Segundo turno a partir do cinema

MARINA NÃO É MINHA JOANA D’ARC

O outro dia fui ver o último filme de Luc Besson, Lucy. Besson é autor de dois cults pessoais meus, ambos com o Jean Reno: Imensidão azul e O profissional. Coisa do final da década de oitenta e começo de noventa, século passado. Não havia gostado de nada do que ele, Besson, fez depois disso – e o próprio Reno sempre foi mesmo um ator limitado. Cinema francês em total sintonia com Hollywood e seu norte (apesar de tudo): a bilheteria. (Quando ainda surgia esse diretor, contudo, isso não estava 100% claro, ainda havia um quê de desafiador nos personagens outsiders.) Mas eis que a estrela de Lucy não é ninguém menos do que Scarlett Johansson: golpe baixo.

O filme é um legítimo Besson: Lucy é uma garota pra lá de comum que involuntariamente cai nas garras de uma máfia asiática prestes a lançar uma nova droga no mercado e precisando de “mulas” para transportá-la aos centros potencialmente consumidores. Diversos pacotes dessa droga são instalados cirurgicamente no seu abdômen e, antes mesmo dela embarcar, eles vazam, tendo como consequência uma overdose no corpo e na mente de Lucy.

Essa droga, conforme é explicado, é uma síntese de um composto químico que foi detectado nas mulheres grávidas e seria o responsável pela formação da inteligência no bebê. Lucy recebe uma descarga monstruosa disso e acaba se tornando um ser que progressivamente é capaz de tudo saber, tudo prever. Deus, em suma. Só que, para tanto – e disso ela se dá conta junto com um professor vivido por Morgan Freeman – ela necessita vencer o, digamos, ceticismo, que as células do seu próprio corpo passam a manifestar. É aí que reside a deixa para o que Besson sabe fazer de melhor (essa coisa do Profissional, de um único superdotado enfrentar batalhões, em corrida, também, contra o tempo), pois a única forma de superar esse auto-boicote é se enchendo de mais da mesma droga, que está com as demais mulas, monitoradas de perto pela máfia.

O filme despertou em mim o desprezo. Confirmou um veredito – o acima exposto. Contudo, saí dele com um incômodo adicional, que não consegui precisar naquele instante. Era ainda o primeiro turno da eleição e eu já sabia que era algo que passava pelo momento eleitoral que todos vivemos –e que, agora, se afunila rumo a algo quase intestinal.

Supondo que Lucy fosse um filme para pensar – e advirto que não o é –, ele carregaria consigo a questão da maior utilização de uma capacidade que se encontra hoje reduzida. Sendo mais explícito, ele aprofundaria, talvez, o mote, incerto, de que nós só usamos dez por cento da nossa capacidade intelectual. Seria, então, um exercício em torno daquilo que aconteceria caso fosse dado a alguém essa abertura de comportas – que, no caso, essa droga em dose cavalar, involuntariamente, provocou.

Pois bem, aproximo-me do ponto que tanto me incomodou ao sair do filme, que é a noção de que o conhecimento puro, em si, destacado de todo e qualquer base fisiológica ou orgânica – tal qual o que advêm da droga em questão –, seja algo a se perseguir, algo intrinsecamente bom. Aproximo-me mais ainda rememorando que a atual presidente brasileira, ao suceder o carismático Lula, foi apresentada como alguém com notável capacidade de gestão. Gestão, essa palavra tão em voga, o que é se não algo frio, que passa inteiramente pelo saber, nutrindo-se da informação? Dados e mais dados, é o que alimenta a gestão, e a presidente Dilma era, quando surgiu como candidata na sua primeira eleição (obtendo, inclusive, o meu voto no segundo turno), um poço de dados. Era o que faltava para que o Brasil adentrasse uma nova condição, para que deslanchasse, tal qual a Lucy do filme, o seu máximo potencial.

Se Lucy fosse mesmo um filme para pensar, penso que teria nos dito quanto ao engodo da fórmula que põe o conhecimento como caminho obrigatório para a felicidade. Essa última, sustento em consonância com alguns dos meus gurus, tem muito mais a ver com circunstância, coragem, aposta. O mundo não tem uma ordem, a não ser na ótica dos fundamentalistas, de todos os tipos – creio que esse termo, também tão contemporâneo, passa por isso: pela rigidez de algo que foi concebido no delírio de alguém – um “gênio” ou dois e, em seguida, estabelecido, por canais insuspeitos, como franchising –, mais do que no corpo – que é o local do gozo propriamente. Nada contra o delírio, partindo do pressuposto que todos o fazemos, mas o mundo está aí para que, além disso, nós lhe demos, permanentemente, um desenho, uma cor, um volume.

Em algum momento da minha vida, acreditei na política como essa instância maior e mais necessária da criatividade. Hoje, um pouco desiludido, continuo a crer que não estamos aqui para meramente chancelar o que é habitual, o que nos é apresentado socialmente como eterno. Por isso, acredito na arte. E vi, na candidatura de Marina Silva, uma ponta daquilo que já me fez um dia acreditar na política no sentido do que hoje me faz acreditar na arte ou, simplesmente, em mim (alô, Léo!).

O seu apoio ao candidato do PSDB, que em certo momento cri ser o limite máximo até onde poderia esticar meu apreço, minha concordância ao seu projeto por uma “nova política”, não me pareceu, da forma como ela o conduziu, determinar a sua “queima”, ao menos no que tange aos meus “domínios”. Vi como questão de circunstância, coragem, aposta.

Não sei, ainda, o que vou fazer no dia 26. Mas creio que o filme de Besson, ao reacender em mim o enfado em relação a tudo o que relaciona felicidade a conhecimento monolítico, poderá me ajudar.

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Eleições 2014 – declaração de voto

DESISTIR, NÃO

Está quase chegada a hora de dizermos qual o rumo que queremos que o Brasil tome nos próximos quatro anos. Temos um quadro eleitoral bastante rico, eu diria, onde uma terceira via se apresenta e incomoda não só aos dois principais adversários (palavra horrorosa, que merecia ser posta entre aspas, mas não o farei para não dar margem a leituras erradas), mas a todo o restante espectro de postulantes que, no fundo, como ficou claro no debate de ontem na TV Record, só reproduzem, de forma desidratada, posições e visões que já se encontram desabrochadas na bipolaridade até agora reinante na política brasileira pós-ditadura. A terceira via a que me refiro é a que traz o nome da ex-senadora Marina Silva como candidata a presidente; e eu pretendo, a seguir, expor os motivos pelos quais essa me parece a melhor alternativa para a eleição de domingo próximo.

Acho que o principal argumento que me leva a acreditar na proposta de Marina é justamente o que gira em torno da quebra da polaridade PT/PSDB. A esta altura do campeonato, quando a maior parte de nós já decidiu, a partir dos “n” (e cruciais) elementos que foram lançados nas ondas, bytes e impressos que atingem os nossos diversos aparelhos receptores – indo da corrupção à questão da aceitação das diferenças, passando pela preservação do meio ambiente e a condução da economia –, há forte tendência a afunilar tudo numa questão de esquerda vs. direita, como se aí estivesse a necessária dose de cal, o arremate com que poderemos tranquilamente realizar o nosso enterro do(s) “adversário(s)”.

