessoas – ou, pelo menos, dispõem dos recursos, ou dominam os recursos para tal. Pois bem, a trama de Origem gira justamente em torno disso, da venda de uma idéia; e eu diria, então, que se trata de um filme sobre o universo dos mídia. Filme de publicitário.

Por último, a questão psicológica: o que acontece quando você consegue vender uma idéia? Quando você tem sucesso, ou melhor, quando se faz sucesso? Fazer sucesso, isto é: entrar na mídia; e o que é que disso decorre? No filme, o protagonista é alguém que, mestre nessa arte de plantar idéias nas cabeças alheias, obteve sucesso; mas foi justamente por ter tido esse sucesso, por ter conseguido “chegar lá”, que os seus problemas começaram, vamos descobrindo ao longo da narrativa, quando o passado se descortina. Uma idéia é algo virulento, poderoso, que, quando se fixa – e dependendo da forma como se fixa –, pode levar à loucura, pode nos fazer perder a noção do que é o real; e Origem tematiza isso também: quando se entra nesse mundo, dos mídia ou dos sonhos alheios, é necessário levar consigo, sempre, um amuleto, algo que nos lembre do nosso chão; caso contrario, podemos nunca mais voltar. O sucesso, isso causa, ou pode causar, imenso sofrimento. Mas isso eu deixo para um verdadeiro especialista: o psicanalista Jorge Forbes, que ataca a questão em http://www.jorgeforbes.com.br/br/artigos/o_futebol_dos_mascarados_estadao_jorge_forbes.html. Filme de analista. (E digo, para encerrar, que se há um responsável por muito do que se trata aqui nesta balbúrdia, esse é precisamente esse distinto cidadão.)

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O Último Mestre do Ar

O EXTERNO E O QUE É BÁSICO: A MARCA DE SHYAMALAN

Sempre achei que o cineasta M. Night Shyamalan fosse um senhor mais velho, um desses indianos com cabelos brancos e panças que se deixam entrever nas roupas folgadas e, geralmente, brancas. Julgava que ele tivesse começado a sua carreira na Índia e feito sucesso na América e em Hollywood somente num momento posterior, tal como aconteceu com Ang Lee ao sair de Taiwan. Mas tive uma surpresa grande ao ler há algumas semanas uma reportagem a seu respeito, na revista Serafina da Folha de São Paulo. Trata-se de um jovem de 40 anos de idade que, filho de pais indianos e tendo ele próprio nascido nesse país do Oriente, mudou-se ainda pequeno para os EUA, acompanhando seus pais, e lá cresceu e se formou; e lá reside, feliz da vida, na Filadélfia.

A reportagem tinha seu motivo no fato de Shyamalan estar lançando o seu último filme, O último mestre do ar, ao qual assisti ontem, e apontava para o fato de, nas bilheterias, a trajetória desse cineasta ser irregular, com dois hits (O sexto sentido e Sinais), quatro desempenhos medianos e um quase fiasco (A dama na água), ficando só nos filmes pós primeiro grande estouro (precisamente o maior de todos, que foi O sexto sentido, ao qual não assisti). A expectativa em torno de O último mestre… era grande por parte do cineasta, já que a previsão é a de que seja o primeiro componente de uma trilogia que, por sua vez, só se tornará realidade se esse passo inicial conseguir render bons lucros aos estúdios que o financiaram.

Surpresas à parte, trata-se de um cineasta de quem gosto porque vejo na sua obra algo como um recado, único, que sempre tem a capacidade de tocar pelo inusitado do seu aspecto (e não pelo seu aspecto inusitado). O aspecto são os seres extra-terrestres (Sinais), a ninfa (A dama…) , os suicídios em massa (Fim dos tempos), a realidade dos monstros das lendas infantis (A vila), que sempre vêm para dizer coisas sobre o cotidiano de pessoas simples que vivem um dia-a-dia normal, nas suas propriedades rurais, seus condomínios urbanos, suas cidades grandes e seus pequenos vilarejos. E as coisas que são ditas a esse respeito sempre são sutis mensagens que apontam para algo espiritual: a fé, o medo, a sintonia cósmica. Shyamalan não tem pudores quanto a jogar com o que está ou pode estar além, mas sempre para mostrar facetas do que está no interior de cada um de nós, humanos.

