Praia do Futuro, de Karim Aïnouz

O ABAPORU QUE SE ESCAFEDEU

Em A forma difícil – ensaios sobre arte brasileira, o crítico de arte Rodrigo Naves lança, numa proposta cuja natureza diz ele ser “tateante” – e em cujo “andamento (…) encadeamentos por demais desenvoltos e tons superlativos” são “desaconselhados” –, uma importante e instigante hipótese: a de que a arte brasileira (em particular as artes plásticas, objeto de sua análise) padeceria, comparativamente ao que se produz lá fora, de uma “morosidade perceptiva”, um “permanente cismar”, uma, em suma, incapacidade de afirmação plena que conduz sempre a uma contenção. Uma ampla gama de artistas, sempre com suas obras a acompanha-los elucidativamente, de Debret a Clark e Oiticica, passando pelos modernistas, por Volpi, Guignard e Dacosta são ali analisados sob essa mesma suspeita. Sobre esse último, por exemplo, lê-se:

“Milton Dacosta, um de nossos maiores artistas, praticamente inverte o sentido da arte de Mondrian. Suas composições e construções da década de 50 criam uma espacialidade negativa, que retira seu poder da capacidade de subdividir-se progressivamente, em lugar de se projetar para fora. São estruturas admiráveis, não resta dúvida. Mas ameaçam ceder a qualquer momento.”

Já no caso dos mais recentes Lygia Clark e Hélio Oiticica, diz Naves:

“A tentativa de criar uma arte que abandonasse a atitude contemplativa da tradição e que se abrisse para a vida – uma interrogação que tem origem numa discussão estritamente modernista sobre os limites da relação figura e fundo – conduz a experiências com uma plenitude drástica. Progressivamente, seus trabalhos vão circunscrevendo uma totalidade imune a qualquer exterioridade. Os espaços generosos armados pelas obras do início (…) dão lugar a uma exploração da intimidade do mundo. O corpo deixa de se apresentar como lugar ambíguo que medeia e baliza a construção do espaço – numa relação complexa entre interior e exterior – e se converte em pura sensorialidade, magnetizado por estímulos que o remetem a si mesmo. Em sua trajetória de dispersão – a tentativa de aproximar arte e existência – os trabalhos descrevem um movimento paradoxal, que identifica vida a proteção, ainda que uma dilaceração acentuada os acosse por todos os lados.”

A arte brasileira teria uma “dificuldade de forma” e uma “natureza remissiva – a necessidade de constantemente devolver as aparências a um tímido questionamento de sua existência”, a raiz disso, para o autor, residindo na “sociabilidade pouco definida” que marca a sociedade onde é produzida. Uma última citação desse genial trabalho, a título de resumo:

“Essas obras tímidas supõem um modo suave de moldar as coisas, e estão mais para um artesanato amoroso ou para um extrativismo rústico do que para a conformação taxativa da indústria. Contudo, esse ideal meigo que defendem conspira contra suas expectativas, já que essas aparências amenas e essas formas frágeis não podem se opor à opressão do real, que os coage sem cessar.”

Tudo isso me veio à mente ao assistir Praia do futuro, o último filme do diretor brasileiro Karim Aïnouz.

Do que trata esse filme que conta a história de um soldado do Corpo de Bombeiros do Ceará, homossexual, que começa o filme como salva-vidas na praia que dá nome ao filme? De um estado permanente de deriva, como li em algum lugar? Da temática gay, como foi perguntado ao protagonista Wagner Moura (“o que vem a ser um filme gay?“ foi a sua resposta)? Pode ser, talvez, tudo isso. Mas eu cá recebi essa história, que faz o bombeiro salva-vidas se mudar para Berlim para viver com um companheiro alemão que conheceu no afogamento que abre o filme (e dando, assim, as costas à sua família) como um manifesto contra a timidez a que se refere Naves.

Por quê vias isso se daria? Em primeiro lugar, pela exposição inicial e crua da homossexualidade do personagem principal. Uma condição que é vivida sem trejeitos de ordem alguma, quebrando, assim, um quase lugar-comum da cinematografia local. O sexo ocorre entre o brasileiro e o alemão sobrevivente tão logo eles saem da delegacia onde o desaparecimento do afogado (um outro turista alemão) é registrado: sim, no Brasil, como, de resto, no planeta inteiro, há homens homossexuais, cuja homossexualidade não se resume a estereótipos, mas consiste numa preferência sexual que efetivamente acontece. (A essa altura, com pouco menos de dez minutos do início da sessão, vi gente saindo do cinema.)

Em segundo lugar, acompanhando a sequência dos acontecimentos, essa afirmação primeira tão “chocante”, se faz acompanhar pela migração; não fica no remoer manso, “reconfortante”, abrigado dos perigos, que tende a puxar o protagonista de volta ao aconchego da família, da mãe, do irmão. Naves, ao falar de Tarsila do Amaral, diz sobre os seres tão estranhos que compõem a sua pintura:

“A ingenuidade das folhas de papel celofane, a singeleza dos tons caipiras, tingem de doçura esses bichos arredios: ovos, cobras, corpos desmedidos, vegetações substancializadas. O que faz nossa particularidade tem traços absolutamente esquisitos. E no entanto eles estão prontos a vir comer em nossa mão, tão logo solicitados. Porque somos igualmente estranhos, sabemos tratar familiarmente mesmo esses ovos metafísicos, plenos e portáveis.”

A mudança – e a não menos importante permanência – de Donato, o protagonista, para Berlim é um segundo encarar a forças centrípetas bem claras, mas raramente reveladas; como se o Abaporu resolvesse, subitamente, se tatuar ou, mesmo, plantar bananeira, ao invés de meramente, cordatamente, sentar ao sol.

Por fim, quando Ayrton, o irmão caçula de Donato – e alavanca da sua “esquisitice”, que possivelmente foi o que chamou a atenção de Konrad, o alemão – chega, anos depois (e falando alemão) a Berlim para tirar a limpo o gesto radical do irmão, temos, enfim, uma tematização absolutamente nova: a do medo e a da coragem que se requer para enfrenta-lo. Há aqueles que reagem ao perigo, diz o irmão mais velho ao mais novo, fazendo de conta que ele não existe; e há aqueles que, diante da constatação da grandeza desse, vivem acuados. Isso pode soar como algo que diga exclusivamente respeito a homossexuais (coisa que Ayrton não é), que, conforme se vê cotidianamente nos jornais e no dia-a-dia, enfrentam uma infinidade de discriminações. Mas, também, creio que diga respeito, à luz do que Naves coloca em A forma difícil, à expressão, no sentido mais amplo e mais irrestrito, do ser brasileiro.

A sociedade brasileira é uma sociedade violenta, disso não cabe a menor dúvida. Há alguns anos atrás vivi em Barcelona e me espantou que certas discussões que presenciei na rua e na televisão não tivessem descambado em agressões físicas ou até mesmo em morte. Pensei, em tais momentos, que, no Brasil, já o teriam. E assim por diante. Não espanta que o gigante Wagner Moura queira se dar a oportunidade de viver no exterior por uns dois anos, como acaba de declarar. Dizer que suas críticas à política brasileira atual são improcedentes, como estão dizendo alguns – como se nunca tivéssemos estado tão bem – me parece equivaler àquela postura do seu personagem, Donato, que, durante um bom período de sua vida, meramente fingiu que o perigo não existia.