Acho isso de uma pobreza atroz. Introduz, nessa discussão que é extremamente rica, variada, ampla, o componente suficiente de mediocridade. E o que é pior: o faz por meio da deslavada mentira. Eis, talvez, o ponto principal. Marina Silva não é agente da direita, não é representante dos bancos, não é lacaia do Silas Malafaia, como tampouco é uma xiita socialista e estatizante ou uma nova Collor – e todos os seus acusadores sabem disso.

Marina Silva é, ao meu ver, o que se salvou na política brasileira dos últimos 25 anos. Nesse período, tivemos, conforme nos mostra o filósofo Marcos Nobre, a instauração de um condomínio cuja convenção foi inteiramente desenhada por um partido que nunca saiu do poder, apesar de tê-lo ocupado, de pleno, por pouco tempo: o PMDB. Tivemos, é claro, a ascensão de um partido recém-criado, cuja plataforma se deu largamente em torno do combate à injustiça social (um outro nome para a corrupção?), mas que, uma vez ungido ao poder, aderiu sem maiores esperneios à convenção condominial, a qual nunca pretendeu fazer com que o país crescesse, tendo como horizonte a mera administração do (apertado) espaço das benesses (onde, por certo, estavam incluídos todos os dutos que fazem com que o dinheiro de todos acabe no bolso de alguns).

Sua (a de Marina) trajetória se deu dentro da temática da defesa do meio ambiente, onde, justamente, tem a devida ressonância a questão da responsabilidade – questão política por excelência. O mundo atual é um mundo sob ameaça, um mundo que precisa de soluções que vão além daquelas que o jogo político atual está capacitado a fornecer, com o seu costume de achar que o perigo está exclusivamente no imediato, no inimigo instalado do outro lado da mesma podre moeda. E o Brasil tem gente suficientemente capacitada para propor o novo, para desenhar saídas inovadoras, que minimizem o risco, que estamos todos correndo, de nos extinguirmos como espécie – e junto conosco a milhares de outras.

Essa é a elite de que Marina fala, com toda a razão: são pensadores de todas as origens, credos, estratos sociais e, acima de tudo, de todos os matizes ideológicos. Porque se há algo que já caducou quanto a seu a prazo de validade, isso certamente é essa tal de ideologia. Não precisamos dela; precisamos é de soluções inteligentes, de acordos em permanente revisão, de crença no impossível (outro nome para a capacidade de apostar), de ousadia e de humildade pra se reconhecer o erro quando ele ocorre.

Alguns, inclusive dentre os que simpatizam com a candidatura de Marina, argumentam que o cerne da questão estaria na alternância no poder. Nunca gostei dessa tese e não acho que uma boa defesa dessa candidatura deva passar por aí. Trata-se mesmo é do desafio de criar o novo, de sair de um pântano pegajoso, do qual a ética – esse elemento chave, no meu entender, para que possamos nos sustentar neste planeta daqui pra frente – está simplesmente ausente.

O fato de Marina Silva ser evangélica, confesso, foi algo que tive dificuldade em equacionar ao avaliar a minha adesão à sua candidatura. Sou ateu e tudo me leva a crer que continuarei a sê-lo. Contudo, isso não me impede de perceber que haja valor naqueles que, nessa esfera íntima que não deveria necessariamente aparecer quando o assunto é a política, julgam oportuno uma presença em suas vidas a lhes lembrar permanentemente a imperfeição que nos conforma. Questão de humildade – algo tão raro de se ver, em qualquer lide que seja. E, por último, sou levado a crer, a partir de tudo o que pude aprender com Foucault, que a ética é algo que se reveste, necessariamente, de um componente espiritual. É o espírito, ou a alma, o que nos leva a isso que é tão fundamental e que se resume em ter voz – e vice-versa. Se, para que a tenhamos, seja necessário que nos acudamos por um livro (ou vários, como parece ser o meu caso), pois que seja! É lícito, vale a pena!

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47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (parte 2)

ADIRLEY QUEIRÓS E SEU CINEMA QUE NÃO BRINCA

Quarta noite da Mostra Competitiva. A expectativa era grande, de minha parte ao menos, para ver o novo longa de Adirley Queirós, Branco sai, preto fica, por dois motivos: 1) pra ver se não havia falhado, eu, em decretar, no último post, o alto nível do cinema brasileiro, depois de um chatíssimo, pedante até, Pingo d’água, longa exibido na terceira noite e 2) porque o primeiro longa desse cineasta do DF, A cidade é uma só?, tinha me impactado muito positivamente. E o que deu? Bem, que eu acho que vai ser (depois do que expus no meu post anterior) tarefa dificílima pro júri desta edição decidir qual será o vencedor do Troféu Candango para melhor longa. Filmaço!

Vamos, contudo, devagar. São necessárias algumas advertências, a primeira girando justamente em torno da afirmação feita acima, relativa à procedência desse filme. Disse que era um filme do DF, quando o costume leva a dizer “filme brasiliense”. Bom, acontece que Branco sai, preto fica é um filme integralmente feito (concebido, rodado e não sei até que ponto montado e finalizado) na cidade satélite da Ceilândia, na periferia de Brasília. Muitos irão se perguntar: poxa, mas o que o impede de ser considerado “de Brasília” (quando um filme é feito, digamos, em Campina Grande, ele não deixa de ser paraibano). Pois bem, é justamente isso o que o primeiro longa de Queirós, acima mencionado, abordou.

A Ceilândia é um complexo habitacional que foi formado a partir de um dos acampamentos operários que existiram no início da construção de Brasília, a Vila do IAPI. Essa vila ficava numa localidade próxima ao Plano Piloto e tinha a particularidade de ser visível a quem chegasse de avião na cidade, já que estava a esquerda de uma das rotas de descenso rumo à pista do aeroporto. Decidiu-se, a certa altura, que todos os seus moradores deveriam ser transferidos de lá e levados a uma área beeeeeeem mais distante, para além da cidade satélite (já existente), de Taguatinga. Deu-se a essa iniciativa o nome de Campanha de Erradicação das Invasões, cuja sigla era CEI, donde o nome de Ceilândia.

Quando os moradores dessa nova localidade se deram conta do retrocesso geográfico, reclamaram, ao que lhes foi dito que “a cidade é uma só”. Pois eis que, cerca de quatro décadas depois desse episódio, sendo a Ceilândia uma já consolidada periferia, com pouquíssimos serviços públicos à sua disposição e igualmente distante do centro, o primeiro filme de Queirós, um documentário, colocou um ponto de interrogação nessa afirmação, indicando que não, que uma separação clara existe; que Brasília é Brasília e Ceilândia, Ceilândia. Em outros termos, que há um apartheid determinado a partir do espacial – algo que já vinha sendo apontado há anos por geógrafos, só que, agora, eram os próprios moradores da Ceilândia a chamar a atenção pra isso, via o cinema.