Comecei a me surpreender com O último mestre… antes mesmo do filme começar, ao constatar que o público da sala de cinema era um público bem mais jovem do que o esperado. Vieram os trailers, o último Harry Potter e a refilmagem de Karate Kid, e uma pequena luz de desconfiança se acendeu dentro de mim, ficando acesa até o fim da sessão: será que, como outros cineastas de sucesso em Hollywood, Shyamalan também tem o seu lado inescrupuloso e esse Mestre, jovem e bom nas artes marciais, não passa de uma tentativa a mais de alvejar comercialmente o público infanto-juvenil, esse mesmo público que vai ver os filmes anunciados nos trailers? Será que vou ter que dar desconto atrás de desconto a esta versão cinematográfica de um desenho animado do canal de TV a cabo Nickelodeon? Ter lembrado que Shyamalan foi o diretor de um outro infantil, o engraçado Stuart little, lembrança essa posterior diga-se de passagem, poderia ter acrescido mais carga a esses temores.

O fato é que esse último Shyamalan, no final das contas, não me decepcionou. Tem, sim, todos os elementos que os filmes dos trailers também devem ter, poderes que estão além do corriqueiro, cenas de arte marcial… mas tem, também, aquela qualidade especial desses outros filmes que eu admiro desse cineasta: essa relação que se estabelece entre um além, espiritual, e um presente.

Só que o presente, no caso, é um futuro, fantástico, onde os povos que habitam a terra estão divididos de acordo com o elemento, dentre os  quatro elementos básicos que existem, que eles dominam. O mestre do ar, no caso, é um garoto carequinha e de olhar terno que, conforme reza o desenho animado que inspirou o filme, possui a capacidade de aglutinar esses quatro domínios e, assim, re-estabelecer, enquanto “Avatar”, um equilíbrio que se encontra ameaçado pela sanha de um desses povos, os dominadores do fogo. Nas (belíssimas) danças que ele sabe e nas que vai aprendendo ao longo do filme, ar, terra e água são acionados a fim de enfrentar os perigos desse último elemento, mas não sem que estejam atrelados aos espíritos que estão, como todos esses “extras” dos seus outros filmes, além: os espíritos da lua e do mar, por exemplo. São eles que ajudam a que possamos nos relacionar com o que está à nossa volta, com o que é mais básico, mais simples, nossos vizinhos, nossos familiares, a natureza, mas que tendemos a querer complicar.

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À Prova de Morte (Death Proof)

A VIOLÊNCIA TARANTINA

Fui ver o que eu achava que fosse o último filme do Quentin Tarantino, À prova de morte (Death Proof), sem saber que ele, de fato, é anterior a Bastardos inglórios. Tampouco sabia que se tratava do segundo elemento de um díptico do diretor com o cineasta Robert Rodríguez dedicado a homenagear a estética de filmes de baixo custo produzidos nos anos ’70 e exibidos em drive-in’s. O importante, contudo, é que se trata de um filme de Tarantino – Rodríguez, leio na ficha do filme, está na produção, mas a assinatura de tudo é mesmo do velho Quentin –, cineasta que já me provocou uma das sensações, de deleite, mais marcantes, com o seu Kill Bill vol. I, que eu já tive em toda a minha vida. A pergunta, era, então: será que ele conseguiria, novamente, algo parecido?

Filme de Tarantino parece ser sempre uma surpresa. Bastardos é genial já desde o seu começo, quando o rústico fazendeiro francês vê os nazistas se aproximando e acaba deixando que um deles, o refinado e poliglota coronel que chefia a inspeção de caça a uma família judaica, adentre a sua casa e realize o seu inquérito. Tudo leva a crer, desde o momento em que o fazendeiro finca o seu machado no tronco de árvore para, então, ir atender aos nazistas, que uma carnificina tarantiniana iria ter lugar, com o robusto fazendeiro arrebentando com o grupo de nazistas, a começar pelo refinado coronel. Mas, surpreendentemente, a inteligência do coronel, revelada ao longo do inquérito, acaba por promover justamente o contrário: ele consegue arrancar do fazendeiro, em lágrimas, a confissão e a localização exata da família judia escondida sob o assoalho da sala, onde os dois conversavam. Detalhe: sem ter levantado um dedo sequer, só por meio das palavras!