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Sob a pele, de Jonathan Glazer

PERCEPÇÕES BRITÂNICAS DE UM MUNDO MECÂNICO

Fui convidado a participar, graças à atividade que aqui desenvolvo, de algo que eu não sabia que existisse, ainda que desconfiasse: uma “cabine de imprensa”. O que vem a ser isso? Trata-se da projeção de um filme que ainda vai estrear, para a qual algumas pessoas que escrevem na mídia, bem como outros convidados, têm a entrada franqueada. Foi então numa bela manhã de segunda-feira que, reclinado numa das poltronas do melhor cinema da cidade (fora o Cine Brasília, cujas poltronas já me coube lamentar aqui) e na companhia de uma dúzia de outros seres envolvidos com cinema por meio da escrita, assisti a Sob a pele, do inglês Jonathan Glazer. Minha única referência a respeito (não li o release que me foi enviado) era a de que o filme contava com a Scarlett Johansson, o que já era motivo de sobra para ter dito que “sim” (e agora, numa rápida espiada ao IMDb, vejo que se trata do mesmo diretor de um outro filme de que também gostei bastante quando o vi anos atrás, Reencarnação, de 2004).

Antes, contudo, de entrar na questão dos méritos do filme, deixem-me que lhes diga que, um pouco antes e ao longo da sua projeção, fui assaltado pela pergunta: e se eu não gostar, vou, ainda assim, escrever a respeito? Uma torcida a favor de Glazer – talvez um pouco mais intensa do que aquela que, em condições normais, carrego comigo quando vou ao cinema –, confesso, se iniciou em mim naquele instante. A regra que impus a mim mesmo, de só escrever a respeito de coisas que me entusiasmem, essa eu fiz questão de transmitir a quem, gentilmente, me convidou e reafirmo-a aqui, perante meus leitores. Então, resta a questão da torcida; afinal, um crítico, como uma espécie de juiz, não tem que ser imparcial? Bem, a esta altura, só o que tenho a dizer sobre isso é que a torcida por bons filmes (e, de resto, por boas obras de arte) é algo sem o qual ninguém se dedicaria a escrever sobre – ou mesmo apreciar – filmes. Ela é inerente a quem vai ao cinema (ou a uma exposição, show, peça de teatro, etc.).

Vamos a Sob a pele. O que é que me fez ter aquela sensação de que estar ali, assistindo, era o melhor que eu podia ter escolhido para mim naquela manhã? O filme trata de uma alienígena (vivida por Johansson) que tem como função seduzir homens incautos num centro urbano da Escócia (não anotei se em Glasgow ou Edimburgo), integrando uma equipe da qual fazem parte outros alienígenas em “trajes” masculinos e pilotando motos. Essa bela alienígena dirige uma van com a qual oferece caronas aos incautos. Os que topam, ela leva para uma casa, dentro da qual ela começa a tirar a roupa. O incauto faz o mesmo, mas, na medida em que avança pra cima da isca, vai lentamente afundando numa espécie de lama petrolífera, da qual não mais emerge. Essa é, digamos, a mecânica, que vemos se repetir como se estivéssemos diante de uma linha de produção. Com o tempo, vemos que essa linha tem uma finalidade extrativa, um pouco equivalente a um matadouro hi-tech.

A incrível sonoplastia do filme nos remete, a princípio, a algo que beira o terror. A trama corrobora isso, fazendo-nos lembrar do tema da viúva-negra, já visto anteriormente no cinema. Mas eis que acontece o inesperado: uma deserção por parte dessa gélida alienígena que, até então, tinha se utilizado de somente três procedimentos humanos banais para dar cabo de sua função: dirigir, conversar, tirar a roupa. Eis que o filme entra, então, em ritmo de Blade Runner ou, até, de Asas do desejo, filmes que focam a vontade – a partir da súbita percepção, por parte do “alienígena” em questão, do milagre em que isso se constitui – de estar sob a pele de um humano.

Mas se Sob a pele fosse meramente um entrecruzamento de gêneros fílmicos já conhecidos, seria muito pouco, seria um fracasso. Como é que ele se eleva acima disso? Com bela fotografia (incrível, pra dizer a verdade), boa atuação androide de Johansson, efeitos especiais de fato especiais? Creio que não: são duas coisas que tornam esse filme algo de notável e de absolutamente contemporâneo.

A primeira delas tem a ver com a trama mesmo. Como disse acima, os alienígenas chegam à Escócia com uma tecnologia extrativa “de ponta”. Faz parte dela, inclusive, o conhecimento daquilo que desperta na matéria prima (os homens) uma vulnerabilidade: o desejo, a cobiça sexual. Frente a essa avançada tecnologia, pensa o espectador, não há nada que se possa fazer: eles vão ganhar, não dispomos nós, humanos, de nada à altura. Contudo, note-se bem o que é que faz com que a bela alienígena decida desertar. Trata-se, eu diria, da percepção de algo que escapa redondamente da tecnologia e do seu poderio. Trata-se da beleza – e, mais precisamente, justamente no momento em que ela, a alienígena, se depara, num humano sua vítima, com a notável, escancarada, ausência dessa. A pele, no processo extrativo da tecnologia que vem de fora, é o que sobra, não tem valor algum; e a pele é, justamente, o que reveste, no humano, um interior que, sem ela, nada diz, porque apenas tangencia a beleza.

O segundo e derradeiro aspecto de Sob a pele a alça-lo bem acima da média é um aspecto formal. Trata-se de um experimento cinematográfico que chega muito próximo da fronteira com o cinema mudo. Sim, porque notem que toda essa trama acima é contada quase que somente com o recurso da visualidade e da montagem (além, como, já disse, da sonoridade)! Blade Runner, fiz questão de verificar, tem um longo texto introdutório e diversos e variados diálogos. Asas do desejo, também – o anjo que sobrevoa Berlim tem uma espécie de “supervisor”. Já o filme de Glazer, o que tem de diálogo são as conversas dentro da van, que são meramente procedurais, quase um protocolo ou um rito necessário. Quando os dois alienígenas principais (Johansson e um motoqueiro que passa a persegui-la após a deserção) se encontram face a face, nada é dito. Tudo, ou quase tudo (eis que ocorre, como em Blade Runner, uma “transa” com um humano), é ato. E isso a tal ponto, mas aí já acho que é um pouco de loucura minha, de (não sei se porque a Escócia é próxima da Irlanda) haver um momento desse filme em que tive a sensação de que ele poderia ter sido escrito ou encenado por um Samuel Beckett.

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Noé, de Darren Aronofsky

UM NOÉ ANTI-BÍBLICO?

Talvez uma das ideias mais interessantes que Michel Foucault tenha tido na última fase de sua trajetória filosófica – essa que lhe tomou os seus últimos oito anos de vida e que é tão mal compreendida, posto que consistiu num inesperado mergulho na Antiguidade grega e romana – tenha sido a de que o Iluminismo – essa empreitada que se estende do século XVIII até os dias atuais a nos fazer crer que a ciência seja capaz de nos dar a resposta para todas as nossas inquietações – seja algo que deriva, ao contrário do que tudo levava a crer, do advento do cristianismo e não, propriamente, de uma raiz grega, platônica. É essa uma ideia deveras chocante, que não recebeu, ao meu ver, até agora, uma devida atenção por parte dos comentadores da sua obra.