Isso posto, o quê teria Queirós e os seus a nos dizer desta feita? Branco sai, preto fica seria um novo documentário, ou teria ele partido pra ficção, que já se deixava entrever no filme anterior, por meio do candidato fake que percorre a cidade atrás de votos? A resposta é a de que trata-se de uma ficção, com personagens que, no entanto, são, em muitos casos, resultado de um deslocamento somente leve, sútil, mínimo em relação aos seus intérpretes, os atores que vemos em cena. Algo como se a câmera documental andasse, antes de começar a filmar, meio passo para o lado, fazendo, com isso, com que o objeto filmado também se mexesse, deixasse de ser o que é (numa espécie de “dois pra lá, dois pra cá” cinematográfico).

Há, também, um deslocamento temporal: somos remetidos a um futuro não tão distante, em que os ceilandenses precisam de passaportes para ter acesso à capital (sendo que há, ainda, um outro tempo, ainda mais futurístico, do qual um dos personagens provêm, para tentar desfazer o que se fez nesse outro futuro). Mas há também um passado real, vivido de fato pelos atores que ora viraram personagens, que é de onde saem o título do filme e uma das marcas (reais, físicas) que ficou num dos personagens. Trata-se de um episódio em que, a Ceilândia já estabelecida, deu-se uma batida policial em grande escala num dos centros que os jovens de lá haviam criado para se divertir, uma casa de bailes.

Esse tempo passado é o único em que os personagens são tomados por sentimentos (nostálgicos, no caso). De resto, vamos aos poucos descobrindo que suas múltiplas habilidades – para muito além do drible que promovem nas mutilações impostas aos seus corpos pelo apartheid – estão todas a serviço de um plano, de uma revolução em que, novamente, está implicada aquela cidade da qual seus pais foram expulsos. As tecnologias, eles as dominam, isso está muito claro: nada há de impedir que eles tenham sucesso. E eis que, a partir dessa constatação, o ligeiro deslocamento a que me referi acima, pode, a qualquer instante se desfazer e nós, espectadores dessa envolvente trama, nos darmos conta de que isso que está sendo contado como futuro, é o mais rotundo dos presentes, uma vez que nada impediu Adirley Queirós, esse filho da Ceilândia, de realizar seu segundo e maravilhoso longa.

Uma última observação: não pude deixar de me surpreender com a correspondência entre o desastroso Pingo d’água e esse filme ceilandense. O primeiro, filmado em preto-e-branco, gira em torno de um grupo paulistano (apesar de o filme ser paraibano) às voltas com o processo criativo. É algo (esse processo) que não anda e, talvez, a esperança dos seus realizadores fosse a de que o filme – ao menos ele – desse conta de pôr alguma coisa em marcha, zigzageando experimentalmente entre “verdade” e “ilusão”. Leda ilusão (sem aspas). Há tempos não via algo tão enfadonho. Agora, como que para redimir a essa pretensiosa trupe, chega Queirós e sua turma de artistas da periferia e fazem aquilo que acabo de descrever. Como conseguem? Acho que a resposta a isso está no fato de que uma pretensão tão elevada como a que aparece no primeiro filme só pode vir a ser atingida por um grupo que, tendo vivenciado a vida no que ela tem de mais cruel, consegue se despojar de toda uma carga impeditiva de uma real, viva, comovente colaboração.

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47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

OPORTUNAS “RECRIAÇÕES”

Mais um Festival de Brasília está em curso, desta feita de volta a um formato que permite que assistamos a tudo da Mostra Competitiva e à Mostra Brasília, que premia o cinema local – nas últimas edições, uma separação entre documentários e filmes de ficção tornava essa tarefa quase impossível, já que eram filmes demais pra ver. Penso que foi uma sábia decisão. De resto, vê-se mais despojamento na produção: os apresentadores com menos gala e nem mesmo aquela musiquinha, que descobri ser do Quincy Jones, para anteceder a subida ao palco das equipes. O que importa são os filmes – e esses estão tendo divina projeção, acompanhada de som de primeira.

Estamos no terceiro dia desse evento e eu creio que, a esta altura, depois de somente duas noites, o cinema brasileiro já disse a que veio. Tão ao contrário daquilo que o estúpido senso comum sempre repete, é incrível a capacidade que essa entidade tem de nunca nos deixar na mão! Episódios como o 7×1 (ou 10×1, no cômputo de alguns), aqui, digo que são inconcebíveis: o Brasil sempre terá bons filmes a exibir, independente daquilo que as academias norte-americanas ou outras, avaliem. E o que há de bom nessa oferta inevitavelmente passa por Brasília, no mês de setembro.

Dito isso, são três os filmes que, até o presente, garantem a festa. Vamos a eles.

O primeiro é o documentário paulista Sem pena, de Eugênio Puppo, que aborda o nosso sistema penal. Atenção: eu disse penal, e não prisional, ainda que um esteja, numa história que data de aproximadamente cinco séculos e que não é exclusividade brasileira mas ocidental, intimamente atrelado ao outro. No cinema brasileiro, documental ou ficcional, há muita coisa a respeito – ou ambientado em torno – desse último. Romper essa limitação é um primeiro mérito desse filme. Sim, é vital martelar na evidência de que as prisões são, no fundo, fábricas de delinquência, que o sujeito que lá entra, por qualquer motivo que seja, só poderá sair pior. Mas, isso não quer dizer que melhorar as condições dos presídios seja a grande solução, que ela proporcione um fim-de-papo. A discussão é mais ampla e diz respeito à Justiça como um todo; e um olhar mais preciso sobre essa seria um em que deixasse de aparecer como algo enclausurado e distante das mazelas sociais. Em outros termos, é preciso perceber que o Código Penal, por mais útil e necessário que seja, não abrange todos os aspectos daquilo que se pode considerar como justiça.

Sem pena é simplesmente genial ao fazer com que o cinema se insira nesse debate. Dá continuidade, até certo ponto, a um filme como Noticias de uma guerra particular, de Kátia Lund e João Moreira Salles, ao qual assisti o outro dia e me dei conta que continua absolutamente atual, apesar dos seus quinze anos. Aponta para a mesma urgência. Contudo, não se trata de uma repetição, graças à opção pelo uso da fala (dos diversos entrevistados) em off, ou seja, desligada da imagem de quem a profere. Enquanto ouvimos os depoimentos, a história ou a opinião de cada um, o que vemos são imagens desse universo penal, é a câmera a percorrê-lo, detendo-se nele, nas pilhas de papel que o compõem, nos bancos em que as pessoas se sentam, nas viaturas que são utilizadas, nas grades que abrem e fecham, nos bustos dos magistrados. A única exceção a isso é uma audiência em que uma ré, senhora já bem avançada em idade e pobre catadora de latas, expõe seus argumentos frente a uma acusação visivelmente improcedente, de tráfico de drogas. Coisa de arrepiar.