A violência, sim, é algo que você pode esperar ao ir ver um filme desse diretor. Ela sempre aparece, é o seu tema predileto. Só que ela nunca aparece da mesma forma. Em Bastardos, o mais interessante é ver, não só nesse episódio inicial, mas em outros que lhe seguem, a palavra – e não as armas ou a luta – a serviço dessa. O espectador “apanha” junto com o personagem ao qual é solidário a cada palavra proferida pelo inquisidor vilão e sagaz que não se deixa enganar, que não cai na mentira. Ele se vê cada vez mais acuado, sente, junto com o inquirido, que o inquisidor já descobriu tudo e que a próxima palavra naquele diálogo, tão civilizado, será a derradeira – e que a derrota será não somente fruto da força física do outro, mas uma derrota moral.

Pois bem, com À prova, independente da proposta estética da parceria com Rodríguez, voltamos (ou permanecemos) às ruas de cidades americanas, com seus carrões-fetiche, seus joints, sua comida rápida, suas pequenas ilegalidades e suas guns. Nada muito distante, em outras palavras, de Cães de aluguel, Pulp fiction, ou Jackie Brown. As mulheres são lindas e têm uma língua afiada e solta, mas nada que se compare à exuberância das mulheres de Bill. Então, onde estaria a surpresa, a marca de todo filme desse cineasta?

A violência demora um pouco para aparecer em cena. E quando aparece, aparece com a sua face mais grotesca. As cenas de carnificina inicias, aviso, repugnam, dão embrulho no estômago e, em muitos, o ímpeto de se retirar do recinto escuro onde se encontram. Surge, então, a incerteza, a preocupação de que o resto do filme será só isso, a possibilidade da repetição de algo extremamente incômodo. Quando você entra num filme de terror ou de suspense, ao menos, você vai preparado, a decisão é sua, a besteira do filme é ratificada pela sua besteira de nele ter entrado, há cumplicidade. Mas, num filme de Tarantino, não é o terror ou o suspense, essa fórmula repetitiva (assim como o humor repetitivo de um Zorra total, por exemplo), aquilo que você espera; você espera mais e começa a se perguntar se Tarantino não vacilou, caiu no esquema, o que seria muito triste.

E eis que se vai para uma segunda rodada, onde a caça que se viu no início pode ter um fim semelhante. É então que se dá a surpresa, que não vou dizer qual é. Só o que vou dizer é que no final do filme havia pessoas, na platéia, aplaudindo, rindo, tendo um gozo que eu só posso identificar ao que eu tive com Kill Bill. Eu mesmo era um deles. A violência, descubro, essa mesma violência que, num primeiro instante nos enojou e nos fez querer sair da sala de cinema, pode nos alegrar, pode nos fazer exultar! Que coisa mais paradoxal! Kill Bill é, eu diria, basicamente isso, só que lá, não existe esse primeiro momento de “terror”, a violência se espalha ao longo do filme em concomitância a uma beleza visual e sonora, plástica em suma, o que nos confunde, num primeiro instante; mas quando ela (essa violência) chega na cena-clímax da disputa de espadas na neve, já se tornou mero suporte, mero aditivo para uma explosão de louvor à beleza. Em À prova, a coisa é mais rude, como se a polaridade violência/beleza fosse apresentada na sua forma paroxística: o espectador é forçado a passar pelo horror cru da primeira para, na segunda rodada, ter acesso a uma beleza que, diferente de Kill Bill e um pouco mais próxima de Bastardos, é moral, sem deixar de ser, contudo, violenta.

O recado, no fundo, parece ser – e diferentemente de todos os que acham que Tarantino é um doente, obcecado pela violência – que essa coisa a que se dá o nome de violência e que está solta por todos os cantos de todas as cidades do planeta, essa coisa que nos oprime e nos assusta, pode ser superada, talvez, somente por algo que se chama beleza.

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Insolação

ENQUANTO NÃO SAI A INTERVENÇÃO, QUE TAL UMA (INSOLENTE) INSOLAÇÃO?

Brasília se aproxima do seu cinquentenário com uma ameaça de intervenção federal lhe pesando sobre a sua autonomia política, conquistada a duras penas. Dúvidas e mais dúvidas pairam sobre o futuro dessa cidade que nasceu numa era de revoluções: será que não teremos políticos que façam jus à ousadia que lhe deu ensejo, o velho patrimonialismo persistindo incólume em meio às suas inúmeras colunas modernas? Quão aguado será o chopp da festa do dia 21? Teremos ou não um interventor e, caso sim, quem? Ou um governador-tampão?