Foucault, quando levantou essa possibilidade, estava querendo mostrar que foi somente com o cristianismo – que resultou, por sua vez, de toda uma lenta revisão das noções de sujeito e da cultura de um cuidado de si platônicos – que se gerou essa noção de que o universo é uma totalidade ordenada (e, portanto, passível de ser conhecida, bastando com que se aceda ao ponto de vista divino); noção essa que ainda vigora no mundo contemporâneo, a partir das Luzes do dezoito. (O motivo de o mundo estar tão chato, aliás, passa justamente por aí: tudo, cada vez mais, tem uma explicação, todos passando a viver na angústia de tudo saber, de não perder nenhum lance sequer dessa abundância de razões que a internet e os media, feito uma cornucópia moderna, nos proporcionam.)

Pois bem, esse preâmbulo todo foi para iniciar a minha defesa de um filme que, até onde sei, tem sido mal compreendido e, no extremo, rejeitado: Noé, de Darren Aronofsky.

Grande parte do desconforto em relação a esse filme parte da percepção de que se trata de uma superprodução hollywoodiana (provavelmente), com certeza mais interessada nos cifrões do que em dizer algo de interessante. Eu teria embarcado nessa arca não fosse a minha admiração pela filmografia de Aronofsky, já comentada por mim em post anterior. Ele nunca foi um cineasta “vendido ao capital”, como se costumava dizer há tempos atrás (não só de cineastas, mas de todo artista ou ser pensante que traísse a crença de que “a verdade” salva): por que é que, agora, ele o seria e, justamente, através de uma figura bíblica? Havia algo de errado nisso… Era urgente que eu tirasse a limpo esse ruído.

Acho que Noé deve ser visto com os olhos atuais. Qualquer tentativa de exigir fidelidade ao texto bíblico ou coisa parecida (existem os historiadores da Bíblia), me parece fora de propósito. Em assim sendo, vejamos que Noé é um sujeito que acede a uma (dura) “verdade”: a humanidade não presta, em tudo o que ela mete o bedelho, termina por ocorrer um degringolar certeiro. Ora, quantos dos nossos contemporâneos, partindo de boa parte das hostes da ecologia, passando por uma vasta corrente da filosofia política e terminando nos que pregam purificações numa e noutra direção, não replicam verdades dessa ordem? Quantas vezes ao dia nós mesmos não chegamos a conclusões semelhantes ou próximas? Basta um rápido acesso ao facebook para perceber que Noé já escapou da Bíblia há muito tempo!

O interessante, contudo, é que o Noé histórico (ou bíblico), esse que vemos na tela, ao contrário de nós, milhões ou bilhões de noés, tem à sua volta nada mais do que a sua família: sua esposa, seus filhos, uma nora. O restante dos humanos que aparecem são, de fato, um perigo muito maior do que o oferecido por qualquer outra “besta”. O futuro da frágil humanidade está em suas mãos de uma forma que seria impossível a nós noés de hoje (até mesmo os chefes das grandes nações têm que lidar uns com os outros). Mas, ainda assim, ele é um noé, um ser aturdido e premido, como nós, pela “verdade”.

Noé, o filme, vale a pena ser visto porque narra, de forma visualmente magnífica, a história de um homem que conseguiu, em nome da vida, dar um “chega pra lá” na ordem, no perfeito, no redondo, no total. Acho que quando Foucault mergulhou no universo de Platão, era algo dessa ordem (sic) que o impulsionava.

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Plebe Sinfônica

NADA É IMPOSSÍVEL

Duas tradições inteiramente diversas trombaram uma na outra na noite de quinta-feira passada. Estavam todos de preto, como manda o figurino. De um lado, aqueles que executam o que está no papel e obedecem, sem poder se desviar quase nada, aquilo que o maestro está a lhes indicar, em prol da fidelidade ao que brotou, algum dia, na cabeça de gênios. Do outro, caras, bocas, olhares, trejeitos, piruetas, rebolados, dedilhados e gritos ajudando a que o som saia o mais fiel possível ao espírito transgressor que tudo impulsiona. Senhoras e senhores, vejam o que deu esse encontro entre dois orgulhos desta cidade, Brasília: Plebe Rude e a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, sob a regência de Cláudio Cohen.

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Ela, de Spike Jonze

A ESPIRITUALIDADE ONDE MENOS SE ESPERA

Escrevo ainda sob o impacto de um filme delicado, que vale a pena ver, creio eu, porque fala sobre questões que estão afligindo a um amplo número de pessoas próximas e distantes nos dias atuais: as relações e a perspectiva de um mundo onde ela não mais existam. Estou falando do filme Ela, do cineasta Spike Jonze, em que o protagonista se enamora e passa a ter um caso de amor com um sistema operacional.

É claro que contribui muito para que isso aconteça o fato de a voz desse sistema operacional ser a de Scarlett Johansson. Contudo, o filme é bem mais do que os momentos em que nos faz rir, com o absurdo de situações que não estão tão distantes assim na sua possibilidade, ou o emaranhado de truques que lhe dão um tom pitoresco (as calças masculinas com cintura acima do umbigo, os games interativos a indicar um futuro a médio prazo). Estamos longe de comédias como as que teríamos nos anos 1960, talvez com um Jack Lemmon no lugar de Joaquin Phoenix (o protagonista), uma loira e alguma engenhocas divertidas apontando para um mundo Jetsons.

Sistemas operacionais inteligentes são uma realidade. O mundo hoje, com as pessoas que o habitam, vive grande parte do seu tempo nas malhas de uma rede. As questões de Ela são questões reais: essa rede é um abismo ou a possibilidade de um mundo inteiramente novo, onde vija um novo amor? Tudo isso passa pelos dilemas que um aplicativo como o Facebook – que completa dez anos de exitosa existência –  traz; e através do qual muitos começam a se deparar com o termo “bloquear” (alguém) ou ser bloqueado. Seguido a um momento eufórico inicial, os usuários desse programa passamos a descobrir a chatice dos outros; e também a tentadora possibilidade de eliminarmos tal chatice num simples aperto de botão! Isso dá um medo (nunca bloqueei ninguém, mas já considerei), pois traz consigo a pergunta: onde pode parar? Até que ponto o primeiro bloqueio não equivale a uma invasão da Polônia? Está mesmo valendo a pena manter uma conta Facebook? Muitos estão se perguntando isso neste instante.

Pois bem, Ela inicia nesse ponto, com Theodore, o protagonista, espalhando nãos a torto e a direito na rede então turbinada; e alguns sins, que só lhe confirmam o acerto dos nãos majoritários. Pouquíssimos amigos reais, uma ex ainda a doer por ocupar um território, o das lembranças, livre do virtual (por mais paradoxal que isso soe) – mas, também, maculado por uma culpa. E eis que surge Samantha, o (a) sistema operacional que possui o dom da descoberta, que talvez seja o que há de mais humano em nós.