Os outros dois filmes são pernambucanos. O primeiro, um curta, dos incrivelmente jovens Nara Normande e Tião, é Sem coração, uma ficção que se passa numa praia do litoral nordestino e tem um grupo de adolescentes – dentre os quais um que passa férias na casa do primo, que vive nessa praia – como centro. Dentre esses adolescentes está a jovem apelidada com o título do filme, a qual trabalha na pesca submarina – demonstrando, já de cara, uma grande capacidade de prender a respiração debaixo d’água – e, paralelamente, oferece seu corpo para que o restante da turma, toda masculina, usufrua do primeiro contato com o sexo. Narrado assim, parece um filme sem felicidade alguma, incômodo até, ao vincular o garoto de classe média e a menina proletária e promíscua. No entanto, se há laivos de Amarcord (a praia sendo percorrida por uma quase matilha em explosão metafísica e hormonal), o filme que mais vem à memória é A guerra dos botões, o luminoso clássico de Yves Robert, em que vemos uma simbiose alegre e calma, para além do bem e do mal, entre o meio natural e o firmamento da cultura humana por meio de jogos. Uma câmera extremamente ágil faz com que mergulhemos, memória adentro, no domínio que somente as crianças têm sobre os territórios.

Por último, o sob todos os aspectos surpreendente Brasil S/A, de Marcelo Pedroso: um filme que alude à brutal introdução, nos meios tradicionais de subsistência e nas grandes cidades, do maquinário pesado e da automação em grande escala. Não se trata de documentário, mas também não se poderia dizer que seja uma ficção de pleno, já que, ao longo do seu transcorrer, nem uma palavra sequer é emitida pelos personagens! Filme mudo, quem sabe, onde, no entanto, o som – e a música, contado com a presença de uma baita orquestra sinfônica – desempenha um protagonismo – cheguei a ter a sensação, a certa altura, de que, finalmente, o Brasil encontra um equivalente cinematográfico ao gênio que foi Villa-Lobos, fazendo-lhe jus. Mas, antes que isso, acho que esse filme é mesmo um balé, em que, embasbacados, temos a chance de ver até mesmo quatro retroescavadeiras fazerem, cada uma, uma “ponta”, tal como as que as bailarinas clássicas são acostumadas a fazer. Ou, então, um cortador de cana, facão na mão, realizar um tai-chi em que corta, em meio ao sulco deixado pela colheitadeira, no canavial, invisíveis pés de cana. Trata-se, eu diria, de um Koyaanisquatsi à brasileira, em que, a certa altura, já pro final, atinge-se uma sensação lunar, uma espécie de magnetismo (o “som do silêncio”, tal como na música de Simon & Garfunkel que temos, numa das cenas, a alegria de ouvir enquanto vemos devotos a rezar?) a atravessar a experiência humana; algo que eu somente vi presente nos filmes de Andrei Tarkovski.

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Conselho de Classe, de Cia. dos Atores

O TEMPO VIVIDO NA CASA

A fila para entrar na Sala Plínio Marcos do Centro Cultural Funarte se estendia ao longe, a tal ponto que alguns torcedores do time que iria jogar no estádio contíguo (o controverso Mané Garrincha) chegaram a se confundir e pensar que aquela fosse a fila pro jogo. Caso tivessem prosseguido no equívoco, teriam certamente lucrado mais do que ao terminar vendo o Vasco sendo derrotado pelo Vila Nova. Estava em cartaz uma peça fora de série, intitulada Conselho de classe, com a Cia. dos Atores, do Rio de Janeiro, abrindo o Festival Cena Contemporânea.

Escrever sobre teatro difere bastante de escrever sobre cinema ou sobre algum outro assunto “em pauta”. O teatro, normalmente (e ainda mais em festivais), é algo a tal ponto fugaz, que dificilmente funciona esse mecanismo, aqui posto em prática, de recomendação ou de alerta para que se veja um filme ou se pense num determinado assunto. No caso dessa peça, por exemplo, ela terá somente mais uma sessão, na noite de hoje, e depois só Deus sabe para onde rumará.

Esse incrível universo que é o teatro possui essa característica talvez única, de não ser tão facilmente reproduzível ou transferível de uma sala de exibição para outra, de um fórum de discussão para outro. A maior parte das ações de que um espetáculo desse gênero é feito (ainda que ao longo da sua apresentação, como na peça de ontem, haja uma variedade enorme de cenas) antecede ao encontro dos artistas com o público. É a construção dos mais diversos componentes, iniciando pela concepção e passando pela dramaturgia, encenação, figurino, cenário, iluminação, sonoplastia, trilha sonora até a maquiagem e contra-regragem, tudo isso sendo repetido à exaustão em ensaio atrás de ensaio.

É um esforço tão grande (e tão pouco valorizado) que deveria ter o direito de permanecer como realidade para muito além do que ele de fato permanece, uma vez encenado. Mas não, ele parece destinado quase que exclusivamente a ficar na memória daqueles poucos que frequentam as salas de teatro. Daí que se abra, a partir dele, um espaço para uma escrita que acaba por fugir da crítica propriamente (pelo menos daquela que tem por finalidade prestar um serviço de “utilidade pública”) para ser muito mais testemunhal.

Conselho de classe, com autoria de Jô Bilac e direção de Bel Garcia e Susana Ribeiro, é uma peça com encenação realista que se passa no ginásio de uma escola pública no Rio de Janeiro. Os personagens são quatro professoras que, aos poucos, chegam para uma reunião do tipo que dá título à peça, onde devem-se discutir os assuntos que dizem respeito à escola, com a presença do diretor e de representantes da comunidade, dos pais dos alunos e dos funcionários. Só que quem comparece, unicamente, além dessas quatro professoras, é um substituto da Diretora que, conforme vamos descobrindo ao longo da trama, se encontrava de licença médica, depois de ter sido atingida no rosto por um objeto atirado por alunos, durante o episódio que ficou conhecido como a “revolta do boné”.

A primeira particularidade a nos chamar a atenção, quebrando inteiramente com a “pegada” realista, é o fato de que todas as quatro professoras são vividas por atores homens, que se vestem como tal e que não fazem menção alguma da sua condição feminina, a não ser pelos nomes e personas que cada uma carrega. Assim, vamos somente aos poucos, quando uma se refere à outra, descobrindo que esses quatro personagens são mulheres. E que cada uma tem um tempo de “casa” e um olhar particular, único, para o que é vivenciado pelas quatro no duro dia-a-dia coletivo.

Uma delas, por exemplo, não nutre esperança alguma a não ser a de, por meio da venda in loco de produtos contrabandeados, complementar o mísero salário. Isso e mais a articulação política para ser, depois de anos servindo na escola, realocada para uma função na gestão da máquina burocrática maior, a Secretaria. Outra, que leciona Educação Física, acredita que, para administrar o caos que são esses jovens que frequentam a escola, somente recorrendo a regras que lhes incutam um sentido de que fazem parte de um todo. A de Educação Artística, por seu turno, vê o oposto e os apoia quando esses resolvem pôr em questão a proibição, por exemplo, do uso de bonés: é preciso reinventar o papel da escola, capacitando os alunos para o pensamento e para o futuro. Por último, a de Literatura (Brasileira) e responsável pela Biblioteca, que já tinha tempo suficiente para se aposentar, sendo capaz de ver razão em uma e outra elaboração e acabando por sofrer um ataque epilético como decorrência.