De concreto mesmo, até agora, no quesito comemorações, temos somente um valioso retrato seu, assinado por uma dupla “estrangeira”, Daniela Thomas e Felipe Hirsch: o filme Insolação.

Não creio que esse filme tenha sido feito com a intenção de participar do aniversário, mas pode ser que sim, posto que hoje quase tudo se atrela ao marketing. Isso, na verdade, pouco importa: o que cabe apontar é o fato de que dificilmente haverá, nessas comemorações que se aproximam, alguma outra produção cultural que chegue sequer perto dessa obra forânea e, no fundo, insolente.

Insolação não diz nunca o nome Brasília e o que os seus insolados personagens fazem é, no final das contas, contracenar com ela. Ela é, eu diria, o personagem principal desse filme de estréia dessa dupla oriunda do teatro.  Dupla insolência, dirão alguns, desses dois que se metem a falar de uma cidade alheia por meio de uma linguagem idem. Mas, para quem conhece um pouco da trajetória de ambos, fica evidente a coerência: eles sempre fizeram um teatro onde o cenário conta – e muito, conforme me recordo dos geniais Avenida Dropsie, A morte de um caixeiro viajante e Não sobre o amor –; daí, nada mais natural do que ambos incorporarem  esse ultra cenário que é Brasília ao rol de suas realizações cênicas.

Brasília parece falar o tempo todo ao longo do filme. Quem nela mora, como eu, vai reconhecendo cada uma das locações, primorosamente escolhidas; e é bem capaz que termine por se lembrar, como eu, do impacto que teve – caso não seja dela oriundo – quando a viu pela primeira vez. No caso em questão, com oito anos prestes a serem completados, lembro ter descido do taxi que nos conduziu do aeroporto à 308 Sul (uma das primeiras superquadras e a primeira onde morei), passando pelo Eixo Monumental, e corrido em direção a uma árvore de onde vinha um barulho muito curioso: eram as (para mim desconhecidas) cigarras e eu quase caí da árvore ao tentar pegar uma delas.  Pois bem, eu diria que só faltou a esse Insolação ter mostrado um desses bichos em ação, porque o resto… está tudo lá!

Pode parecer exagero: um filme que consiga retratar uma relação que, no meu caso, já dura quase 36 anos: como “tudo”? Pois bem, trata-se das (belas) formas de que a cidade é feita, formas essas que nos remetem a uma liberdade. Quem nunca esteve em Brasília e vir Insolação saberá do quê estou falando, pois essas formas estão em todo o filme, elas falam o tempo todo. E essa fala é tão alta e poderosa que as falas dos personagens restantes só podem ser meros balbucios quase desconexos, como se todos estivessem diante de um sol, de algo impossível de suplantar. Liberdade, liberdade: isso nunca foi um canto saudável a uma cidade, eis talvez uma conclusão que possamos tirar, posto que cidades são feitas de homens – e onde há homens, há relações, que são tudo, menos livres. E, no entanto, esse é o canto que se escuta, em Brasília, o tempo todo, a partir de suas linhas; quase ensurdecedor, como o canto das cigarras no mês de agosto.

Mas seria um pouco cruel deixar de dizer que, para além da feliz direção que Thomas e Hirsch conseguiram dar à sua frutífera pesquisa cênico/cenográfica, Insolação constitui uma baita realização cinematográfica. Poucos cinéfilos atuais, creio eu, hão de ter, em suas coleções particulares de DVD’s, filmes que se originam em gente que não é “do ramo”. Muitos hão de ter, por outro lado, Tarkovski’s, rebentos de um legítimo inovador da linguagem cinematográfica, com seus longos planos e sua incrível capacidade de capturar algo que só pode ser descrito pela palavra magnetismo. Pois bem, eu digo que Insolação pode perfeitamente ser visto como um exercício, glorioso, derivado de obras-primas como Stalker ou Solaris.

Mas, no início, disse que esse filme é um retrato, de Brasília; e, agora, penso que muitos brasilienses hão de discordar dessa afirmação, não hão de se sentir tão fielmente retratados – é o que indicam a breve critica que li e os comentários que ouvi ao final da sessão. O que me remete aos famosos retratos que Picasso pintava de damas européias e que a algumas delas pareceram ser verdadeiras insolências – quando eram, na verdade, grandiosas conquistas estéticas.

(Resta-nos torcer para que os digníssimos ministros que irão decidir sobre a intervenção se dignem a assistir a esse preciso  e profundo retrato da nossa dama cinquentona.)

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