A vários dos seus interlocutores, Theodore, quando indagado a respeito desse seu novo affaire, relata precisamente isso: que o que o encanta em Samantha é a sua capacidade de se surpreender com o que vê, ouve, absorve, de se empolgar com o mundo. E a convivência com alguém assim, de fato, muda a sua vida. Estamos, nesse instante, num plano de que alguns, nos dias atuais, têm ojeriza: o plano espiritual. Só que, como Samantha carece de uma morfologia, sua natureza sempre aberta ao novo a conduz a um plano ainda mais avançado do que esse (ainda que dentro da mesma diretriz), onde a linguagem, criação humana, já não dá conta dos fenômenos vividos.

Mas, retornando um pouco à dimensão lógica (e é pra isso que serve amiga de Theodore, que também vive seu calvário em função de não conseguir distinguir com clareza o limite da solidão irreversível), aquela onde se procura entender o que é que acontece conosco nessa interface com a tecnologia, há um momento que considero crucial, que é quando ambos, ele e a amiga, se indagam sobre a validade de uma relação de tal ordem (com um operational system). É isso uma relação, pergunta Theodore? Ao que sua amiga responde: não posso saber, pois não estou dentro dela. Genial!

Caberá a cada um que ver o filme responder a tal pergunta. E, ao fazê-lo, por tabela, se perguntar sobre o que é que define uma relação. Acho essa uma pergunta vital, nos dias atuais. O simples fato de sermos feitos de carne e osso, de termos morfologias parecidas, de habitarmos as mesmas cidades, países, planeta, garante que, ao nos conhecermos, tenhamos uma relação? Tudo nos leva a pensar que sim; mas e se não? Se relação pressupor outra coisa? E se relações são o que realmente interessa na vida, o que verdadeiramente as torna dignas de serem vividas?

Essas indagações podem ser úteis para todos os que estamos diante do dilema Facebook, acima apontado: que possamos usar essa ferramenta para incrementarmos as nossas relações, pois são elas que, no fundo, valem. O mundo, as verdades? Que se danem: eu já me ocupo e me ocupei deles a minha vida inteira! Eu quero é saber como andam meus amigos e quero conhecer novos amigos, gente bacana, elegante de preferência, que se estiver a fim de contar que comeu ou bebeu isso ou aquilo, ou sentiu tal ou tal sensação, beleza! Pode até ser um sistema operacional, mas que demonstre uma capacidade mínima que seja de se rever constantemente.

E tem mais: o tema das relações é crucial, também, para a política no mundo atual. Foucault é o cara que trouxe isso à tona, creio eu, dando ainda desconhecida legitimidade aos protestos que vemos eclodir mundo afora, ao deslocar a relação vertical na qual se baseia a política partidária (ou mesmo a relação que os intelectuais “universais” visam manter com as massas) para a grade de leitura das relações horizontais entre governantes e governados. Essas relações existem e têm as mais variadas abrangências, os mais variados escopos e, last but not least, as mais diversas justificações. Se essas últimas são reais ou irreais… cabe a cada um que estiver dentro delas (conforme o conselho da amiga de Theodore) decidir. E, em seguida, blo(c)queá-las ou não.

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Ninfomaníaca, de Lars von Trier

A ‘COISA EM SI’ FINALMENTE ATINGE A TELA

Lars von Trier é um permanente desafio, não só pra quem se aventura, como eu, a escrever sobre os filmes que vê (e gosta), quanto pra população mundial. Digo isso porque já fui duas vezes ver o seu último Ninfomaníaca e me surpreendi com a plateia. Na primeira, assim que o filme estreou, cheguei em cima da hora e quase que não consigo ingresso (foi o penúltimo, colado na tela), coisa que nunca pensei que pudesse ocorrer num filme desse diretor, cujo cinema, como já comentei aqui, tende a ser indigesto. Na segunda, umas duas semanas depois, reparei mais na reação do público (uma sessão quase igualmente cheia, com bastantes jovens) ao final do filme e percebi um espanto boquiaberto. Não sei os números, mas tenho a sensação de que ninguém está dando bola pro vexame que Trier deu na coletiva em Cannes ao lançar Melancolia, seu filme anterior, há cerca de dois anos atrás: todos querem mesmo é ver o que ele tem a nos dizer nos seus contundentes filmes.

Dito isso, vamos a Ninfomaníaca. Ele demandou de mim, coisa que nunca aconteceu – geralmente quando um filme suscita uma busca auxiliar, ela se resume a outros filmes –, uma consulta a livros. Os filmes de Trier sempre foram filosóficos, sempre apontaram para questões desse âmbito, o que serve para explicar, em parte, a sua indigestibilidade. Ser filosófico, friso, não equivale, de por si, a mérito algum: é tão somente uma característica particular desse cineasta. Pois bem, a impressão que tive com Ninfomaníaca é a de que com esse filme, Trier, finalmente, encontrou um lugar onde encaixar as suas questões, coisa que, em filosofia, costuma-se chamar de “filiação”.

E a quem é que esse irrequieto dinamarquês se filia? Ora, não restam dúvidas que a Sade. Fui justamente consultar, a esse respeito, a maior especialista que conheço sobre esse assunto, Eliane Robert Moraes, filósofa que admiro – autoridade na obra não só desse ilustre marquês, mas do seu seguidor mais aguerrido de cerca de dois séculos depois, Georges Bataille – e cujo Perversos, amantes e outros trágicos, uma coletânea que gira em torno dos autores que, como esses dois, se encaixam na tradição da libertinagem, foi lançado em 2013, sem que eu tivesse tido o cuidado de comprar e ler. Estou corrigindo esse meu lapso, deliciando-me com a prosa magistral dessa ensaísta e com o que ela diz sobre Nabokov, Aragon, Apollinaire, Cleland, Laclos e uma série de outros que formam uma espécie de clube junto com essas duas outras figuras centrais do saber libertino.

No filme em questão, temos a personagem Joe, vivida por Charlotte Gainsbourg, a qual, toda estropiada – não se sabe ainda por que –, é acolhida por Seligman (Stellan Skarsgard) e começa a lhe contar suas desventuras, que a teriam levado a tal estado. São todas de ordem sexual, onde vigora o inteiro excesso que justifica o nome do filme. Seligman, cujo nome, conforme ele ensina, quer dizer “homem feliz”, é alguém que se revela, eu diria, tanto quanto Joe, ao longo desse processo confessional: é seu ouvido, de forma alguma mudo, que permite que a ninfomaníaca Joe prossiga na sua narrativa, que se inicia aos quatro anos de idade. Ambos estabelecem um diálogo no qual esse homem – de quem, no final das contas, pouco acabamos sabendo – nada tem de passivo.