Damo-nos conta, paulatinamente, do quanto há de legítimo em cada uma dessas posturas, que não cedem, perante a outra, um milímetro sequer. A nos acompanhar, o pobre diretor substituto, que acaba estirado no chão do ginásio, depois de ter esperneado feito um animal que segue pro abatedouro, diante da intensidade do drama à sua frente. O buraco é muito mais embaixo em pelo menos dois sentidos: 1) porque os recursos (da educação, em nossa sociedade) são de todo insuficientes para uma paixão (pela educação, por parte desses profissionais) que é gigantesca e 2) porque esse drama não diz respeito unicamente ao ramo da educação e sim ao serviço público como um todo, onde o profissionalismo tem tão pouco reconhecimento, e, de mais a mais, à própria convivência humana, quando acabamos por perder, muitas vezes, a capacidade de ouvir uns aos outros. E o grande mérito de Conselho de classe é justamente o de não sucumbir, em momento algum, à tentação de se esquivar desse enorme e profundo buraco lançando mão de um recurso – muito fácil, já que os atores, todos, são comediantes de primeira – ao enfadonho besteirol que tanto se vê por aí no teatro brasileiro.

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Festa Literária Internacional de Paraty – 2014

SOMOS TODOS ÍNDIOS, À EXCEÇÃO DAQUELES QUE NÃO SÃO[*]

PARATY – Ainda não li o que os jornais dirão a respeito. Pode ser que deem a devida divulgação, pode ser que nem falem sobre o que foi dito (ante)ontem pelos antropólogos Beto Ricardo e Eduardo Viveiros de Castro na mesa de número 14 da Flip, intitulada “Tristes trópicos”, tal a intensidade da pancada que todos os que a vimos (ou acompanhamos pelo telão) recebemos. Eles vieram na sequência de uma outra mesa, em que dois ficcionistas, um israelense e outro mexicano, souberam muito bem, instigados pelo mediador tarimbado, fazer analogias entre as zonas conflagradas das quais proveem – e das quais escapam com a ajuda da ficção e do humor.

A combinação de ambos os brasileiros foi perfeita: o primeiro, com perfil mais combatente (dirige uma ONG, o Instituto Socio Ambiental), deu um panorama da situação atual da causa indígena no Brasil, o qual resulta num quadro de forte ameaça, dada a PEC 215, que tramita no Congresso Nacional e que altera a prerrogativa da demarcação das terras indígenas, abrindo-a para esse mesmo Congresso, apinhado de defensores do agronegócio. Mas a ameaça não vem somente daí, dessa questão fundiária, como também da parte ambiental, com Belo Monte e demais usinas hidrelétricas que estão em construção na Amazônia – e que atendem a um exclusivo interesse: o das grandes empreiteiras que estão “na área” desde o período dos governos militares.

Competência não falta – e não faltou – a Ricardo. A questão é que junto com ele estava Viveiros de Castro, que assumiu o papel de não só ratificar esse panorama sombrio, mas de elucidar o seu significado.

Para quem não o conhece, Viveiros de Castro é, na minha opinião, uma das três ou quatro grandes cabeças hoje em atividade no Brasil – este país que as possui aos montes e que não precisa de mais do que as que já tem. Dedicou-se e dedica-se ao estudo dos povos ameríndios e foi quem, junto com a equipe que liderou no Museu Nacional, aprofundando as percepções de Claude Levi-Strauss, lhes descobriu sua forma perspectivista de se relacionar com o mundo à sua volta. É sua uma trajetória intelectual de dar inveja, pois essa descoberta desnudou perante nós, ocidentais, uma modalidade de presença no mundo, uma metafísica, que pode ser o que buscamos, há já algum tempo (vide um Heidegger, por exemplo), como saída para o nosso deserto espiritual, que só cresce.

Sendo essas as suas fantásticas credenciais, Viveiros nem sequer as tocou; entrou direto a solar na base rítmica que havia sido estabelecida pelo seu companheiro de militância indigenista. Começou por dizer que temos aqui dentro uma Faixa de Gaza, a que ninguém dá a menor bola, e um genocídio em curso, no Mato Grosso do Sul, onde as populações guaranis tem a simples beira de estrada, entre as imensas plantações de soja e cana que lá se estabeleceram, como solo nativo.

Mas isso foi só uma parte, uma mera abertura para o que estava por vir, relativo às consequências dessa ameaça que ronda a populações indígenas no Brasil. Ela, no fundo, é uma ameaça à própria sociedade brasileira, à própria civilização. O mundo, para Viveiros, dentro de muito pouco tempo, a seguir do jeito que vai, com seu consumismo, sua presunção e falta desinteresse pela diferença, simplesmente se extinguirá, entrará em colapso.

Nesse quadro, talvez os nossos únicos consultores, os povos ameríndios, cujo mundo acabou há cerca de quinhentos anos atrás – num “serviço” o qual estamos, ao que tudo indica, ainda empenhados em concluir – estarão possivelmente dizimados. Nós, ou o que restar de nós, seguiremos tal qual eles estão hoje, vivendo em faixas cada vez mais estreitas e precárias. Faixas que nós mesmos teremos nos imposto.

A contundência dessa colocação pode porventura nos levar a pensar que o que era para ser uma festa (o “f” de Flip), tenha adquirido, nessa atual versão – pois além dessa mesa houve uma anterior, à qual não pude assistir, intitulada “Marcados”, em que o drama dos ianomâmi foi evidenciado por um líder dessa etnia e por uma fotógrafa que os acompanha há décadas –, um tom grave e, por fim, estranho ao mundo da ficção, onde, como disse o – tudo indica, genial – escritor israelense Etgar Keret, você pode controlar tudo, você está no comando. Contudo quem teve a oportunidade de ouvir a palestra desse último, pôde ouvir, também, que ele concebe a sua atividade, que depende totalmente da imaginação e que se reveste com um transbordante humor, como uma forma de sobrevivência. E mais – o que nos leva à zona mais profunda dos que nos foi dito pelos dois indigenistas brasileiros –: que a sobrevivência que conta não é a física (e vejam que se trata de alguém que vive onde vive e que teve parentes seus dizimados pelo holocausto), mas a do espírito.

Sim, a Flip é uma parada de gente um pouco mais educada do que a que costuma frequentar estádios (à exceção dos japoneses, é claro), raves ou as ruas do carnaval, deixando atrás de si montanhas de lixo. A bela Paraty bem que se arma, precariamente, para atender uma horda que demanda serviços e produtos imediatamente e sem delongas que excedam a entrega do cartão de crédito para pagar a conta. Mas, creio que aquilo que se diz nas diversas mesas que compõem a sua programação, é algo de tal importância e beleza, que nada disso outro, realmente, faz alguma diferença.