Em que consiste a escuta repercutiva de Seligman? Ora, reparem, ela é sempre no sentido de dar aos excessos narrados pela protagonista, ao seu desregramento, uma sorte de encaixe lógico, esfriando o entusiasmo do seu discurso. Esse, tende a levá-la ao sofrimento da desrazão, mas Seligman a demove dessa perspectiva, mostrando-lhe a normalidade de tudo o que ela lhe narra. Da forma como ela perdeu a virgindade sobrou o mero ressoo de dois números? Esses, chama-lhe ele a atenção, integram a sequência de Fibonacci, que logo lhe explica o que é. Em seguida, ela e sua amiga disputam um campeonato de foda ferroviária cujo prêmio é um saquinho de confetis? Tudo isso é comparável à pesca esportiva sobre a qual ele revela domínio, tal como sobre a música. Na morte do pai ela ficou excitada sexualmente? Nada há demais nisso. Múltiplos amantes e seus estilos? Bach e a polifonia… Nada disso é novo para aquilo que Eliane Robert Moraes pesquisa há décadas, nas pessoas e nas letras dos seus libertinos.

Na análise (“Um olho sem rosto”) que faz, por exemplo, do livro História do olho, de Georges Bataille, essa autora paulista mostra como o essencial está no contraponto entre o tom frio (glacial, nas palavras de Vargas Llosa, por ela citado) da narrativa e a vertigem vulcânica dos acontecimentos narrados. Os personagens vivem um frenesi sexual ao mesmo tempo em que o tom da narrativa é realista: “trata-se de um relato seco e despojado, que evita rodeios expressivos, subterfúgios psicológicos, ou evasivas de qualquer outra ordem.” (p. 47) Também, a despersonalização dos personagens, que culmina, na obra de Bataille, com a formulação sobre o erotismo enquanto “fusão, a supressão dos limites” do ser com o cosmo à sua volta. Há cenas, difíceis de entender, nesse sentido, em História do olho, nos lembra Moraes. E há uma cena em particular, muito breve, em Ninfomaníaca, quando Joe, ainda menina, está prestes a sofrer uma cirurgia e tem uma súbita percepção cósmica, conforme conta a Seligman – isso para não falar de todo o envolvimento que ela tem com as árvores, a floresta, as folhas (que coleciona num álbum), herança do pai.

Num outro texto (“O filósofo bacante”) da coletânea acima referida, também sobre Bataille – e seu livro A experiência interior – Moraes menciona um capítulo de um livro do ilustre (e enfadonho) filósofo Jürgen Habermas sobre esse escritor e filósofo francês, onde esse primeiro o ataca por um “’vaivém irresoluto entre a filosofia e a literatura” que o levaria a exceder os limites do pensamento conceitual. Vale a pena atentar para o que a autora diz, então, a esse respeito:

“Ainda que a crítica de Habermas tenha pertinência para quem só concebe a filosofia como domínio do conceito, ela peca por esquecer que Bataille é herdeiro de toda uma tradição do pensamento francês que, pelo menos desde o século XVII, combina as formas de pensar da literatura às da reflexão filosófica. Essa tradição, que na França setecentista floresceu sob o nome de literatura filosófica, passa por pensadores do porte de um Pascal, de um Voltaire, de um Rousseau, ou ainda de um Sade, este último influência decisiva do autor. Desnecessário dizer que se trata de um pensamento que perde em rigor lógico o que ganha em liberdade de expressão, como deixa evidente o próprio texto de Bataille, que opera tanto com conceitos quanto com imagens, sem observar qualquer hierarquia.”(p. 88)

O saber libertino é uma filosofia que agora se vê sendo posta, finalmente, no cinema. Como? Não há o Ligações perigosas? Não tem aquele filme sobre o Marquês de Sade, com o Geoffrey Rush? E o Pasolini e sua trilogia erótica? Quanto a esse último, não creio que seja algo pra valer, até porque o próprio autor abjurou do que fez. Não se sustentou, foi, talvez, um ensaio. O filme com Rush, foi bacana, mas ainda exterior à forma propriamente devassa: quase que etnográfico. Restaria o Ligações… O que é que falta nele do ponto de vista de uma linhagem libertina? Para responder a tal, recorro a outro ensaio de Perversos, amantes e outros trágicos, desta feita intitulado “O efeito obsceno”. Nele, que parte justamente de uma passagem do romance de Choderlos de Laclos, Moraes fala da importância da “palavra pornográfica” na tradição erótica: ela “acaba subvertendo sua função abstrata de signo para ganhar um corpo próprio que, no limite, substitui o corpo real.”(pp.98-99) O filme de Trier não se furta a mostrar o sexo. Ele segue, assim, a trilha inaugurada, conforme nos mostra a autora, no escrito do renascentista Pietro Arentino, Ragionamenti (1534-1536), quando duas prostitutas conversam sobre o tema da superioridade da profissão de prostituta sobre as de freira e esposa e, nisso, uma acaba recomendando à outra que “fale claramente, e se você quiser alguém, diga ‘foda’, ‘pau’, ‘boceta’ e ‘cu’; só os sábios da Universidade de Roma não vão entende-la.” (p. 93)

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São Paulo x Rio

DESCENDO O PLANALTO COM RUBIK

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O ano que ficou pra trás terminou com duas visitas curtas – e por motivos diversos – a essas duas metrópoles que disputam eternamente no imaginário de um brasiliense inconstante e afoito (como eu) o título de futuro local de moradia: Rio de Janeiro de São Paulo. Quanta diferença entre uma e outra cidade, e entre elas e Brasília! A tal ponto de ter ficado absolutamente (mais) confuso quanto à imaginária pergunta inicial; mas, também, absurdamente confiante quanto ao sucesso do Brasil em 2014, quando irá sediar essa festa de arromba mundial que é a Copa do Mundo de Futebol. Surpreendente? Talvez, mas vamos aos motivos, não sem antes deixar claro que o que me interessa, nisso tudo, não é tanto o evento a vir, mas, é claro, este gigante pela própria natureza em que moro.

Quase tudo o que se vê hoje na TV e nos jornais e revistas deste país nos induz a evitar os grandes centros urbanos. Violência, tumultos, engarrafamentos, preços altos, poluição são sempre motivos para que se agradeça viver numa cidade “pacata” como Brasília. Sabe bem, quem nela mora, o quanto disso é mentira: ela já é a terceira maior metrópole brasileira e seus problemas se acumulam e crescem em escala geométrica. Aliado a isso, a atmosfera em que repousa, a do poder única e exclusivamente pelo poder, tinge nossos pulmões e artérias com tóxicos pouquíssimo estudados até o momento e, eu diria, altamente daninhos à saúde.

Piso então em São Paulo, cidade em que ando com desenvoltura, apesar de nunca ter lá morado. O interesse primeiro sendo um negócio, o tempo restante permitiu idas ao teatro, shows, restaurantes, cinema, exposições – o mesmo que no Rio, à exceção da praia. Saindo do Mercado Municipal, que está preparadíssimo para receber a qualquer um com seus quitutes, especiarias e frutas os mais variados, acabei caindo, sem querer, na 25 de Março, onde me lembrei de amigos que sucumbem, sem apelo, a um preço baixo. Ninguém fica órfão numa cidade que tem uma rua dessas – nisso, a atual novela das oito (em que o vilão, após ter sido desmascarado das mais diversas vilanias feitas, termina fazendo carreira por lá) pontua favoravelmente.

São Paulo tem o ritmo do empenho impresso em sua cédula de identidade. Não fosse assim, não teria um teatro como o do Sesc Pinheiros (Paulo Autran), em cuja coxia, durante três horas ininterruptas um público do qual fiz parte pôde ver uma peça como Puzzle, com direção de Felipe Hirsch. O texto dessa peça é uma espécie de colcha de retalhos derivada de trechos de textos de autores tendentes a malditos, como Reinaldo Moraes, que, ao repetirem à exaustão – e, assim, acabarem por tornar cômicas – certas situações de uma pornografia cotidiana, nos levam a um estado que beira a anestesia. Doses disso podem ser vitais para todo tipo de cidadão no mundo atual, em especial, eu diria, para aqueles que habitam cidades intoxicantes como Brasília.

Mas, talvez o episódio que mais me tenha feito sentir a marca do empenho paulistano tenha sido a nota estampada na grade fechada na entrada da Cantina Pascoale, na Vila Madalena, em que se anunciava que esse restaurante não abriria naquela noite devido à morte de sua chefe de cozinha, vítima de um acidente acontecido de manhã numa das marginais. Era uma nota de pesar profundo pela perda de uma profissional que, durante mais de uma década, foi responsável pelas massas e molhos deliciosos que essa cantina serve. Na correria de suas vias expressas, nas profundidades de seu movimentado metrô, São Paulo vê circularem mestres anônimos de todas as ordens, procedências, inclinações.

Passamos pro Rio, onde fiquei uma dúzia de dias, dentre os quais o do réveillon. Não levava planos comigo pra essa estada. Já andei bastante por lá, na minha adolescência, já que meus pais gostavam de acampar no camping do Recreio dos Bandeirantes – de onde nos deslocávamos para o centro da cidade quando havia algo interessante pra ver ou ouvir. Queria eu, desta feita, tão somente (e nostalgicamente), ver como se encontrava essa finis terrae carioca; o resto, seria com a vida, a me levar onde bem entendesse.

A cada passo que se dá no Rio, há algo a nos dizer que a vida vale a pena. É uma cidade, em primeiro lugar, com passado imperial. E o que isso quer dizer, para além das palmeiras com esse nome e os casarões e edifícios abalconados (diversos deles em Botafogo, onde fiquei) que lá ainda se veem? Creio que se trata de uma evidente majestade em tudo, algo que não se perde nem mesmo com geração após geração de governantes pífios, nem mesmo quando o poder em si e para si pegou suas malas e se mandou de lá.

A majestade está em cada ser que habita ou passa por aquela cidade. Principia pelos corpos, soberanos, que circulam em sintonia com o calor, ou seja, quase nus. Aos plebeus que se preocupem em como deverão se vestir: uma majestade pode adentrar onde quiser com uma mera bermuda ou canga (ou sunga e biquíni) e uns chinelos, o que importa é que esteja bronzeada e hidratada. Quanto a esse último quesito, não se duvide de que a cidade dispõe de recursos infindos, com suas lojas de sucos a cada esquina e seu chope a jorrar quase ininterrupto pelas brancas serpentinas de seus lendários e onipresentes bares.

Mas a majestade se estende para além dos corpos: ela acontece quando o banhista chega na praia e elege o lugar onde irá se bronzear e, de quebra, ver os demais corpos se bronzearem. Para cada um há um lugar, seu, inquestionável e, se for o caso, perene (como aquela propaganda de cerveja em que os corpos começam jovens e terminam meros esqueletos, porém igualmente felizes). Sua majestade está com calor? Dá-se um mergulho no mar. O mar está sujo? Não tem problema, foi pra isso que aquele antepassado de todos criou um jardim na beira de uma encosta, adjacente à floresta, onde correm sonoros riachos e pairam refrescantes sombras. Pintou uma fome? Bom, se esse era um ponto em que vossa majestade estava meio capenga de referências, saiba que agora está disponível um guia dos melhores bistrôs do Rio, assinado pelo mestre dos mestres dos guias sobre bistrôs (o de Paris quebrou um galhão, e o de Buenos Aires ainda quebrará, um dia), o carioca Alex Herzog. Nele, encontrará tesouros dignos somente dos mais empoderados monarcas – sendo que alguns se acharão bem ao alcance da sua mão, caso esteja na praia, num dos quiosques da orla de Copacabana.

Empenho, majestade, poder elevados a altíssimas potências; e uma distância respeitável entre uma vigência e outra. O que falta? Talvez, somente um revezamento, um giro, como os que damos naqueles cubos, em busca de que todas as suas faces fiquem de uma única cor (de Rubik). A Copa do Mundo de 2014 e seus desdobramentos são um puzzle que já está em andamento.

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A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino

O DESBUNDE, AO QUE PARECE, ACONTECE DE MEIO EM MEIO SÉCULO

Foi o meu amigo Denilson Lopes quem deu o aviso no facebook (coisa pouco usual em se tratando desse professor e autor de inúmeros ensaios sobre cultura contemporânea): um filme italiano, comparável a 8 e ½ ou Roma do mestre Federico Fellini, com resenha no NY Times em que é resgatado Walter Benjamin e seu flanêur baudelairiano, está em cartaz.  Fui ver A grande beleza, de Paolo Sorrentino, com a intuição de que estava prestes a ver algo muito bom, marcante, apesar de não ter absolutamente nenhuma outra referência a respeito desse cineasta, salvo a já mencionada; e não me enganei. Quando, já pro final, numa cena mágica na faustosa sacada do apartamento do protagonista, a moça do casal que sentou a meu lado exclamou “puta merda, que filme!”, eu só pude lhe ser grato, por expressar o que eu também estava sentindo.

Jep Gambardella, magnificamente vivido pelo ator Toni Servillo, é, certamente, um personagem para ficar na memória. Jornalista e escritor de um livro único, mas proverbial, é um vencedor na vida: aos 65 anos, comemorados em vibrante e concorrida festa logo no início do filme, é amigo, como será visto adiante, dos guardiões das belezas (e riquezas) escondidas de Roma, cidade que parece lhe pertencer. Seu apartamento, por exemplo, onde reúne seus amigos, dá de frente pro Coliseu. Seu livro foi resenhado (favoravelmente) por ninguém menos que Alberto Moravia, as mulheres do jet-set (viria daí seu nome, após uma troca do “t”pelo “p”?) sucumbem como carneiros ao brilho de sua curiosidade misturada à sua sensibilidade – até mesmo o seu enigmático e taciturno vizinho não resiste e lhe entrega, a certa altura, o segredo do nome de seu alfaiate. Sua chefe, editora da revista para a qual escreve, é sua amiga e confidente, e juntos eles riem dos pontos de vista e das tiradas que ele expressa nas suas reportagens.

Contudo, o que lhe dá maior estatura aos nossos olhos, no decorrer do filme, é algo outro, que se conecta a todas essas qualidades acima pela via do savoir-vivre: é a forma como se entrega ao que é mesmo belo, é a sua devoção a isso quando lhe aparece pela frente, mesmo que na forma de uma stripper cinquentona, ao mesmo tempo que a sua não hesitação em rejeitar de imediato tudo aquilo que pretende sê-lo, mas não é. Sim, isso tem mesmo a ver com Baudelaire e com Benjamin, caso queiramos resgatá-los, mas, antes, comecemos por Fellini, de quem peguei o desbundante 8 e ½ para ver, achando que já o tinha visto (mas não tinha, obrigado Denilson).