 

[*] Frase cunhada por Eduardo Viveiros de Castro, e que começa com “No Brasil…”. Em parte, pode-se entendê-la a partir da percepção que todo sul-americano (ainda que seja alguém que, como ele, detém um reconhecimento acadêmico global) tem ao chegar na Europa e descobrir que, lá, ele não é considerado sequer um ocidental.

 

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Copa do Mundo no Brasil – II

A CEGUEIRA É MAIS EMBAIXO

A Copa de 2014 no Brasil tem sido uma experiência pra lá de reveladora em muitos aspectos. Na minha primeira análise a seu respeito, no penúltimo post, chamei a atenção tanto para um aspecto cultural que tangencia o político – tendo a ver com o se valeu ou não a pena o investimento – quanto para um aspecto pessoal – a ver com o ato de torcer. Haveria desdobramentos para o que disse então, a partir do vivenciado no ínterim. Contudo, neste momento, logo após a derrota histórica sofrida diante da Alemanha, noto sobressair, de toda essa overdose de emoções, um tema que eu classificaria como antropológico.

Tem ele a ver, justamente, com a questão da emoção; e nasce da percepção de que essa característica “nacional” seria o grande diferencial a nos levar ao duplo strike de realizar a “Copa das copas” e o hexa. A estratégia, tanto do governo – ao ver que prazos não seriam cumpridos – quanto do Felipão – ao não tomar providências básicas quando se quer atingir um objetivo com seriedade – estava fortemente calcada nesse componente.

Admitamos – como, de resto, tudo nos força a tal – que a primeira dessas estratégias estava correta. Sim, bilhões foram investidos e o retorno está ainda por ser submetido a um balanço final. Mas tudo indica que, nesse cômputo, desde que se leve em conta aspectos relativos à eficácia simbólica – termo esse que foi bem reposto num artigo que li na Folha, por parte de um psiquiatra, que relacionou, com felicidade, o futebol moderno à tragédia antiga –, há êxito rotundo.

Mas, e a outra estratégia? Um primeiro ponto a esse respeito passa, creio eu, por dar-se conta de que foi – e continuará, por parte do seu principal autor – uma estratégia inconfessa. Felipão e os seus auxiliares irão jurar até a morte – como já estão a fazer – que todo o trabalho que fizeram teve um planejamento por trás, uma seriedade evidenciada por estatísticas e pela ciência. Nada de emoções. Entretanto, se fosse unicamente assim, como explicar as visitas da tal da psicóloga? E como não considerar o desabafo de um Thiago Silva, o capitão, ao defender a sua reação indisfarçadamente emocional na hora dos pênaltis contra o Chile? Como, por último, explicar os treinos do time, onde a ênfase recaia nos meros fundamentos?

É evidente que se contava com a emoção! Ela era a constante que faria com que todas as variáveis se curvassem. Não só as variáveis internas – embalando o clima na Granja Comary – como as externas – os demais times, que não teriam outra saída senão o reconhecimento de sua força. Como a emoção estava lá fora, tal qual uma inevitável bruma, e como ela era inteiramente “nossa”, não se viu motivo algum para lhe impor uma barreira, por mais mínima que fosse.

O “plano” funcionou, sofrivelmente, diante de seleções heroicas e embaladas por torcidas apaixonadas, que se deslocaram atrás de um sonho, mas mesmo assim seleções que compõem o baixo-clero do futebol. Diante da primeira seleção genuinamente preparada para levantar a taça, ou seja, de um conjunto que entende que a emoção, própria ou alheia, é um componente a mais entre inúmeros outros, o castelo de cartas ruiu, a bruma se mostrou tão inconsistente quanto cabe a uma bruma ser.

Teria como ter sido diferente? Falar em desfavor da emoção como estratégia pode até parecer uma defesa de que não se deva jamais fazer uso dela, de que psicólogos não cabem nesse ambiente e que os familiares do jogadores devem ser mantidos à distância ao longo da preparação. Não é nada disso. A questão me parece ser mais a de ter entendido, a tempo, que essa dimensão iria ser o contrário do que se supôs que seria: que o Brasil, como dono da casa, como, digamos, aquele que, teoricamente teria uma maior facilidade em pôr a mão na taça, deveria tomar, enquanto equipe seriamente comprometida com esse objetivo, providências redobradas para que essa hiperestesia não tomasse conta em Tersópolis.

Nos seus estudos sobre as práticas sexuais na antiguidade, Michel Foucault descreve a prescrição e a adoção de uma ascese sexual. Muita gente, a partir disso, que consiste num trabalho de história com implicações filosóficas (como sempre, nesse autor), acreditou que esse pensador estivesse, com isso, anacronicamente pregando algo parecido a fim de solucionar problemas modernos. Algo inteiramente anacrônico e em total falta de sintonia com a revolução sexual da qual somos felizes herdeiros. Só que não: a leitura atenta do que Foucault disse na sua trilogia intitulada História da sexualidade revela que tal prescrição, encontrada, por exemplo, num Platão, dizia respeito exclusivamente à classe dirigente. A percepção de que o sexo é uma força que tende à desmesura era o que levava a fazer com que, diante dela, aquela classe que dava as cartas, a fim de não perder, de vez, o controle – com consequências ruins para o conjunto –, se precavesse, praticasse algo de inverso ao que já era, de por si, uma tendência.

Como é que isso se traduziria para a difícil tarefa de conduzir uma seleção de ponta como a Brasileira? Ora, em primeiro lugar, penso eu, ao cortar todo tipo de vínculo com o mundo da publicidade, não só por parte do atletas (algo mais difícil, dado os contratos que muitos deles provavelmente já firmaram com antecedência), mas por parte da comissão técnica. Digo isso porque surpreendeu-me a quantidade de propagandas em que vi o Felipão aparecer, antes e durante a Copa (duvido que veja alguma daqui pra frente).

Um segundo ponto: manter a imprensa à distância. Eu acompanhei a série de reportagens que o Jornal Nacional fez com cada um dos 23 jogadores e achei muito legal saber da história pessoal de cada um. Reportagens ótimas, a quebrar a tendência geral da mídia em noticiar o que dá errado. Mas é preciso ver o quanto que tal iniciativa – certamente uma dentre várias outras na mesma linha – não ajudou a criar um sentimento, entre atletas e não-atletas, de que a vitória estivesse escrita nas estrelas.