Não vou, aqui, resumir esse filme obrigatório e genial. O que, sim, pode ser interessante é sondar quais os pontos em que esses dois filmes, distanciados um do outro por cinquenta anos, se tocam, afastando-se. São, ao meu ver, três: Roma e sua “fauna” (o termo é de 8 e ½)  herdeira de um milenar paganismo, a presença da Igreja Católica e, por último, a profissão de um e de outro protagonista, ambos, sendo intelectuais, a lidar com aspectos de uma mesma substância: a verdade.

Grande parte do filme de Fellini ocorre não em Roma, mas num balneário próximo, onde Guido, o protagonista, está hospedado, tratando-se nas termas de um dos seus hotéis, ao mesmo tempo em que todo o staff do filme que ele realiza, enquanto diretor. O set de filmagem e o balneário se confundem, mas ambos inalam, no fundo, os ares que só podem vir dessa cidade berço de uma civilização, em que a moral já sofreu tudo o que tinha pra sofrer. Roma é incurável: eis o que parece nos dizer esse filme já no seu final, quando todo o projeto cinematográfico, com sua incrível e dispendiosa base de lançamento de naves espaciais, fracassa, mas toda a equipe se põe a dançar alegremente na forma de trenzinho. Esse contexto, encarnado e portador da quebra de toda e qualquer ilusão, é o habitat de Jep Gambardella, nada deixando isso mais claro do que a cena em que uma fila de pacientes, dentre as quais uma freira com hiperidrose nas mãos, é atendida por um médico curandeiro que aplica injeções de botox como se fossem passes de um pai-de-santo. Filmar isso, esse carnaval cotidiano, tudo indica, só mesmo sendo italiano, o que parece querer dizer (sendo) capaz de lançar mão de travellings geniais, presentes em ambos esses filmes. Ninguém mais, a não ser esses mestres que descendem de Da Vincis, Michelangelos e Maquiavéis, me desculpem, entrega o que eles entregam…

No trato com a Igreja Católica, começamos a perceber aquilo que pode representar um distanciamento entre um e outro filme. Em 8 e ½ vemos o esforço por parte de Guido em obter dela um salvo-conduto para incorporar prelados ao filme, como que a buscar, no cinema, uma forma de superação de necessidades espirituais cuja única referência ele (e a sociedade italiana) tinha na liturgia e na doutrina católica – bem como a discussão concomitante, com o roteirista do filme, quando esse lhe alerta para o impossível da tarefa. Em A grande beleza, a Igreja também dá suas caras, só que na dupla e ambivalente figura de, por um lado, um cardeal que só se interessa em dar receitas culinárias e, por outro, de uma santa que, em suma coerência com o voto de pobreza feito, dialoga quase silenciosamente com a fina, requintada espiritualidade do protagonista, ambos (ela e ele, protagonista) sendo capazes de reconhecer a importância das coisas (como as raízes que ela come) à medida em que se apresentam. Uma dimensão espiritual, de uma nova ordem, sim, é viável, existe.

Por último, a questão da profissão, que também desemboca no tema do flâneur baudelairiano. Em Jep, ao contrário de Guido – cuja invencionice talvez nunca venha a ser perdoada a não ser quando restrita a território romano (ou cinematográfico) –, temos uma potência, ou seja, aquilo que propriamente entusiasmava a Baudelaire. Este via em Constantin Guys, pintor contemporâneo seu, alguém dotado da capacidade do novo na medida em que, para além da sua atividade diurna de plena e profunda observação da vida ao seu redor, do “real”, praticava, à noite, na sua pintura, a resolução, a saída, a fuga, em última instância, em direção a novas realidades possíveis. Jep, jornalista, repórter, é alguém que não se engana, que percebe as agruras e o peso do estar vivo – eis aí, tenho tido a oportunidade de perceber, quase um ethos dessa profissão –, mas tudo isso não o abate (ao contrário da maioria dos seus colegas): ele consegue escapar e se refugiar lá onde a beleza, que não é nunca grande, mas efêmera, acontece. É isso – essas pausas que, na verdade, são uma filosofia redonda e que se faz complementar pela rejeição extrema e sem dó da mentira, já mencionada acima como o que pretende ser belo, mas não é – o que lhe permite, de fato, como uns flamingos que a certa altura aparecem na sua sacada, alçar longínquo voo.

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Jovem e Bela, de François Ozon

ABANDONANDO O QUE NÃO EXISTE

François Ozon ataca novamente, com sua máquina de ruídos. Sim, esse que é, na atualidade, talvez o meu cineasta predileto, está de volta, com Jovem e bela, mantendo o alto ritmo de produção e causando estragos por onde passa. Há alguns meses atrás, inscrevi um ensaio que fiz sobre o cinema desse jovem cineasta francês no concurso de uma revista de cultura. Esse ensaio não foi selecionado, e eis agora a oportunidade de lança-lo a público, para aqueles que tiverem interesse maior no assunto: a transgressão enfim viável. O ensaísmo é deveras algo que exige um querer a mais, tanto por parte do leitor, quanto do escritor. No caso deste último, um tempo de maturação para os insights, o envolvente trato com hipóteses, a dispendiosa checagem dessas, quase uma filosofia e, em suma, um exercício bem diferente desta atividade a que me dedico, já vai para quatro anos, neste blog, e que consiste muito mais em instigar meus leitores a verem (ou não) os filmes que aqui comento.

Jovem e bela dá continuidade ao que considero ser a temática chave do cinema de Ozon: o gozo. No ensaio a que me refiro acima, aponto para o fato de que um cineasta que teve forte influência sobre Ozon, Fassbinder, foi também um cineasta do gozo, os filmes de ambos sendo carregados por uma energia erótica evidente. Só que o gozo fassbinderiano permaneceu circunscrito a uma lógica do todo – fálica, no linguajar psicanalítico – ao passo que o gozo dos filmes de Ozon é um que se rege por uma lógica que excede à necessidade do completo – daí que, por exemplo, o tema do matrimônio, neste último, seja, ao contrário de no primeiro (quando aparece quase como um obstáculo a ser permanentemente, mas nunca efetivamente, transposto), uma impossibilidade assumidamente real. Como diria Lacan: não existe relação sexual.

Mas, trazendo isso para o chão desse novo filme, temos o caso de uma jovem, bela e “estranha” adolescente de classe média abastada que, após experimentar o sexo, resolve adentrar o mundo da prostituição, passando a vender o seu corpo na cidade onde mora com os pais, Paris. O que é que ela procura? O dinheiro? Nada disso: ele se acumula numa pequena bolsa que ela esconde entre as roupas do seu guarda-roupas. O prazer sexual? Certo, mas, o que exatamente vem a ser isso? É isso o que nos induz a perguntar a sua quase indiferença ao se deitar com seus clientes (e inclusive com seu primeiro homem). Na verdade, o seu prazer parece residir na confluência dessas duas coisas acima, dinheiro e sexo.