Felipão e Cia., como saída, estão recorrendo a um tal de “apagão”, que teria perdurado ao longo de seis exatos minutos. Esse, talvez, seja o mais profundo e daninho de todos os erros por eles cometidos até agora. Apagões são acontecimentos aos quais nos acostumamos – espero que não com tanta frequência – a partir do universo da gestão elétrica, um dos diversos ramos de que uma gestão governamental é feita (e dos mais importantes nos dias atuais). É algo que é ruim, péssimo, mas não é fatal. Em futebol, numa Copa do Mundo, é a catástrofe (das catástrofes): é mortal, não tem perdão. Pra se chegar a tal, não basta que um acontecimento atípico, como num legítimo apagão, engatilhe sequências de panes com baixa probabilidade de ocorrência em sistemas de defesa que todos entendem ser vulneráveis. É necessário que se tenha ido além disso, desconstruindo trajetórias (essas mesmas que vimos no JN) a tal ponto de que profissionais consigam regredir ao amadorismo – e mesmo, dentro desse, a um dos seus níveis mais elementares (será daí a ênfase dada nos fundamentos?).

Acho bem mais dignas as meras desculpas dadas pelo David Luiz. E acho que se aceitarmos a teoria do apagão, vamos terminar por não entender nada, mesmo; e tudo o que de bom, pelo lado do simbólico, ganhamos nesta Copa, irá pelo ralo abaixo.

 

 

 

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O homem duplicado, de Denis Villeneuve

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UMA BRECHA CAVADA NO COTIDIANO
“Caos é ordem ainda indecifrada”: é com essa epígrafe que se inicia O homem duplicado, do canadense Denis Villeneuve, filme baseado num conto de José Saramago. Lema que poderia se aplicar a toda empreitada criativa – seja em arte, filosofia ou ciência, tal nos lembra um livro como O que é a filosofia?, de Gilles Deleuze –, no filme em questão funciona como uma espécie de boia que nos é, logo de cara, lançada, a fim, creio eu, de que não afundemos na experimentação formal – e milimétrica – que se segue. A história é a de um professor universitário que descobre ter um duplo, alguém igualzinho, fisicamente, a si; e que mora na mesma cidade. Situação kafkiana de por si, acrescida de um mal-estar que eu só me lembro de ter visto em Repulsa ao sexo, de Roman Polanski.
São essas algumas credenciais que nos levam para o lado do, hoje, talvez, pitoresco – e dificilmente comporiam algo que valesse a pena ver. Villeneuve é, possivelmente, de fato, o sucedâneo a contento de Polanski, haja vista o que se vê no outro filme recente dele, Os suspeitos – de extrema competência no que tange ao sinistro. Ambos esses cineastas parecem se sentir à vontade nos campos do diabólico. Contudo, creio que O homem duplicado apresenta elementos que nos catapultam para além da genialidade narrativa de um Polanski, fazendo-nos cair, talvez, no terreno ainda mais ácido de um Buñuel.
Quando, em O cão andaluz, ao iniciar sua carreira, esse cineasta espanhol mostrou uma lâmina a atravessar um globo ocular, intercalando essa imagem com a de uma nuvem a cortar, na mesma direção, a lua no céu, não se tratava de um mero exercício analógico a remontar para uma epistème renascentista (para não dizer que não falei do Foucault): isso estava em sintonia com o surrealismo (o codiretor desse filme é ninguém menos que Salvador Dali) e visava, como tal, uma quebra com uma construção que estava em marcha há mais de século: a de uma figura humana estritamente representada pela sua cabeça, pelo seu saber. Quem melhor explica isso é Eliane Robert Moraes em O corpo impossível; a questão que resta, para voltar a Villeneuve (e Saramago, quem sabe), sendo a de que o protagonista de O homem duplicado é um professor de história que não aguenta mais “ensinar”, aos seus alunos, sobre o controle que “as ditaduras” mantêm sobre a plebe porque a sua vida, em todos os aspectos – inclusive no sexual, com a sua rígida companheira –, é nada menos do que isso: um insosso, cotidiano, eterno, repeteco (ou seja: saber das coisas nada resolve).
Quando o duplo lhe aparece, vem representar justamente um caos, uma pequena chance para sair de uma vida administrada (fazendo aqui um pit-stop em Marcuse). E esse duplo, um ator de filmes de terceira que, de certa forma – obscura – já frequenta o ilícito, também percebe, eu diria, o mesmo. Esse último é casado com uma jovem esposa que espera um bebê, ambos vivendo, na intimidade, o calvário do ciúme. Eles também vivenciam a administração, só que num outro aspecto, em que a comunicação – desta feita mais presente – simplesmente abafa algo que está sempre prestes a explodir. O desespero e o desamparo é comum a todos, esse último tornando-se palpável a nós, espectadores, nas diversas tomadas da cidade onde o filme transcorre (Montreal?), cheia de prédios que nada dizem (apesar da pretensão), bem como na fotografia empregada, invariavelmente sépia. Não é à toa que num dos poucos – talvez o único – momentos em que ocorre troca entre um dos quatro personagens do enredo com o mundo externo, aquele em que um outro professor aconselha ao visivelmente infeliz colega a ida a uma locadora de filmes, esse só lhe pede que lhe sugira um filme que seja alegrinho (cheerful).
Uma vez invocado o caos, é claro, há lugar para todo tipo de pânico. Jake Gyllenhaal, o ator que vive o homem que dá título ao filme, arrebenta nessa incumbência, beirando, como disse acima, o feito de Deneuve no filme de Polanski. E somente assim, com essa explicação lógica, consigo eu estabilizar o impacto que a cena final consegue, tal qual a do globo ocular (que era, na realidade, de um cavalo) no filme da década de 1920, causar em qualquer um que assista a esse inquietante filme.
Cabe, ainda, uma nota final, apontando para a rarefação de que esse filme se imbui. Não há um elemento sequer que esteja lá à toa: tudo é milimetricamente de propósito. Até mesmo o que o professor, num segundo momento, ensina – a respeito de Hegel e o que, na História, tende a se repetir – não está lá pra ilustrar algo ou para preencher um vazio, mas para se somar ao quebra-cabeças. Filme esfinge, para bravos somente.

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Copa do Mundo no Brasil – I

 

 

INSTÁVEL VIBRAÇÃO

Oito dias já se transcorreram desde o início da Copa do Mundo de Futebol. Que balanço fazer? Em primeiro lugar, um alívio pelo mundo que não se acabou, como muitos acharam que ia. Sim, o complexo de vira-lata é algo forte neste país em que a tendência à idealização (em detrimento do trato horizontal com a realidade) impera, sabe-se lá por que; e, em função disso, temeu-se muito que, aqui chegando, o resto do mundo descobrisse as nossas “vergonhas”. Há alguns posts atrás, eu predisse que tudo ia dar certo, porque o país pode ter todos os defeitos que tem, mas também carrega qualidades que ninguém possui (o trabalho dos paulistas, o savoir-vivre dos cariocas, pra início de conversa).

Em segundo lugar, pôde-se sentir o espanto que é as ruas de nossas cidades sendo tomadas por hordas de estrangeiros. Isso gera uma instabilidade: as reações a atos de nossa parte (não estou nem falando em questões linguísticas) podem diferir daquilo que estamos acostumados no que tange ao trato com o próximo. O fato de as pessoas virem em grupos (em sua grande maioria) ou de os constituírem de imediato em função da identidade nacional é um pouco diferente de quando, numa situação de rua qualquer, nos deparamos com um “turista” ou dois. Por breves instantes, meio que ficamos na dúvida se são eles que estão nos visitando ou se somos nós a eles… Isso é bem interessante, porque se levado adiante, é uma chance para que todos tenhamos a oportunidade de nos deslocar sem nem mesmo termos que desembolsar grandes somas de dinheiro e pedirmos férias no trabalho (benditas sejam as folgas que a Copa tem proporcionado nessa esfera).

Em terceiro lugar, algo de pessoal: eu achei que meu dilema de torcer pelo Chile ou pelo Brasil (e, consequentemente “ser” uma coisa ou outra) estivesse pra lá de resolvido. Não sei se cheguei a mencionar, em algum momento deste blog – que já vai quase pro seu quinto ano – o fato de eu ser chileno de nascença (ambos meus pais o sendo, também), tendo chegado ao Brasil com a idade de sete anos. O que sei é que, a esta altura, me considero brasileiro, o que fica patente quando escrevo – aqui, ou em qualquer outro lugar – usando um “nós” para me referir ao Brasil e aos brasileiros, meus compatriotas. Mas eis que chega por cá a seleção do longínquo e desacreditado Chile e eis que essa seleção, em pleno Maracanã, derrota a encrencada Espanha, e eis que eu faço a besteira de ir ver esse jogo num simpático restaurante chileno que conheci há pouco aqui em Brasília e o que acontece? Um grito de gol (dois, na verdade), tão sonoro quanto primitivo, escapou de mim (tendo sido, inclusive, registrado pela equipe de um jornal local)…

Até agora, em resumo, tudo bem com a Copa. O Brasil deve caminhar para a próxima rodada, brasileiros e estrangeiros confraternizam(os) nos estádios e fora deles e eu vou lá tirando partido das vulnerabilidades de toda e qualquer identidade, à la Rimbaud. Só não pode o Brasil vir a jogar com o Chile. Se isso acontecer, quem porventura quiser ou precisar me encontrar, o mais provável é que consiga numa das cavernas da Terra Ronca, a cerca de uns quinhentos quilômetros a nordeste daqui.

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O Passado, de Asghar Farhadi

CHECAR PARA NÃO SE CHOCAR

Mais uma vez, Asghar Farhadi nos apresenta um filme de gente grande: O passado. Já comentei aqui o seu anterior, A separação; e quando comento um filme – como ocorre, de resto, em outros afazeres discursivos– após um tempo, acabo não me lembrando de imediato aquilo que afirmei. Antes de partir para esta escrita, portanto, fui no texto anterior para ver o que lá estava. Contudo, um traço em particular, a vincular um filme e outro, me ocorreu ao longo da projeção de O passado: a suave, obstinada e quase impassível capacidade de Farhadi de, em torno de uma dada situação familiar (ou seja, comum a cada um de nós, haja vista que até um Robinson Crusoé tem família, nem que seja na lembrança), ir apertando, como quem gira um parafuso, cada vez mais fundo em direção ao que nos constitui no mais íntimo e que pode ser traduzir com uma única palavra: dignidade.
Antes de entrar nisso, porém, deixem-me lhes chamar a atenção para como o fato de este novo filme desse cineasta iraniano se passar em Paris praticamente não alterou uma das características mais marcantes do filme anterior, inteiramente passado em Teerã. Refiro-me ao universo da vizinhança de um lar e aos personagens que nele rondam. É o mundo onde se educa alguém, em geral os filhos: a escola, a rua, a lavanderia, a farmácia. Isso, há tanto numa quanto em outra cidade – e a tarefa pedagógica é universal, certamente.
Sim, de novo, temos crianças num filme desse cineasta (três, desta feita), a ocupar um lugar certamente não-secundário. São o juiz, no fundo, com seus ouvidos sempre alertas, daquilo que os adultos “aprontam”, nisso se igualando a nós, espectadores. O cinema de Farhadi é um cinema amigo da pedagogia, antes de tudo.
Mas seria um cinema enfadonho se fosse só isso, se um filme repetisse o outro, com meras pequenas variações se apresentando, a cada estreia, como novidade. O passado é um filme que merece ser visto porque trata de um tema diferente, quando não novo: aquilo que cada um carrega consigo ao iniciar novos relacionamentos amorosos ou afetivos. Desde o momento inicial do filme, vamos, progressivamente, inferindo, a partir das situações concretas que se apresentam, quem é quem, qual o estado atual de um laço (e do respectivo emaranhado onde ele se insere) que nos é mostrado – e que é algo que os próprios personagens, alguns mais outros menos, mas todos invariavelmente, vão também fazendo, confirmando, a partir de diálogos e atitudes.
Assim, mais uma vez, ponto para Farhadi no quesito realidade. Pois a vida não é mesmo assim? Quanta coisa, enquanto não é comunicada, dita de forma expressa, não permanece como algo passível tanto de um sim quanto de um não, conforme a fantasia de cada um? Não temos que, constantemente, checar se aquilo que vemos e ouvimos corresponde ao que o outro também vê e ouve? No filme, um fato violento ocorre, deixando atrás – ou à frente – de si um silêncio (já que se trata de um suicídio, que não quis fornecer pistas a ninguém, talvez acreditando na evidência auto-eloquente dos motivos). Esse fato vira um passado, mas também algo que acaba determinando o presente e um futuro, tal a força do silêncio que instaura. Ao mesmo tempo, esse passado parece só poder começar a ser desnovelado no momento em que um outro passado entra em cena: o ex-marido iraniano que chega de Teerã para, quatro anos depois da separação, vir assinar os papéis do divórcio com a francesa, mãe de duas jovens.
A vida pede que decidamos, às vezes em alta velocidade. No mundo globalizado, parece que isso se acentua ainda mais, com a sua permissão a que nos desloquemos horizontalmente, espacialmente: precisamos confirmar, a cada passo, tais deslocamentos. E, dentro disso, muitas vezes, não resta tempo para os devidos esclarecimentos, o devido processar, íntimo (ou extimo, como diria Lacan). Quando isso não é feito, o mesmo fantasma que se forma a partir de um suicídio intransitivo, pode vir a se formar. O mundo contemporâneo pode vir a ser um mundo repleto de fantasmas.
Que remédio teríamos para tal? Eis que volto à dignidade, acima apontada como o alvo desse filme – e, talvez, do próprio cinema de Farhadi. Assim como ocorre com A separação, não há em O passado, personagens que não a busquem. Seja o iraniano que se dá o trabalho de voltar à cidade onde morou para concretizar uma separação (ao invés de cuidar disso à distância, como lhe sugere um amigo), seja a mãe francesa, que, tal o personagem “equilibrista” do filme anterior, se desdobra em quatro ou cinco papéis, exigindo, em cada um, o máximo de verdade (de si e dos que estão à sua volta), seja o novo amante, semi-viúvo, da mãe francesa (e pai de um garoto), que luta até o último instante – e por meio de todos os recursos – por ter a esposa suicida de volta; temos sempre diante de nós, nesse filme, pequenos gigantes morais.

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