O problema passa a ser que esse gozo é algo que a sociedade não aceita, de jeito nenhum – na voz, outrora tropicalista e, agora, de diva, de Gal Costa, por exemplo, em recente disco com músicas e produção de Caetano Veloso, ouvimos que essas duas coisas, sendo “formas de libertação”, não deveriam jamais se encontrar. Isso é uma tremenda fonte de eventual (pois eis que se trata de uma jovem, que ainda tem todo um futuro pela frente) infelicidade; algo que talvez nos jogaria de volta ao mundo trágico de Fassbinder. Mas eis que o acaso –  ah! esse cúmplice do gozo – entra na jogada. Não na forma de amor (e o que é o amor?), mas – para não revelar a trama – diria que através de um amor compartilhado.

Jovem e bela me fez lembrar um romance belíssimo que li há pouco, junto com o grupo de amigos que fazem parte de um intrépido e delicioso clube de leitura do qual participo: O filho de mil homens, do português Valter Hugo Mãe. A trama que envolve os personagens desse livro inicia-se no absurdo da incompreensão, no buraco negro do preconceito para, como aponta o crítico Silviano Santiago, aos poucos, na forma quase de ondas sucessivas que varrem uma praia, lentamente adentrar numa feliz aceitação das elementares diferenças. A incompletude, uma vez aceita, parece caminho seguro para a placidez, desde, contudo, que se faça uso de algo que Santiago também aponta: a honestidade. Quando se joga com essa, sim, fortes resistências aparecem, o mundo parece, às vezes, querer implodir, o caos ameaça se instaurar, mas há algo que, resistindo, consegue alcançar uma nova terra, de pura concórdia, de ausência de explicações.

A protagonista de Jovem e bela por vezes choca, até mesmo aos que já embarcamos na (e aderimos à) ruidosa máquina de Ozon. Ela tem um quê daquela mãe ex-viciada que engravida de um cara que morre de overdose logo no começo de O refúgio (2009) – e que não dá a mínima para a filha que nasce, deixando-a, logo no seu primeiro sopro de vida, para que o cunhado homossexual a crie. Mas, se conseguirmos enxergar a coragem posta em jogo por ambas essas jovens quanto a se manterem honestas consigo mesmas, poderemos ver, quem sabe, uma beleza absolutamente nova.

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Sangue de Boi, performance por José Eduardo Garcia de Moraes

BRASÍLIA TAMBÉM TEM SEU “BLOCK”, SÓ QUE “RED”

O Museu Nacional do Conjunto Cultural da República, essa meia esfera de cujas entrâncias saem dois anéis como os de saturno e uma rampa como só os discos voadores ostentam, criação de Niemeyer que hoje está sendo cobiçada, para desgosto da classe artística local, por interesses federais, já havia recebido, que eu saiba, ao menos uma performance de José Eduardo Garcia de Moraes. Foi há cerca de um ano, ano e meio atrás, por ocasião de outra mostra coletiva da arte feita na cidade. José Eduardo, a certa altura da abertura do evento, chegou com um conjunto de melancias, que cuidou de posicionar, com todo o cuidado, na cúspide da rampa, como se fizessem parte de um arsenal de balas gigantes que iriam funcionar na defesa do “castelo”, então sob sítio de não se sabe quem. Só que, uma vez enfileiradas, em vez de catapultá-las para longe, ou coisa parecida, esse artista simplesmente as fez, uma a uma, rolar rampa abaixo, para a estupefação daqueles que ainda chegavam à vernissage – e que tiveram que acionar um súbito gingado de quadris e pernas para não serem atingidos por uma dessas (lentas) frutas. Os vendedores de água de côco ou pipoca, posicionados bem no final do percurso das melancias em descenso, fizeram a festa, abocanhando-as e lhes dando um destino final.

Desta vez o aviso dizia que tudo ocorreria no semáforo mais próximo do museu, supostamente aquele que cuida do entroncamento do Eixo Monumental com a L-2 Sul, próximo à Catedral de Brasília, essa outra sublime criação de Niemeyer. E foi lá mesmo que, uma hora depois do previsto, já noite plena – e com uma grande expectativa do público ciente, que começava a se deslocar do interior da nave para essas coordenadas extramuros – o artista desembarcou no seu Citroën, subindo em cima da calçada, e começou a tirar, de dentro dele, seu novo conjunto de “objetos”: dezesseis garrafões do vinho tinto Sangue de Boi, embalados em plástico bolha. Depois dos abraços em alguns presentes começou a  desembalar os garrafões e, uma vez terminado, vestiu um paletó escuro e rumou, com uma bandeja prateada em mãos, para o centro da grande pista do Eixo Monumental. Era o início de tudo.

Tal qual quando se fixa num campo de futebol o ponto de onde se chuta o pênalti, a bandeja foi deixada na pista; o sinal abriu, os carros avançaram e, a essa altura, José Eduardo já estava na calçada, pegando o primeiro dos garrafões, cujo conteúdo, em seguida e assim que conseguiu de novo atingir o ponto em que estava a bandeja-agora-alvo, ele começou a despejar em cima do objeto prateado. A situação estava desenhada, os corações de todos, agora, partindo da doce familiaridade proporcionada por tudo o que tinha se apresentado até aquele momento, disparavam ao perceber que o artista, face ao forte fluxo de veículos (era o final de uma sexta-feira), tomava um cuidado mínimo; e que, quando chegava na marca que havia deixado, simplesmente erguia o garrafão e se importava somente de que o que dele jorrava atingisse a bandeja. Nenhum anteparo entre ele e os carros, a não ser o olhar assustado do público, a partir da calçada, que todo motorista atento (mas também só esses) é obrigado a perceber.

Essa é a arte de José Eduardo Garcia de Moraes, já comentada por mim em outro post – e da qual sou inteiro admirador. Cada performance sua consegue, parece-me, no breve lapso em que acontece, reunir o universo, juntando os seus mais díspares, mas totalmente representativos, elementos: sempre conjuntos mínimos, mas que, uma vez postos em contato, atravessam distâncias por demais extensas na cabeça de quem as assiste. Uma espátula, também prateada, era o quinto e último elemento – além da bandeja, dos garrafões, do líquido que deles jorrou e do tráfego de veículos – e ela certamente era um par para a fina bandeja, ambas indicando um serviço, algo tão comezinho, nesta corte que é Brasília, quanto os pratos importados e as garrafas de água Perrier que já fizeram parte de uma belíssima instalação sua, que teve lamentável fim na Câmara Legislativa do DF. Só que aquilo que estava sendo servido, em derrame, era vinho, não por acaso, em função de sua cor, equiparado ao sangue de um animal (mas também nós temos o sangue dessa cor).

Os carros, ônibus e, a certa altura, também as bicicletas a avançar perigosamente, parece-me que não eram o mero indício – inclusive explicado, pelos fotógrafos que lá estávamos, aos agentes do Detran que lá chegaram, incrédulos, por volta do oitavo ou décimo garrafão, limitando-se educadamente a formar uma barreira com a viatura em que estavam – de que a verdadeira arte tem sempre um componente de risco. Eles eram os elementos perfeitos para situar o que se via num presente, numa atualidade, configurando um contundente acréscimo – e está claro que não de uma maneira imediatista ou óbvia – a tudo o que aqui, nestas paragens, faz jorrar “rios” de “sangue”.

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